Quando a Tradição bate à porta do tempo
Diário de um Católico na Contrarrevolução — Parte 42
Introdução
Há dias em que a história não pede licença. Ela simplesmente
entra, senta-se à mesa e exige resposta. O anúncio da Fraternidade Sacerdotal
São Pio X — a decisão de proceder a novas consagrações episcopais a partir de
1º de julho de 2026 — é um desses dias. Não é manchete comum, não é nota
burocrática. É um sino tocando na madrugada. Quem dorme chama de barulho. Quem
vigia chama de aviso.
Escrevo estas linhas sem euforia e sem medo. Escrevo como
quem conhece a poeira das sacristias modernas e o ouro discreto da Tradição. O
que está em jogo aqui não é uma sigla, nem uma estratégia. É a pergunta que o
modernismo sempre tentou evitar: quem garante a continuidade da fé quando a
autoridade hesita?
Uma resposta que não responde
O comunicado da Casa Geral da SSPX é seco, quase austero.
Nada de bravatas. Nada de slogans. Há ali algo que Roma conhece bem, mas finge
esquecer: o vocabulário clássico da Igreja em tempos de crise — grave
necessidade, bem das almas, fidelidade ao Magistério perene. Palavras
antigas, hoje tratadas como peças de museu, mas que continuam funcionando como
chaves mestras.
A Fraternidade diz, em essência: pedimos, esperamos,
rezamos. E recebemos uma resposta que não responde. Eis o drama moderno em
versão eclesial: muita linguagem, pouca solução. Enquanto isso, os fiéis
continuam pedindo Crisma, os seminaristas continuam pedindo Ordenação, e os
bispos — homens de carne, não de conceito — continuam envelhecendo.
Aqui o modernismo mostra seu rosto mais cansado. Ele
acredita que tudo pode ser suspenso, negociado, adiado. Como se a Igreja fosse
uma conferência permanente, não um Corpo vivo. Como se a graça pudesse entrar
em “modo de espera”.
A SSPX, goste-se ou não, recusa essa lógica. E ao citarem
Dom Marcel Lefebvre, não fazem arqueologia sentimental. Fazem teologia
aplicada. Lefebvre lembrava — e Pagliarani repete — que a verdade não nasce do
consenso do momento, mas da fidelidade ao que sempre foi crido. Tradição não é
teimosia; é memória viva. É a Igreja lembrando quem ela é quando o espelho
moderno tenta convencê-la de que ela mudou de natureza.
Exemplos concretos
O contraste é gritante. De um lado, paróquias onde a Missa
virou assembleia, o silêncio virou constrangimento e o altar virou palco.
Catequeses que falam de tudo, menos de pecado, graça e cruz. Padres formados
para “dialogar com o mundo”, mas incapazes de conduzir uma alma à Confissão.
Do outro, capelas simples, muitas vezes improvisadas, onde a
Missa Tridentina continua formando sacerdotes com espinha dorsal, famílias com
raízes, jovens que sabem ajoelhar sem complexo. Não são perfeitos — ninguém é
—, mas sabem o que estão fazendo ali. Sabem que a liturgia não é experimento
sociológico, é herança recebida.
A decisão de consagrar novos bispos nasce exatamente aí. Não
de rebeldia, mas de responsabilidade. Quando a casa pega fogo, não se discute o
manual de condomínio. Apaga-se o fogo. Depois conversa-se.
Considerações que virão
Não sejamos ingênuos: os próximos meses trarão ruído.
Acusações fáceis, rótulos apressados, análises rasas. O modernismo sempre reage
assim quando alguém lembra que a Igreja não começou ontem. Mas, por baixo do
barulho, há algo mais forte: continuidade.
A esperança cristã não é otimismo bobo. É a certeza de que
Cristo não abandona sua Igreja — mesmo quando homens a confundem com seus
próprios projetos. A Tradição não está em guerra com o futuro; ela é o único
caminho para um futuro que não seja amnésia.
Neste diário de contrarrevolução, anoto com calma e firmeza:
tempos graves exigem decisões graves. E, goste-se ou não da SSPX, há ali um
lembrete incômodo e necessário — a fé se transmite, não se reinventa.
Seguimos. Com o breviário numa mão, a história na outra e os
olhos fixos na Cruz. Porque, no fim das contas, é sempre assim que a Igreja
atravessa as tempestades: não mudando de rumo, mas permanecendo.
Por um Católico consciente e atento ao cenário eclesial do Brasil e do Mundo.