FSSPX confirma ordenações episcopais para 1º de julho apesar de advertência do Vaticano

MENZINGEN, 19 de fevereiro de 2026 — A Fraternidade São Pio X (FSSPX) confirmou que prosseguirá com as ordenações episcopais previstas para 1º de julho, mesmo após advertência da Santa Sé de que tal ato, se realizado sem mandato pontifício, configuraria “ruptura decisiva da comunhão eclesial (cisma)”.

A decisão foi formalizada em carta datada de 18 de fevereiro, enviada pelo Superior Geral da Fraternidade, padre Davide Pagliarani, ao cardeal Victor Manuel Fernández, prefeito do Dicastério para a Doutrina da Fé. O encontro entre ambos ocorreu no Vaticano em 12 de fevereiro.

Na resposta oficial, assinada pelo Conselho Geral da FSSPX e divulgada em Menzingen na Quarta-feira de Cinzas, a Fraternidade acolhe positivamente a proposta de retomada de discussões doutrinais, mas declara não poder aceitar “a perspectiva e os objetivos” apresentados pelo Dicastério, tampouco o adiamento das ordenações.

Diálogo desejado, mas com divergências de base

O padre Pagliarani recorda que já havia proposto oficialmente a retomada de um diálogo doutrinal em 17 de janeiro de 2019. Segundo ele, à época não houve interesse concreto por parte do Dicastério, sob o argumento de que um acordo doutrinal seria impossível.

Na carta atual, o Superior Geral reafirma que a Fraternidade considera útil e desejável uma discussão teológica, mesmo que não se chegue a consenso. Contudo, sustenta que tal diálogo não pode ocorrer sob a ameaça pública de sanções canônicas.

A principal divergência permanece centrada nas orientações adotadas desde o Concílio Vaticano II. De acordo com o texto, a FSSPX entende que há uma ruptura com a Tradição da Igreja em determinados pontos doutrinais e pastorais, agravada por desenvolvimentos posteriores no período pós-conciliar.

O documento afirma que não seria possível definir conjuntamente “os requisitos mínimos para a plena comunhão com a Igreja Católica”, uma vez que, segundo o próprio prefeito teria lembrado, os textos conciliares não podem ser corrigidos, nem a legitimidade da reforma litúrgica pode ser contestada.

Contexto e precedentes

A carta também menciona o histórico de diálogo entre a Santa Sé e a Fraternidade, iniciado formalmente em 2009 e prolongado até 2017. Segundo o texto, esse processo terminou com uma decisão unilateral do então prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, o cardeal Gerhard Ludwig Müller, que teria estabelecido como requisito mínimo para plena comunhão a aceitação integral do Concílio e do período pós-conciliar.

A FSSPX argumenta que um novo diálogo, conduzido sob pressão ou com objetivos já definidos, tenderia a repetir o mesmo impasse.

A questão do cisma

Respondendo diretamente à advertência do Vaticano, a Fraternidade sustenta que uma consagração episcopal sem mandato pontifício não constitui automaticamente cisma, desde que não haja intenção de romper a comunhão nem atribuição de jurisdição paralela. A posição é defendida em anexo teológico encaminhado junto à carta.

Por sua vez, a Santa Sé considera que tal ato representaria ruptura objetiva da comunhão eclesial, com “consequências graves”.

Apelo à caridade e à compreensão pastoral

No trecho final, o Superior Geral dirige-se ao cardeal Fernández como pastor, solicitando compreensão pastoral e afirmando que a Fraternidade não busca privilégios nem regularização canônica imediata, mas apenas a possibilidade de continuar administrando os sacramentos às almas confiadas ao seu cuidado.

O documento conclui afirmando que o tempo até 1º de julho será dedicado à oração, pedindo luz do Espírito Santo e compreensão por parte da Santa Sé.

Com a confirmação das ordenações, o cenário aponta para um novo momento de tensão entre Roma e a Fraternidade, reabrindo uma questão que permanece em suspenso há décadas no interior da Igreja.

Com informações da FSSPX News