Entre o Altar e o estábulo: a sabedoria prática da Regra do Carmo
A Regra do Carmo não avança aos saltos; ela caminha. E
caminha como quem conhece o ritmo da alma humana. Primeiro, recolhe. Depois,
ordena. Por fim, entrega. Nada aqui é improviso.
No número 11, fomos conduzidos da cela à oração comum. A
Regra nos ensinou que a solidão carmelitana não é fuga, mas escuta; não é
isolamento, mas preparação. A cela educa o coração, e o coro educa o tempo. Ali
aprendemos que a oração não é capricho pessoal, mas respiração comunitária — um
ritmo que sustenta o dia inteiro e insere o eremitério no grande louvor da
Igreja.
Mas a Regra não se contenta em formar orantes bem
organizados. Ela quer formar irmãos. Por isso, depois de ordenar o silêncio e o
louvor, ela desce ao chão da vida concreta. É exatamente aqui que entram os
números 12 e 13. Se o número 11 regula o tempo da oração, estes regulam o uso
das coisas. Se antes a Regra cuidava do coração diante de Deus, agora cuida do
coração diante do outro.
O movimento é claro e intencional: da cela ao coro, do coro
à mesa; do louvor partilhado à vida partilhada. A oração comum não termina no
“Amém”. Ela precisa se traduzir em gestos, escolhas, renúncias e critérios
concretos. Caso contrário, vira discurso bonito e vida desmentida.
Os números 12 e 13 colocam o leitor diante de uma pergunta
simples e incômoda: o que faço com aquilo que possuo? No Carmelo, a resposta
não nasce da ideologia, mas do Evangelho vivido. A comunhão dos bens não é um
acessório da vida espiritual; é sua consequência natural. Onde há verdadeira
oração, nasce a partilha. Onde há silêncio habitado por Deus, desaparece a
obsessão pelo “meu”.
Este comentário, portanto, não trata apenas de normas
antigas ou de práticas monásticas superadas. Ele toca o nervo exposto da vida
cristã em qualquer tempo: a tensão entre posse e confiança, entre segurança
pessoal e fraternidade real. A Regra do Carmo, com sua lucidez desarmada, não
propõe teorias — propõe um caminho.
Ao entrar nos números 12 e 13, o leitor é convidado a dar
mais um passo: sair do espaço interior já ordenado pela oração e permitir que
essa oração reorganize também a relação com os bens, com o trabalho, com o
outro. Porque, no fim das contas, a mística carmelitana só se sustenta quando o
“nosso” vence o “meu”.
III. Os pontos básicos do ideal da Vida Carmelitana
Regra da Ordem do Carmo:
12. Nenhum dos irmãos diga que algo é seu, mas tende entre vós tudo em comum, distribuindo-se a cada um o que for preciso pela mão do Prior — ou seja, pelo irmão por ele designado para este serviço —, tendo-se em conta a idade e as necessidades de cada um.
13. No entanto, na medida em que vos for necessário, podereis ter burros ou mulas e criar algum tipo de animais ou de aves para alimentação
No número 11 da Regra do Carmo, a alma é convidada à perseverança
na oração — uma chama que arde sem se apagar, mesmo nos silêncios mais densos
do deserto. Ali o carmelita aprende a manter o coração habitado por Deus, e
Deus, por sua vez, habita o coração do orante. Agora, com os números 12 e 13,
essa interioridade ganha corpo comunitário: a oração, antes recolhida, desdobra-se
em gesto fraterno. O Carmelo se recorda de que não se vive apenas de
contemplação, mas de comunhão. A Regra nos sussurra: “Quem reza de verdade,
aprende a partilhar.”
Os números 12 e 13 nascem de um contexto muito concreto: o
dos primeiros eremitas latinos que, entre os séculos XII e XIII, fixaram-se no
Monte Carmelo, junto à fonte de Elias. Eram homens vindos de diferentes
nações e línguas, unidos por um mesmo desejo de vida solitária em Deus. Mas
toda solidão, quando é evangélica, precisa de comunhão — e foi isso que eles
descobriram. A convivência entre monges de origens tão diversas exigia uma
disciplina de partilha: bens comuns, responsabilidades divididas, confiança
mútua.
