O dia em que a Igreja ensinava a esperar: o enterro do Aleluia


Há tradições que não morrem: dormem. O Enterro do Aleluia é uma delas. Caiu em desuso, é verdade, sobretudo após a reforma litúrgica do Concílio Vaticano II, mas desuso não é sinônimo de irrelevância. Às vezes, é só esquecimento — e o esquecimento é sempre mais perigoso que a negação.

Enterrar o Aleluia soa estranho ao ouvido moderno. Quase um escândalo. Como assim “enterrar” a palavra mais luminosa da liturgia cristã? Mas é justamente aí que mora a sabedoria antiga: só quem sabe calar o Aleluia é capaz de cantá-lo de verdade na Páscoa. O cristianismo tradicional nunca teve medo do silêncio, nem do luto simbólico, nem da pedagogia do tempo. Hoje a gente quer tudo agora, sempre alegre, sempre “pra cima”. A liturgia antiga dizia: calma. O tempo ensina. O corpo aprende antes da cabeça.

O Enterro do Aleluia não era teatro vazio. Era catequese encarnada. Crianças vestidas de festa, procissão, incenso, água benta, lamentos quase exagerados — tudo isso ensinava algo simples e profundo: há um tempo para cantar e um tempo para calar. O Aleluia, como o próprio Cristo, se retira por um tempo. Não porque perdeu força, mas para que a ausência nos eduque no desejo. Sem saudade, não há reencontro. Sem jejum, o banquete vira rotina.

A teologia por trás disso é fina, quase poética demais para nosso gosto funcional. O Aleluia não é abolido; é velado. A Igreja não o destrói; o confia à terra, como semente. É Gênesis e Evangelho ao mesmo tempo: morrer para frutificar. O silêncio quaresmal não é depressão litúrgica, é expectativa. A cruz já carrega escondida a luz da ressurreição. Só que a gente precisa aprender a esperar.

Depois do Concílio Vaticano II, muita coisa boa aconteceu — sem dúvida. Mas também perdemos o gosto pelo símbolo forte, pelo gesto que fala mais alto que mil explicações. Simplificamos tanto que, às vezes, empobrecemos. O Enterro do Aleluia era um tapa pedagógico: lembrava que a fé não é só ideia correta, é experiência ritual que molda a alma. Quando tudo vira explicação, nada vira memória.

E tem mais: essa tradição ensinava algo que o mundo moderno detesta — a alegria cristã não é constante, mas fiel. Não é euforia contínua, é esperança teimosa. O Aleluia se cala para que a dor do mundo seja levada a sério. A Igreja antiga não passava pano no sofrimento humano. Ela jejuava, chorava, caminhava devagar rumo à Páscoa. Hoje, às vezes, parece que temos medo de parecer tristes, como se a cruz fosse má propaganda.

Resgatar o Enterro do Aleluia — nem que seja ao menos na reflexão — é recuperar uma espiritualidade mais adulta. Menos ansiedade espiritual, mais densidade. Menos barulho, mais escuta. Não se trata de nostalgia estética, mas de visão teológica: Deus age no tempo, e o tempo precisa ser respeitado.

Talvez não voltemos a fazer procissões de crianças chorando o Aleluia nos claustros. Ok. Mas podemos, ao menos, reaprender a enterrá-lo dentro de nós por um tempo. Guardá-lo. Fazer silêncio. Deixar que a Quaresma seja Quaresma. Porque, no fundo, só explode em Aleluia quem teve coragem de viver o Sábado da espera.

E quando ele ressuscita na Vigília Pascal — ah, aí sim — o Aleluia não soa decorativo. Ele rasga a noite. Porque tudo o que foi enterrado com fé sempre volta… glorioso.

Por seu Irmão Carmelita Secular da Antiga Observância B

Nota Adicional:

O enterro do Aleluia, realizado no sábado que antecede o Domingo da Septuagésima, é um rito que revela a sabedoria litúrgica da Igreja Antiga. Ao suspender o Aleluia, a Igreja nos convida a um período de reflexão e penitência, preparando o coração para a Páscoa. Essa tradição, embora esquecida em muitos lugares, nos ensina que a verdadeira alegria cristã é precedida pela espera e pelo silêncio, refletindo a profundidade do mistério pascal.