O Caminho do Silêncio: do ruído do mundo ao repouso em Deus, segundo grau


II — O segundo grau: O silêncio das palavras supérfluas

No primeiro grau do silêncio, aprendemos que tudo começa na vontade. O carmelita inicia seu caminho quando aceita não ser o centro, quando consente em ser conduzido e renuncia ao impulso de se afirmar. Esse silêncio inaugural não é ainda o da boca, mas o da interior submissão. É o gesto de permanecer atrás da cruz.

Contudo, a vontade silenciada precisa ser guardada. Se a língua permanece indisciplinada, o que foi conquistado interiormente começa, pouco a pouco, a se dissolver. A palavra pode reconstruir silenciosamente o ego que a obediência havia dobrado.

O Carmelo da Antiga Observância sempre entendeu o silêncio como processo. Não basta obedecer externamente; é necessário que essa obediência se traduza em sobriedade concreta, também na forma de falar e conviver. O segundo grau nasce justamente dessa necessidade de consolidar o primeiro.

O silêncio das palavras supérfluas protege a docilidade interior. Ele impede que a dispersão verbal corroa a paz conquistada pela submissão da vontade.

Quem cala a vontade, mas permite que a língua vagueie sem critério, ainda não estabilizou o silêncio.

Introdução

Após o primeiro grau, o carmelita percebe que a obediência exterior não encerra o combate. Mesmo tendo aprendido a não se impor, ele descobre que continua falando além do necessário. Não por rebeldia explícita, mas por hábito, por ansiedade, por uma necessidade quase inconsciente de preencher o espaço.

A palavra supérflua é sutil. Não é ofensiva, nem escandalosa. Muitas vezes é até socialmente aceitável e espiritualmente disfarçada de zelo. Porém, ela produz dispersão. Aos poucos, vai retirando densidade da vida interior.

No Carmelo, a palavra sempre teve finalidade. Ela deve servir à comunhão, à edificação, à verdade. Quando perde essa finalidade e passa a existir apenas como expressão automática, ela deixa de construir e começa a fragmentar.

Este segundo grau exige maturidade espiritual. Ele não pede silêncio absoluto, mas sobriedade. Não pede isolamento, mas responsabilidade interior.

O silêncio que consolida o recolhimento

O primeiro grau dobrou a vontade; o segundo educa a expressão dessa vontade já submetida. É possível obedecer formalmente e, ao mesmo tempo, multiplicar palavras que enfraquecem o espírito da obediência. Comentários desnecessários, observações constantes e explicações não pedidas podem reintroduzir, discretamente, o “eu” no centro da convivência.

A língua costuma ser a última trincheira do ego. Quando não pode mais se impor diretamente, ela tenta se afirmar pela palavra. Fala-se para marcar presença, para não parecer ausente, para sustentar uma imagem. Essa movimentação interior revela que o silêncio ainda não alcançou plena estabilidade.

No Carmelo da Antiga Observância, o silêncio sempre protegeu a fraternidade. Onde as palavras eram medidas, havia menos desgaste invisível. Muitas tensões nascem não de grandes conflitos, mas de pequenas frases que poderiam ter sido poupadas. O silêncio das palavras supérfluas preserva a comunhão e favorece um ambiente onde a presença de Deus não é sufocada pelo ruído constante.

Para o carmelita secular, este grau é particularmente exigente. Vivendo no mundo, inserido em ambientes profissionais, familiares e sociais saturados de comunicação, ele precisa aprender a cultivar uma sobriedade interior mesmo quando fala. Nem toda conversa precisa de sua opinião. Nem todo assunto requer seu comentário. Nem todo silêncio precisa ser preenchido.

Ao vigiar a palavra, o carmelita começa a perceber algo mais profundo: muitas falas eram tentativas de aliviar inquietações internas. O silêncio, então, torna-se espelho. Ao calar o supérfluo, ele se vê obrigado a enfrentar suas próprias ansiedades diante de Deus. Esse grau não é apenas disciplinar; é purificador.

Quando a palavra deixa de ser automática e passa a ser discernida, ela ganha peso. Torna-se mais simples, mais direta, mais verdadeira. E, paradoxalmente, comunica mais.

O silêncio das palavras supérfluas não empobrece a vida fraterna nem a vida secular. Ele as purifica. Ele cria espaço para uma escuta mais profunda, para uma presença mais consciente e para uma oração menos fragmentada.

Considerações finais

O segundo grau consolida o primeiro. A vontade já aprendeu a não se impor; agora a língua aprende a não se dispersar. Sem essa consolidação, o recolhimento permanece instável.

Num mundo que valoriza a constante exposição e a opinião imediata, este grau é contracultural. O carmelita secular testemunha algo raro: é possível participar do mundo sem reproduzir seu ruído.

Silenciar o supérfluo é um ato de humildade. É reconhecer que nem toda palavra precisa nascer. É permitir que o silêncio faça seu trabalho invisível de ordenação interior.

Quem persevera nesse grau experimenta uma transformação concreta: a mente se torna mais estável, o coração mais atento, a oração mais profunda. A palavra, quando surge, já nasce do recolhimento.

O caminho continua. O silêncio vai ganhando densidade. E o monte começa, lentamente, a se revelar.

Continua, não deixe de nos acompanhar nessa série...

Por Ir. Alan Lucas de Lima, OTC
Carmelita Secular da Antiga Observância