Quando Herodes volta à avenida: a Família não é fantasia

Há imagens que falam mais alto que discursos.

Uma multidão enfurecida. Um rei tomado pelo medo. Um demônio que sopra ao ouvido do poder. E, no centro de tudo, a Sagrada Família recolhida como quem precisa ser protegida — não apenas da violência física, mas da violência simbólica.

A cena nos recorda um episódio antigo, narrado no Evangelho: o temor de Herodes diante do Menino que nascia em Belém. O poder, quando se sente ameaçado pela inocência, reage com fúria. Não é o Menino que ataca o trono; é o trono que teme o Menino.

Na ilustração, a família aparece “em conserva”, como se estivesse guardada dentro de uma lata. A metáfora é provocativa. Quantas vezes a família é tratada como algo ultrapassado, engessado, conservado no tempo? Quantas vezes é caricaturada, ridicularizada, reduzida a estereótipo?

Mas há um detalhe que escapa aos olhares apressados: aquilo que se conserva é justamente o que tem valor. Conserva-se o que se quer preservar. Conserva-se o que alimenta. Conserva-se o que sustenta a vida.

Herodes não temia uma ideologia. Temia uma família.

Temia um pai justo.
Temia uma mãe fiel.
Temia um Filho que, sendo Deus, quis aprender a viver sob um teto, numa casa simples, santificando o cotidiano.

A perseguição à Família de Nazaré não foi apenas um fato histórico. É um paradigma. Sempre que a família é apresentada como obstáculo ao “progresso”, sempre que se tenta desfigurá-la no imaginário popular, sempre que o sagrado é transformado em espetáculo, repete-se, sob novas vestes, a mesma lógica do medo.

Não se trata de negar a arte, a liberdade ou a crítica cultural. A tradição cristã jamais temeu o diálogo. O problema nasce quando a liberdade se converte em escárnio, quando a crítica se transforma em ataque direcionado àquilo que constitui o tecido mais básico da sociedade.

A família não é uma construção partidária. É anterior ao Estado. É anterior ao mercado. É anterior às ideologias. Ela é o primeiro espaço onde se aprende a amar, a perdoar, a obedecer, a servir. Quando a família é fragilizada, não é apenas uma instituição que se enfraquece — é a própria cultura que perde o seu chão.

Há quem pense que defender a família seja ato político. Talvez seja. Mas é, antes de tudo, um ato antropológico e espiritual. Porque o homem nasce de um vínculo. E sem vínculo não há humanidade possível.

A ilustração mostra também o caos ao redor: fogo, gritos, desordem. Enquanto isso, dentro da “lata”, há silêncio, ternura e recolhimento. É um contraste eloquente. O mundo pode estar em convulsão; a santidade continua possível dentro de casa.

Talvez a maior resposta às provocações não seja o grito, mas a coerência.
Não o ódio, mas a fidelidade.
Não a violência, mas a perseverança.

A Sagrada Família fugiu para o Egito, mas não perdeu sua missão. A perseguição não impediu o plano de Deus. Ao contrário, revelou que aquilo que é de Deus não se sustenta pela aprovação da multidão, mas pela fidelidade no escondimento.

Hoje, mais do que nunca, é necessário redescobrir a beleza da família vivida como vocação e responsabilidade. Não como bandeira de ocasião, mas como escola de humanidade.

Se há novos Herodes, que haja também novos Josés: homens de silêncio e coragem.
Se há zombarias, que haja também novas Marias: mulheres de fé inabalável.
Se há ameaças, que haja também lares onde Cristo seja verdadeiramente acolhido.

A história ensina que os impérios passam. Os desfiles terminam. Os aplausos cessam.
Mas a família que permanece fiel a Deus atravessa os séculos.

Porque, no fim, não é a avenida que decide o futuro de um povo.
É o altar doméstico.

“Jesus, Maria e José… minha família vossa é.”

Por ser o Irmão Carmelita Secular da Antiga Observância B.