O estado de exceção que virou regra

Diário de um Católico na Contrarrevolução — Parte 43

Introdução

Há tempos escrevo neste diário como quem acende uma vela em noite de vendaval. Não para fingir que o vento não existe, mas para lembrar que a chama ainda pode ficar de pé. A crise na Igreja já não é um evento: é um clima. Não é mais uma emergência: é um sistema. E quando o extraordinário se torna rotina, o católico fiel precisa parar, respirar fundo e perguntar — sem medo e sem slogans — o que exatamente está acontecendo com a autoridade, a doutrina e a vida sacramental da Igreja?

Os últimos acontecimentos envolvendo a Fraternidade Sacerdotal São Pio X não são um capítulo isolado. São mais uma página do mesmo livro aberto desde o pós-Concílio: ambiguidade em Roma, resistência na periferia, e almas no meio tentando não enlouquecer. Não escrevo como juiz, mas como filho. Filho ferido, mas não órfão.

Entre a exceção e a norma: a crise da autoridade na Igreja

A FSSPX invoca, mais uma vez, o “estado de necessidade”. Em 1988, Lefebvre falou em emergência. Em 2026, Pagliarani fala em emergência. Quase quarenta anos depois, a exceção virou regra. Isso, por si só, já deveria nos causar santo desconforto. A Igreja sempre conheceu perseguições, heresias, papas fracos e bispos corruptos. Mas nunca viveu oficialmente de soluções provisórias eternas.

Aqui é preciso ser honesto, sem histeria nem ingenuidade. A Fraternidade não está errada ao diagnosticar a devastação pós-conciliar: formação sacerdotal diluída, liturgia banalizada, moral relativizada, autoridade dissolvida em processos sinodais. Basta abrir os olhos, ouvir os santos de ontem e comparar com o que se prega hoje. São Pio X, patrono da Fraternidade, chamaria isso pelo nome certo: modernismo, a síntese de todas as heresias.

Mas também é preciso dizer — com caridade e clareza — que há uma tensão não resolvida no coração dessa estratégia: reconhecer a legitimidade da hierarquia romana enquanto se age indefinidamente à margem dela. Não se trata de legalismo barato; trata-se de coerência eclesiológica. Quando a exceção se perpetua, algo mais profundo está quebrado.

Roma, por sua vez, não é vítima inocente. Oscila entre censura e tolerância, entre condenação jurídica e silêncio estratégico. Um dia pune a Tradição com rigor microscópico; no outro, abençoa experimentalismos doutrinais e morais que fariam São Paulo rasgar as vestes. Isso não é governo pastoral; é administração de crise permanente. Exige obediência, mas perdeu a autoridade moral para comandá-la.

O resultado é esse teatro cansado: diálogos que não chegam a lugar nenhum, reconciliações parciais, documentos ambíguos, e uma Tradição tratada como convidada incômoda na própria casa.

Os sinais visíveis da crise invisível

Enquanto a Missa Tridentina é restringida, teólogos heterodoxos são promovidos. Enquanto seminários tradicionais florescem fora das estruturas oficiais, casas de formação diocesanas esvaziam. Enquanto fiéis atravessam cidades para assistir à Missa de sempre, paróquias inteiras se transformam em salas de ensaio litúrgico. Não é teoria: é chão de igreja, banco duro, joelho no piso frio.

Os santos sabiam que a fé se transmite pela forma. São Bento salvou a civilização com regra e liturgia. São Pio V unificou a Igreja com a Missa. Santa Teresa reformou o Carmelo voltando à observância, não inventando processos. O Magistério perene nunca tratou a Tradição como problema a ser contido, mas como tesouro a ser guardado.

Conclusão

Apesar de tudo, este diário não termina em desespero. A Contrarrevolução não é nostalgia; é fidelidade criativa ao que nunca envelhece. A Tradição não precisa de permissão para existir — ela existe porque é verdadeira. A Missa de sempre continua formando santos, famílias, vocações. E onde há santos, a Igreja respira.

Talvez estejamos, como dizia Dom Athanasius Schneider, vivendo uma prova permitida por Deus para purificar a fé. Talvez Roma precise reaprender a falar com voz clara. Talvez a Fraternidade precise tirar conclusões mais radicais. Não sei. O que sei é que a Igreja não pertence aos modernistas, nem aos burocratas, nem aos engenheiros pastorais. Ela pertence a Cristo.

E enquanto houver um altar onde o Sacrifício seja oferecido com fé, um padre que creia no que reza, e um fiel disposto a permanecer de joelhos — a chama não se apaga.

Seguimos. Contra a corrente. Com a Tradição.
Porque a verdade, não envelhece.

Por um Católico consciente e atento ao cenário eclesial do Brasil e do Mundo.