Entre o incenso e o neon: quando o Altar vira palco e o claustro vira exílio

Diário de um Católico na Contrarrevolução — Parte 45

Há dias em que a alma católica acorda com o peso da história sobre os ombros.

Não é o peso glorioso das catedrais que atravessaram séculos. É o peso da confusão. O peso de assistir, quase impotente, a cenas que nossos avós sequer imaginariam possíveis: “casamentos” que brincam com a própria natureza do sacramento, homilias que falam de acolhimento mas esquecem a conversão, liturgias que misturam o Santo Sacrifício com espetáculo performático — enquanto, em outro canto da Europa, freiras enclausuradas são expulsas por querer viver exatamente como sempre viveram.

O contraste dói.

E não é apenas estético. É teológico.

Este capítulo nasce dessas quatro manchetes. Não são casos isolados. São sintomas.

1. Corrientes: Quando a Forma Substitui a Verdade

O episódio argentino não foi apenas uma “polêmica local”. Foi uma parábola da crise.

Externamente, tudo parecia correto: preparação, rito, votos, bênção. Formalmente, corpos biologicamente masculino e feminino. Tecnicamente, encaixável.

Mas a Igreja nunca ensinou que o matrimônio é um teatro de anatomia.

O matrimônio é uma realidade ontológica: união entre homem e mulher enquanto homem e mulher. Não apenas biologia crua, mas identidade assumida conforme a ordem criada por Deus. Santo Tomás ensina que os sacramentos significam aquilo que realizam. Se o sinal é obscurecido, o sacramento é ferido em sua própria linguagem.

Quando duas pessoas publicamente engajadas na promoção da ideologia de gênero recebem um rito que, aos olhos do povo simples, parece uma legitimação simbólica dessa agenda, o problema não é apenas jurídico. É catequético.

O Catecismo fala de respeito às pessoas. Sim. Mas também fala de verdade moral objetiva. O que se viu foi uma tensão mal resolvida entre pastoral e doutrina — e quando essa tensão explode diante das câmeras, quem paga a conta é o fiel comum.

A Igreja sempre acolheu pecadores. O que nunca fez foi redefinir o pecado como identidade.

2. Malta: O Evangelho Sem Cruz

O discurso do arcebispo maltês ecoa como música suave aos ouvidos do mundo moderno: Deus abraça, Deus compreende, Deus não julga.

Tudo verdade — até o momento em que a cruz desaparece.

Cristo acolheu a adúltera. Mas terminou dizendo: “Vai e não peques mais.”

Quando a linguagem pastoral omite sistematicamente a dimensão da conversão, algo essencial se perde. Não é dureza moral. É coerência evangélica.

Os santos nunca separaram misericórdia de verdade. Santa Catarina de Sena corrigia papas com ternura e firmeza. São João Maria Vianney chorava pelos pecados de seus paroquianos — mas não os rebatizava como virtudes.

Uma pastoral que nunca menciona a necessidade de transformação interior corre o risco de se tornar terapia espiritual. Conforta, mas não salva.

A Igreja não é tribunal cruel. Mas também não é consultório de autoafirmação.

3. Mercogliano: Quando o Sagrado Vira Performance

A cena italiana talvez seja a mais simbólica: maquiagem pesada, perucas exuberantes, leituras feitas sob a bandeira da identidade performática, karaokê misturado à oração mariana.

Não se trata de rejeitar pessoas. Trata-se de perguntar: o que é a liturgia?

A Missa não é expressão cultural livre. É o Santo Sacrifício renovado no altar. É Calvário incruento. É mistério tremendo.

São Paulo advertiu os coríntios sobre a desordem na Eucaristia. Não porque fosse moralista, mas porque sabia que banalizar o sagrado corrói a fé silenciosamente.

Quando o altar vira palco, o povo deixa de ajoelhar.

A inculturação sempre existiu. Mas nunca às custas da essência sacrificial da Missa. A Tradição litúrgica — especialmente preservada na Missa Tridentina — não é nostalgia estética. É catequese encarnada. Cada gesto ensina. Cada silêncio forma.

Substituir esse universo simbólico por espetáculo emocional pode atrair aplausos. Mas não gera vocações. Não sustenta mártires. Não constrói santos.

4. Belorado: O Claustro Como Última Resistência

E então vêm as Clarissas.

Enquanto eventos midiáticos recebem explicações cautelosas, freiras enclausuradas são rapidamente excomungadas por romperem com a hierarquia reconhecida.

Aqui é preciso clareza: a unidade visível com Roma é elemento constitutivo da Igreja. Romper formalmente com essa comunhão tem consequências graves.

Mas também é impossível ignorar o pano de fundo: o desespero espiritual que leva religiosas a buscar abrigo em estruturas paralelas revela uma crise de confiança.

Essas mulheres não pedem palco. Pedem clausura.

Não pedem microfone. Pedem silêncio.

Produzem chocolate para sobreviver. Não organizam conferências sobre inclusão. Apenas querem rezar como sempre se rezou.

O drama delas é sinal de um tempo em que a fidelidade tradicional parece suspeita, enquanto experimentações pastorais recebem tapetes vermelhos.

Isso não justifica cismas. Mas explica feridas.

5. Duas Lógicas em Conflito

O que une Argentina, Malta, Itália e Espanha?

Não é apenas a temática LGBT. É uma lógica.

De um lado, a lógica da adaptação contínua: suavizar linguagem, flexibilizar prática, dialogar até dissolver fronteiras.

De outro, a lógica da permanência: conservar forma, preservar doutrina, manter a liturgia como recebida.

A Igreja já enfrentou isso antes. No arianismo, a maioria dos bispos vacilou. Santo Atanásio permaneceu.

A crise atual não é idêntica. Mas o mecanismo psicológico é semelhante: parecer relevante a qualquer custo.

Só que a Igreja nunca foi forte quando tentou ser moderna. Foi forte quando foi santa.

Conclusão: O Incenso Não Se Apaga

Há quem diga que estamos vendo “duas Igrejas”.

Talvez seja exagero retórico. A Igreja é una. Mas dentro dela há visões profundamente divergentes sobre o que significa ser fiel.

A esperança não está na vitória de um grupo sobre outro. Está na promessa de Cristo: “As portas do inferno não prevalecerão.”

Enquanto houver um altar onde o Sacrifício seja celebrado com reverência, enquanto houver um mosteiro onde o Ofício Divino ecoe na madrugada, enquanto houver um padre que ensine o Catecismo sem medo, a chama não se apaga.

O neon pode brilhar forte por um momento.

Mas é o incenso que sobe ao céu.

E a contrarrevolução católica não é barulho. É perseverança.

Se o altar virou palco em alguns lugares, cabe a nós redescobrir o altar como altar.
Se o claustro virou exílio, cabe a nós lembrar que o exílio sempre foi escola de santos.

A história ainda não terminou.

E a Tradição não é museu.
É raiz viva.

Quem permanecer nela, permanecerá de pé.

Por um Católico consciente e atento ao cenário eclesial do Brasil e do Mundo.