Vaticano confirma diálogo com a FSSPX após anúncio de consagrações episcopais sem mandato papal


ROMA, 4 de fevereiro de 2026 — O prefeito do Dicastério para a Doutrina da Fé, cardeal Víctor Manuel Fernández, confirmou que se reunirá na próxima semana com o superior geral da Fraternidade Sacerdotal São Pio X (FSSPX), padre Davide Pagliarani, em meio à crescente tensão entre a Santa Sé e o grupo tradicionalista.

A reunião ocorre poucos dias depois de a FSSPX anunciar sua intenção de consagrar novos bispos em julho deste ano sem mandato pontifício — ato que, caso se concretize, configurará cisma canônico e acarretará excomunhão automática para os envolvidos.

Em declaração ao portal The Pillar no dia 4 de fevereiro, o cardeal Fernández afirmou que o encontro tem como objetivo “tentar encontrar um caminho frutífero de diálogo”. Segundo ele, a carta recentemente mencionada pela FSSPX — e criticada por não responder às solicitações da fraternidade — foi enviada pelo próprio Dicastério para a Doutrina da Fé e limitou-se a negar a possibilidade de novas ordenações episcopais no momento.

De acordo com o comunicado divulgado pela FSSPX em 2 de fevereiro, a decisão de avançar com as consagrações ocorreu após o padre Pagliarani ter solicitado uma audiência com o papa Leão XIV em agosto de 2025 e, posteriormente, ter recebido uma resposta do Vaticano considerada insuficiente pelo grupo.

Fontes ouvidas pelo The Pillar indicam que diálogos anteriores envolveram também os bispos Bernard Fellay e Alfonso de Galarreta, além de autoridades vaticanas como o cardeal Kurt Koch e dom Guido Pozzo, ex-secretário da extinta Pontifícia Comissão Ecclesia Dei. O cardeal Fernández, no entanto, esclareceu que a próxima reunião será restrita a ele e ao superior da FSSPX.

Fundada em 1970 pelo arcebispo francês Marcel Lefebvre, a Fraternidade Sacerdotal São Pio X surgiu em oposição às reformas do Concílio Vaticano II. Em 1988, Lefebvre foi excomungado por consagrar quatro bispos sem autorização papal, ato considerado cismático pela Igreja. Embora as excomunhões dos bispos tenham sido levantadas pelo papa Bento XVI em 2009, a FSSPX permanece sem status canônico regular.

Atualmente, apenas dois dos quatro bispos consagrados em 1988 estão vivos: dom Bernard Fellay e dom Alfonso de Galarreta. A Santa Sé descreve a situação da fraternidade como de “irregularidade institucional” e fala em “comunhão imperfeita” com a Igreja.

Durante o pontificado do papa Francisco, o diálogo com a FSSPX foi mantido, com concessões pastorais significativas, como a faculdade permanente para os padres da fraternidade ouvirem confissões válidas e, em casos restritos, assistirem a casamentos com autorização do bispo diocesano. Ainda assim, a regularização jurídica definitiva nunca foi alcançada.

Especialistas em direito canônico alertam que, caso as consagrações episcopais anunciadas se realizem sem mandato pontifício, o gesto poderá anular décadas de aproximação e recolocar as relações entre Roma e a FSSPX no mesmo impasse vivido em 1988.

A reunião entre o cardeal Fernández e o padre Pagliarani é vista, portanto, como uma tentativa derradeira de evitar um novo rompimento formal.

Com informações do portal The Pillar