São João da Cruz e São Tomás de Aquino: doutrina e experiência no caminho para Deus
São João da Cruz e São Tomás de Aquino falam linguagens
diferentes, mas caminham na mesma direção. Um escreve com a precisão do
conceito, o outro com a nudez da experiência; ambos, porém, testemunham a mesma
verdade fundamental da fé cristã: o ser humano é chamado a uma união real,
interior e transformadora com Deus. Não se trata de uma metáfora piedosa, mas
de uma vocação concreta, inscrita no dinamismo da graça.
Em São Tomás, a vida cristã atinge sua perfeição no amor.
Amar a Deus plenamente não é fruto de um heroísmo psicológico, mas resposta à
iniciativa divina que eleva e move a alma desde dentro. Por isso, o Aquinate
ensina que as virtudes, por mais elevadas que sejam, permanecem insuficientes
sem os dons do Espírito Santo, que tornam o homem dócil à ação de Deus. Quando
a alma se deixa conduzir por esses dons, já não vive apenas segundo um cálculo
humano do bem, mas segundo um modo novo de ser, participado da própria vida
divina.
São João da Cruz descreve esse mesmo itinerário não a partir
da estrutura da doutrina, mas do crisol da experiência. A sua doutrina da
“noite” não é um desvio ascético nem um pessimismo espiritual, mas a expressão
rigorosa da pedagogia de Deus. A noite purifica porque despoja: desfaz imagens,
consolações e seguranças pelas quais a alma, sem perceber, substitui o próprio
Deus. É dolorosa porque atinge o que é mais íntimo; é necessária porque só
assim a fé se torna pura e o amor, verdadeiramente livre.
Ambos convergem num ponto decisivo: a contemplação não nasce
do esforço intelectual nem da excitação sensível, mas é sempre dom. Para São
Tomás, ela culmina no amor que une; para São João da Cruz, toda experiência
autêntica de Deus se verifica pela transformação da vida. Onde não há conversão
do amor, não há união real, mas ilusão espiritual.
O chamado “matrimônio espiritual”, descrito por São João da
Cruz com imagens de intensa força simbólica, corresponde àquilo que São Tomás
identifica como a mais alta perfeição possível nesta vida: uma união habitual
com Deus, pela qual a alma julga segundo Deus, ama segundo Deus e age movida
por sua graça. Não é privilégio reservado a exceções místicas, mas o termo para
o qual tende toda vida cristã plenamente fiel, ainda que se realize em graus
diversos.
Assim, a teologia de São Tomás oferece o alicerce firme,
objetivo e seguro do caminho espiritual; São João da Cruz mostra como esse
alicerce se torna existência vivida, purificação concreta e transformação
interior. Longe de se oporem, confirmam-se mutuamente. A experiência não
corrige a doutrina; ela a verifica na carne da vida.
Conhecer a Deus, ensinam ambos, não é acumular noções, mas
deixar-se configurar por Ele. O fim último da fé cristã não é falar
corretamente sobre Deus, mas viver n’Ele, até que o amor se torne forma estável
da existência.
Por um Carmelita Secular Anônimo