Série: Linguagem, Verdade e Poder: Quem controla as palavras, governa as consciências

CAPÍTULO I

Quem controla as palavras, governa as consciências

Prefácio

Toda época tende a interpretar seus conflitos decisivos a partir das instâncias mais visíveis do poder: a política, o direito, a economia ou os meios de comunicação. A história intelectual e espiritual do Ocidente, contudo, revela um dado mais profundo e recorrente: antes que o poder se imponha por leis ou estruturas, ele se consolida pela linguagem. Quem define as palavras define, de modo silencioso, os limites do pensamento e os critérios do juízo moral.

O presente ciclo cultural evidencia um fenômeno particularmente inquietante: a formação progressiva de uma nova linguagem funcionalmente análoga à novilíngua descrita por George Orwell. Não se trata apenas de empobrecimento vocabular ou de modas semânticas passageiras, mas de um sistema discursivo no qual a redução, a inversão ou a diluição dos significados serve ao controle das consciências e à neutralização do dissenso.

Essa transformação não ocorre de forma abrupta nem coercitiva. Pelo contrário, apresenta-se sob o disfarce da sensibilidade moral, da inclusão e do progresso. Palavras tradicionais são esvaziadas; novas expressões, carregadas de normatividade implícita, são introduzidas. O resultado é uma reconfiguração profunda da percepção da realidade, anterior a qualquer debate explícito sobre valores ou comportamentos.

A Igreja nunca foi ingênua diante desse mecanismo. Sua tradição teológica e magisterial reconhece que a corrupção da linguagem é sempre prelúdio da corrupção da fé e da moral. Onde as palavras perdem sua referência objetiva, a verdade fragmenta-se, a consciência se enfraquece e a liberdade degenera em adaptação passiva às pressões culturais dominantes.

Este primeiro capítulo cumpre, portanto, uma função fundacional no conjunto da série Linguagem, Verdade e Poder. Ele estabelece o princípio que sustentará os ensaios seguintes: a linguagem não é neutra, e a chamada “novilíngua” contemporânea não é fenômeno inocente. Trata-se de uma forma sofisticada de exercício de poder, que governa menos por proibição explícita e mais pela redefinição do pensável.

À luz do Magistério da Igreja, este ensaio propõe recuperar a centralidade da palavra verdadeira como condição indispensável para a liberdade moral, para a formação da consciência e para a própria inteligibilidade da fé cristã. Onde a linguagem é reconduzida à verdade, a consciência respira; onde ela é submetida ao poder, a liberdade adoece.

Introdução

O homem não habita o mundo apenas biologicamente; ele o habita linguisticamente. É por meio das palavras que a realidade se torna inteligível, comunicável e moralmente avaliável. Sem linguagem estável, o mundo se dissolve em impressões fragmentadas.

A cultura contemporânea, porém, trata a linguagem como matéria plástica, passível de redefinição contínua segundo interesses ideológicos, afetivos ou utilitários. Essa postura ignora que as palavras possuem uma referência objetiva ao ser das coisas.

Quando termos fundamentais são esvaziados ou redefinidos — como verdade, liberdade, natureza, pecado ou responsabilidade — não se promove apenas uma atualização vocabular, mas uma reconfiguração profunda da experiência moral humana.

A Igreja ensina que a consciência não é fonte autônoma da verdade, mas seu lugar de reconhecimento. Para reconhecer o bem, a consciência precisa de palavras claras que nomeiem o real sem ambiguidade deliberada.

Introduzir o problema do controle linguístico é, portanto, enfrentar uma das raízes mais profundas da crise cultural atual. