Entre Roma e a Resistência: quando a fidelidade pesa mais que o medo

Diário de um Católico na Contrarrevolução – Parte 46

Há encontros que parecem simples reuniões de gabinete, mas na verdade carregam o peso dos séculos. Roma recebeu a Fraternidade. Sorrisos discretos. Comunicados cordiais. Uma hora e meia de conversa. E, por trás das portas fechadas, a velha pergunta que atravessa nossa geração: fidelidade a quê, exatamente?

De um lado, o prefeito do Dicastério para a Doutrina da Fé. Do outro, o Superior-Geral da Fraternidade Sacerdotal de São Pio X. No centro, a possibilidade de novas sagrações episcopais. E pairando sobre tudo, a palavra que tantos temem e poucos compreendem: excomunhão.

Mas vamos respirar fundo. A Igreja não é um teatro de improviso. Ela é uma construção divina com dois mil anos de história. E quando falamos de sagrações episcopais sem mandato pontifício, não estamos tratando de detalhe administrativo — estamos tocando na própria estrutura visível da sucessão apostólica.

A gravidade da hora

A história recente nos ensinou que decisões assim não são simbólicas. Em 1988, a ruptura formal marcou uma geração inteira. Mais tarde, sob Bento XVI, abriu-se uma janela de reconciliação real. Não era concessão ideológica. Era tentativa honesta de restaurar a unidade na verdade.

E aqui está o ponto que muitos ignoram: unidade não é silêncio forçado. Mas também não é independência autônoma.

O direito canônico prevê sanções para consagrações sem mandato papal. Isso não é invenção moderna. É disciplina constante da Igreja. Contudo, falar em “consequências para a Fraternidade no seu todo” não significa excomunhão automática de leigos que frequentam suas capelas. A Igreja não opera por histeria coletiva. Penalidade canônica é pessoal, jurídica, tipificada.

A ameaça ampla soa forte — talvez até excessivamente dramática — mas juridicamente a Igreja sempre agiu com precisão, não com redes de arrasto.

O contraste que incomoda

E aqui entra a ironia inevitável.

Enquanto se fala em graves consequências para quem preserva a Missa de sempre, há conferências episcopais promovendo caminhos pastorais que flertam abertamente com rupturas doutrinárias. Na Alemanha, por exemplo, o chamado “Caminho Sinodal” gera perplexidade mundial. Onde está o mesmo rigor? Onde está o mesmo tom de urgência?

Não é questão de vingança seletiva. É questão de coerência.

A Tradição nunca foi uma peça de museu. É vida transmitida. São Pio X combateu o modernismo chamando-o de “síntese de todas as heresias”. Não foi retórica exagerada. Era diagnóstico espiritual. O modernismo dissolve certezas, relativiza dogmas, transforma o sagrado em experiência subjetiva.

E quando a liturgia é tratada como laboratório criativo, o que resta do sentido de sacrifício? A Quo Primum não foi uma curiosidade histórica. Foi a afirmação solene de que a Missa romana expressa a fé da Igreja de forma íntegra, segura, universal.

Defender a Missa Tridentina não é nostalgia estética. É preservar a teologia encarnada no rito. É manter o altar voltado para Deus e não para a assembleia.

A China e o silêncio estratégico

E então surge a comparação incômoda: a situação da Associação Patriótica Católica Chinesa e o acordo com a República Popular da China.

Durante décadas houve ordenações sem mandato pontifício. O cenário é complexo, político, diplomático. Mas para o fiel comum a pergunta é inevitável: por que tanta severidade num ponto e tanta flexibilidade em outro?

Não se trata de simplificar contextos distintos. Trata-se de perceber que a coerência fortalece a autoridade; a aparente assimetria a enfraquece.

O coração do problema

No fundo, não estamos diante apenas de uma disputa jurídica. Estamos diante de uma crise de confiança.

A Fraternidade nasceu reagindo a ambiguidades pós-conciliares. Muitos de seus fiéis são famílias simples, que querem catecismo claro, sacramentos reverentes, doutrina sem asteriscos. Não são revolucionários. São pais tentando salvar a fé dos filhos num mundo que a dilui.

Mas também é verdade: agir à margem da estrutura visível da Igreja não resolve a crise. Pode preservar um tesouro localmente, mas fragiliza a comunhão universal.

A Igreja não é federação de capelas independentes. É corpo orgânico. E o sucessor de Pedro não é um detalhe opcional.

Conclusão: firmeza sem ruptura

O que desejo — e creio que muitos desejam — é algo simples e gigantesco ao mesmo tempo: que Roma seja Roma. Que fale claro. Que corrija desvios doutrinários com a mesma energia com que alerta contra irregularidades disciplinares. Que proteja a Missa tradicional não como concessão tolerada, mas como patrimônio vivo.

E que a Fraternidade também compreenda que fidelidade plena inclui submissão concreta, mesmo quando dói.

A Contrarrevolução não é rebeldia permanente. É reconstrução paciente. É amar a Igreja mesmo quando ela sangra. É permanecer dentro, lutar dentro, rezar dentro.

Porque no fim das contas, não estamos defendendo um estilo litúrgico. Estamos defendendo a integridade da fé católica.

E isso vale mais que qualquer comunicado diplomático.

Roma pode tardar. Pode hesitar. Pode errar na estratégia. Mas a promessa de Cristo não falha.

A barca balança. Não afunda.

E nós permanecemos.

Por um Católico consciente e atento ao cenário eclesial do Brasil e do Mundo.