O ideal que inspirava o texto da Regra vinha das primeiras
comunidades cristãs descritas nos Atos dos Apóstolos: “A multidão dos fiéis era
um só coração e uma só alma.” Essa referência não era literária, mas
existencial. Os carmelitas viam-se como herdeiros directos daquela simplicidade
apostólica, onde o “meu” e o “teu” desaparecem diante do “nosso”. Essa comunhão
material era expressão da comunhão espiritual — um modo de testemunhar o Reino
ainda neste mundo.
A figura do Prior, central nesse contexto, aparece não como
chefe ou proprietário, mas como servidor da unidade. Era ele quem, “pela
mão”, distribuía o necessário a cada um, segundo a idade e as necessidades.
Essa “mão do Prior” é imagem de mediação: não se trata de poder, mas de
cuidado. A Regra intui que toda autoridade é serviço, e que toda administração
deve cheirar a fraternidade, não a domínio.
O número 13 acrescenta um toque de realismo. Os monges,
vivendo em ermitérios afastados, precisavam garantir sua própria subsistência.
Assim, a Regra admite a posse de animais e aves, não como forma de riqueza, mas
de prudência. Há aqui um equilíbrio encantador: o Carmelo sabe ser pobre sem
ser ingênuo, livre sem ser irresponsável. A pobreza, para eles, não é desprezo
das coisas, mas uso justo e moderado delas — tudo em função da vida comum e da
contemplação.
Por fim, esse contexto histórico revela um ideal de
simplicidade que se tornou marca do espírito carmelitano: viver com pouco,
cuidar de tudo, e repartir o necessário. O que era norma prática tornou-se
espiritualidade: o Carmelo aprende a viver o Evangelho não só de joelhos, mas
também de mãos abertas.
Teologicamente, o princípio da comunhão dos bens é
eco da própria vida de Deus. O Carmelo vê na Trindade o modelo supremo de
partilha: o Pai nada retém, o Filho tudo recebe e tudo devolve, o Espírito é a
comunhão viva entre ambos. Assim, viver sem dizer “isto é meu” é participar da
dinâmica divina — é deixar que o “nós” da Trindade molde o “nós” da comunidade.
Nesse sentido, a Regra do Carmo não trata apenas de economia material, mas de
uma economia do amor. O carmelita é chamado a encarnar a lógica divina do
dom: aquilo que possuo, posso para doar; aquilo que recebo, recebo para
servir. A partilha não é virtude opcional, é a estrutura espiritual do ser
cristão.
A teologia carmelitana, sempre centrada na união com Deus,
reconhece que essa união se prova no amor fraterno. Não basta contemplar o
rosto de Cristo na oração — é preciso reconhecê-lo também no irmão que precisa
de um pedaço de pão ou de um pouco da minha paciência. Assim, o número 12
traduz em gesto concreto o que o número 11 propunha em espírito: a oração
interior gera comunhão exterior.
Na vida concreta, esses números da Regra moldam um estilo de
convivência muito particular. A comunhão dos bens exige desprendimento,
mas também discernimento. Não se trata de nivelar as necessidades, mas de
reconhecê-las com caridade e prudência. Cada irmão é único, e o que é essencial
para um pode ser supérfluo para outro. Por isso, A Regra insiste que a
distribuição se faça “segundo a ideia e as necessidades”. É a
pedagogia da equidade, onde justiça e misericórdia andam de mãos dadas.
Na prática, essa comunhão gera uma alegria discreta, uma
liberdade interior. Quem nada possui, nada teme perder. E quem reparte o que
tem, ganha irmãos. É nesse clima que o Carmelo se torna oásis espiritual:
porque a partilha material espelha uma comunhão de almas.
Hoje, mais do que nunca, essa proposta soa provocante.
Vivemos entre cercas e senhas, medos e vaidades. O Carmelo, com sua Regra
simples e radical, desafia o lembrete sagrado de que o “nosso” é mais
sagrado que o “meu”. A comunhão fraterna é antídoto para o individualismo
que seca o coração moderno.
Bibliografia de referência
MESTERS, Frei Carlos. Ao Redor da Fonte: Um comentário da Regra do Carmo. Belo Horizonte: Província Carmelitana Santo Elias, 2013.