Cinzas que pesam, esperança que arde

Na colina do Aventino, o passo antigo da Igreja voltou a ecoar. Da Igreja de Santo Anselmo até a Basílica de Santa Sabina, a procissão não foi apenas um rito: foi uma parábola em movimento. A Igreja caminha com cinzas na testa e esperança no peito. Não desfila triunfos; assume fragilidades. Não exibe poder; confessa pecado. E, justamente por isso, permanece de pé.

O Papa Leão XIV falou de um mundo em chamas. Não como metáfora vazia, mas como constatação amarga. As cinzas que recebemos não são apenas memória da nossa mortalidade; são o pó de cidades destruídas, de tratados rasgados, de ecossistemas devastados, de consciências entorpecidas. São as cinzas do direito que perdeu força, da justiça que perdeu coragem, da sabedoria que perdeu voz. O mundo arde — e não é exagero dizer que muitas vezes ardemos com ele.

Mas a Igreja, nessa Quarta-feira austera, ousa dizer algo desconcertante: o mal não está apenas “lá fora”. Está aqui. Dentro. No coração humano. Esse é o ponto que fere e cura ao mesmo tempo. Somos rápidos em identificar culpados; lentos em admitir culpas. A cultura atual ama tribunais morais, mas odeia o confessionário. E a Quaresma vem como um vento frio que atravessa as defesas: “Convertei-vos”.

Conversão. Palavra antiga. Palavra esquecida. Palavra urgente.

O Papa recorda que o pecado é pessoal, mas também ganha forma nas estruturas — econômicas, culturais, políticas, até religiosas. Não basta apontar o dedo para sistemas; é preciso reconhecer que os sistemas nascem de corações. Estruturas de pecado são construídas por decisões concretas. E, se foram construídas, podem ser desmontadas. Começando por onde? Pelo ponto mais difícil: a própria consciência.

É aqui que a Quaresma se revela tempo forte de comunidade. Não de nacionalismos inflamados nem de identidades agressivas, mas de comunhão. Um povo que se reconhece pecador não é fraco; é lúcido. E lucidez é o primeiro passo da liberdade. Um povo que sabe pedir perdão está mais próximo da ressurreição do que aquele que se proclama impecável.

Há algo profundamente contracultural nisso. Vivemos num tempo em que admitir erro é visto como derrota. Instituições raramente se arrependem; líderes raramente se retratam; indivíduos raramente dizem “eu estava errado”. A Igreja, no entanto, começa a Quaresma inclinando a cabeça para receber cinzas. É um gesto humilde e revolucionário. O pó na fronte desmascara a ilusão da autossuficiência.

Quando o Papa evoca a “apologia das cinzas”, retomando a intuição de Paulo VI após o Concílio Vaticano II, ele toca numa ferida antiga do pensamento moderno: o fascínio pelo nada, a metafísica do absurdo, a tristeza como estética. Hoje, essa atmosfera se espalha em discursos sofisticados, séries de streaming, ideologias ruidosas e até em espiritualidades diluídas. O vazio virou moda; o desespero, performance.

E, no entanto, a Igreja não cultua as cinzas. Ela passa por elas. Reconhecer o pecado já é sinal de vida. Confessar a própria queda é um ato de fé na possibilidade de levantar-se. A conversão não é autodepreciação; é confiança na graça. É acreditar que a história pessoal — e a história do mundo — não termina na Sexta-feira Santa.

O Papa aponta para o Tríduo Pascal como horizonte. Eis o segredo: a Quaresma só faz sentido porque a Páscoa existe. Sem a Ressurreição, as cinzas seriam apenas cinzas. Com Cristo Ressuscitado, tornam-se semente. O pó que recorda a fragilidade é também o terreno onde a vida nova pode brotar.

Nesse caminho, os mártires — antigos e contemporâneos — aparecem como testemunhas radicais de que as Bem-aventuranças não são poesia ingênua, mas programa de vida. Escolher a mansidão num mundo agressivo, a pureza de coração num mundo cínico, a misericórdia num mundo calculista é, hoje, um ato quase subversivo. A santidade não é fuga do mundo; é reconstrução silenciosa dele.

A Quaresma, então, não é tempo de tristeza teatral, mas de sobriedade luminosa. É voltar ao essencial. É redirecionar o coração ao Deus da vida. É admitir que, sob a camada de cinzas que cobre a história, ainda pulsa a promessa da Ressurreição.

Talvez o mundo esteja em chamas. Talvez as estruturas tremam. Talvez as certezas humanas desmoronem. Mas enquanto houver homens e mulheres dispostos a inclinar a cabeça para receber cinzas e levantar-se para reconstruir, a esperança não será reduzida a pó.

As cinzas dizem: és pó.
Cristo responde: és chamado à eternidade.

E, entre essas duas frases, desenha-se todo o drama e toda a glória da Quaresma.

Por seu Irmão Carmelita Secular da Antiga Observância, B.