O dia em que o Amor recebeu outra bofetada
Tem dias em que o calendário não é só calendário. É um espelho.
A terça-feira de Carnaval, para o mundo, é barulho. Para a Igreja, desde 1958, tornou-se também silêncio. Silêncio reparador. Silêncio que não foge da realidade — encara. A Festa da Sagrada Face não é nostalgia medieval nem devoção “de nicho”. É um soco espiritual na nossa indiferença.
Enquanto a rua exalta máscaras, a liturgia nos mostra um Rosto. Desfigurado. Cuspido. Inchado. O Rosto que suou Sangue na agonia. O Rosto que não virou para o outro lado quando a bofetada veio. O Rosto que continua sendo atingido — agora nas almas que O ignoram.
A Sagrada Face é teologia pura. É o Verbo encarnado que aceita ter a beleza esmagada para restaurar a nossa. É o Deus invisível que se deixa ver — e ferir. E aqui entra a pergunta que incomoda: nós ainda nos importamos com as ofensas feitas a Nosso Senhor? Ou terceirizamos a dor d’Ele como se fosse “problema do passado”?
Reparação não é sentimentalismo. É justiça de amor. É dizer: “Senhor, eu sei que Te feriram. E eu não vou fingir que não vi.” Num mundo que normaliza blasfêmia como entretenimento e transforma pecado em fantasia coletiva, reparar é resistência espiritual. É remar contra a corrente. É ficar de pé quando tudo pede para dançar no escuro.
Mas vamos ser honestos: não dá para falar de reparação só olhando para fora. A bofetada não vem apenas da cultura; às vezes vem do nosso próprio coração morno. Quantas vezes o nosso silêncio diante do erro é mais alto que qualquer grito de Carnaval? Quantas vezes preferimos a máscara da conveniência ao rosto nu da verdade?
Contemplar a Sagrada Face é perigoso. Porque ela olha de volta. E o olhar de Cristo não acusa — revela. Revela o que somos. Revela o que poderíamos ser. Revela que ainda há tempo.
A tradição da Igreja sempre entendeu algo que o mundo moderno esqueceu: o pecado não é só “minha escolha pessoal”. Ele fere o Corpo inteiro. Se há ofensa, deve haver reparação. Se há ferida, deve haver bálsamo. E nós podemos ser esse bálsamo. Pequenos, imperfeitos, mas oferecidos.
Hoje não é dia de moralismo raso. É dia de ajoelhar. De oferecer um sacrifício escondido. De guardar os sentidos. De rezar um ato de reparação quando a maioria está distraída. Isso tem peso eterno. Parece pouco? Aos olhos do mundo, sim. Aos olhos de Deus, é ouro.
No fundo, a Sagrada Face nos ensina algo revolucionário: a verdadeira alegria não nasce da fuga, mas da fidelidade. O mundo grita e passa. O Rosto de Cristo permanece.
E quando tudo acabar — a música, as luzes, as máscaras — o que ficará? O Rosto. Sempre o Rosto.
Que hoje sejamos daqueles que não desviam o olhar.
Por seu Irmão Carmelita Secular da Antiga Observância, B.