Entre a Cruz e o Dragão

Diário de um Católico na Contrarrevolução – Parte 47

Há dias em que a perplexidade pesa mais que o silêncio.

Vivemos tempos estranhos. Não é perseguição aberta como nos primeiros séculos. Não é leão no Coliseu. É algo mais sutil: a diplomacia elevada a dogma, o cálculo político vestido de prudência pastoral, a sobrevivência institucional confundida com fidelidade.

E quando alguém ousa questionar, logo aparece o coro dos bem-comportados: “é preciso compreender o contexto”, “a Igreja sempre dialogou”, “não podemos ser radicais”.

Radicais? Não. Católicos.

Recentemente, vi defenderem o acordo da Santa Sé com o Partido Comunista Chinês como se fosse a última tábua de salvação da Igreja na China. A tese é simples: melhor negociar com o regime do que deixar os fiéis sem bispos reconhecidos. Melhor ceder aqui para manter o culto ali.

Mas aqui começa o drama.

A Igreja não é ONG religiosa autorizada pelo Estado. Ela não existe por concessão do poder civil. Ela existe porque Nosso Senhor a fundou sobre Pedro. E quando Pedro confirma na fé, confirma na Verdade — não numa ata diplomática.

O Decreto de Pio XII contra o comunismo não foi poesia retórica. Foi um juízo claro sobre um sistema intrinsecamente ateu e materialista. O comunismo não é apenas uma estrutura política; é uma cosmovisão que nega Deus, a alma, a lei natural. Negociar com ele não é como negociar com um imperador pagão que, ao menos, admitia a dimensão religiosa. É dialogar com um sistema que considera a fé um obstáculo histórico.

E, no entanto, lá vamos nós.

Alguns argumentam: “Mas as sagrações feitas sob esse acordo são válidas, enquanto as da Fraternidade Sacerdotal São Pio X são problemáticas.”

Vamos separar as coisas com clareza.

Validade sacramental depende de matéria, forma e intenção. Um bispo validamente ordenado pode ordenar outro validamente. Isso vale na China, na França ou numa garagem no interior do mundo.

O ponto não é esse.

O ponto é a lógica que se instala: quando o critério deixa de ser a integridade da fé e passa a ser a conveniência institucional, algo se desloca no eixo.

A Marcel Lefebvre, ao realizar as sagrações em 1988, afirmou agir por estado de necessidade. Pode-se discutir se havia ou não tal necessidade. É legítimo discutir. Mas reduzir tudo a rebeldia caprichosa é intelectualmente preguiçoso.

Enquanto isso, na China, bispos “patrióticos” surgem sob a sombra de um regime que prende cardeais como Joseph Zen. E a pergunta que ecoa é desconfortável: qual é exatamente a linha vermelha? Até onde se negocia? Em que momento a prudência vira acomodação?

Ironia das ironias: chama-se de “amigo da onça” quem alerta para o perigo de legitimar estruturas que sufocam a liberdade da Igreja, mas aplaude-se quem confia na boa vontade de um partido oficialmente ateu.

É como filtrar um mosquito e engolir um dragão.

Não se trata de criar heróis e vilões fáceis. A Igreja sempre navegou mares turbulentos. Houve concordatas, tratados, alianças imperfeitas. Mas a diferença histórica está na clareza doutrinária. Quando São Atanásio resistiu à crise ariana, não o fez porque gostava de conflito. Fez porque a verdade sobre Cristo estava em jogo.

Hoje, o modernismo não chega dizendo “negamos a fé”. Ele chega dizendo: “precisamos ser realistas”. “Precisamos sobreviver.” “Precisamos dialogar.”

E pouco a pouco a linguagem muda. A prioridade muda. A sensibilidade muda.

A Missa tradicional, que por séculos foi o coração pulsante da Cristandade, vira problema pastoral. O regime comunista, por outro lado, vira interlocutor necessário.

Algo está invertido.

Não estou aqui para canonizar estratégias humanas. Estou aqui para lembrar que a Igreja cresce pela Cruz, não pelo cálculo. Os mártires chineses não morreram para que a fé fosse administrada sob licença estatal. Morreram porque Cristo é Rei — não o partido.

A fidelidade à Tradição não é nostalgia estética. É continuidade viva. É rezar como rezaram nossos avós na fé. É guardar o depósito sem diluir seu conteúdo para caber na moldura ideológica do século.

Sim, é preciso prudência. Mas prudência não é medo. Prudência é ordenar os meios ao fim. E o fim da Igreja não é estabilidade diplomática; é a salvação das almas.

Talvez estejamos vivendo um tempo de prova. Talvez o Senhor esteja permitindo que vejamos as fragilidades humanas dentro da própria estrutura eclesial para que nossa confiança não esteja em acordos, mas n’Ele.

A esperança não nasce da geopolítica. Nasce do altar.

Enquanto houver um sacerdote oferecendo a Missa de sempre, enquanto houver um fiel ajoelhado crendo na Presença Real, enquanto houver um bispo disposto a sofrer pela verdade inteira, a Igreja permanece invencível.

O Dragão pode rugir.
Os gabinetes podem assinar.
Os comentaristas podem relativizar.

Mas Cristo reina do alto da Cruz.

E a Cruz nunca foi fruto de negociação.

Por um Católico consciente e atento ao cenário eclesial do Brasil e do Mundo.