Entre o Dogma e o Pastoral: quando Roma fala, mas a Tradição responde
Diário de um Católico na Contrarrevolução – Parte 48
Há momentos na história da Igreja em que o silêncio seria
mais confortável. Mas a consciência católica não nasceu para o conforto —
nasceu para a verdade.
Nesta semana, vimos mais um capítulo da tensão que atravessa
nosso tempo: de um lado, a afirmação de que os textos do Concílio Vaticano II
“não podem ser modificados”; de outro, a lembrança firme de que apenas a
Palavra de Deus é imutável em sentido estrito. A discussão não é periférica. É
estrutural. É sobre o que é eterno e o que é circunstancial. É sobre o que é
pedra e o que é reboco.
E reboco, meus caros, às vezes racha.
O que não muda… e o que sempre mudou
A Igreja sempre ensinou que o depósito da fé é imutável. O
dogma não evolui como moda de estação. O que foi definido solenemente
permanece. O Credo não entra em atualização de software.
Mas a Igreja também sempre distinguiu entre:
- Verdades
reveladas e definidas;
- Ensino
definitivo;
- Magistério
autêntico não definitivo;
- Disposições
disciplinares e pastorais.
Misturar tudo é receita para confusão. E confusão não é obra
do Espírito Santo.
O próprio contexto do Vaticano II foi pastoral. Não se
proclamaram novos dogmas. Não houve definições ex cathedra. Houve, sim,
orientações, linguagens adaptadas, tentativas de diálogo com o mundo moderno.
E aqui começa o drama.
Porque o mundo moderno não é neutro. Ele tem pressupostos.
Ele tem agenda. Ele tem uma visão de homem que frequentemente colide com a
Tradição bimilenar da Igreja.
A ilusão da intocabilidade
Quando se afirma que os textos do Concílio “não podem ser
modificados” sem distinção, cria-se um problema teológico sério. A Igreja nunca
ensinou que formulações pastorais são irreformáveis.
O exemplo histórico é claro: o Quarto Concílio de Latrão
teve disposições disciplinares que, séculos depois, não foram mantidas. Nem por
isso a Igreja traiu a fé. Pelo contrário: purificou sua expressão.
Se outros concílios tiveram aspectos disciplinares
ajustados, por que a simples hipótese de examinar ambiguidades do Vaticano II
causa tanto escândalo?
A pergunta não é revolucionária. É profundamente católica.
A FSSPX e o espelho incômodo
A Fraternidade Sacerdotal São Pio X não é um fantasma
medieval. É um sintoma. Sintoma de que algo não foi plenamente resolvido.
Quando se propõe regularizar primeiro e dialogar depois, a
ideia não é capitular à desobediência, mas trazer o debate para dentro da casa.
A Igreja sempre foi mais forte quando enfrentou tensões internamente, à luz da
Tradição.
Ignorar as críticas não as dissolve. Apenas as empurra para
a margem.
E sejamos honestos: muitas das chamadas “ambiguidades” do
Concílio não foram inventadas por tradicionalistas ressentidos. Foram apontadas
por teólogos sérios, inclusive alinhados ao que se convencionou chamar de
“hermenêutica da continuidade”.
A questão é simples: continuidade precisa ser demonstrada,
não presumida.
A Missa que não envelhece
Enquanto documentos são debatidos, a Missa Tridentina
permanece. Silenciosa. Solene. Vertical.
Ela não depende do espírito da época. Não dialoga com
modismos. Não tenta ser simpática ao mundo. Ela aponta para o Céu.
É curioso: aquilo que muitos consideram “superado” é
justamente o que mantém intacto o senso do sagrado. O altar voltado para Deus.
O latim que universaliza. O silêncio que fala mais alto que qualquer microfone.
A liturgia tradicional é uma resposta viva à crise
contemporânea. Não é nostalgia. É teologia rezada.
Modernismo: o velho erro com roupa nova
O modernismo sempre tentou fazer o mesmo movimento: adaptar
o conteúdo da fé à mentalidade dominante. Hoje ele não se apresenta como
negação explícita do dogma. Ele se disfarça de pastoralidade absoluta.
Tudo vira “processo”. Tudo vira “discernimento”. Tudo vira
“caminho”. Mas caminho para onde?
Se o pastoral se separa do dogmático, ele se torna política
eclesial. E política eclesial é areia movediça.
A Tradição, ao contrário, é rocha.
Conclusão: firmeza sem desespero
Não estamos diante do fim da Igreja. Estamos diante de uma
purificação dolorosa. A história mostra que crises sempre precederam
clarificações.
A pergunta que ecoa não é se o Concílio deve ser rejeitado.
A pergunta é: ele pode ser lido, examinado e, onde necessário, esclarecido à
luz da Tradição perene?
O católico na contrarrevolução não é um rebelde. É um
guardião. Ele ama Roma demais para fingir que não há problemas. Ele ama a
Igreja demais para abandoná-la.
Seguimos. Firmes. Sem histeria. Sem ingenuidade. Com os pés
na Tradição e os olhos na eternidade.
Por um Católico consciente e atento ao cenário eclesial
do Brasil e do Mundo.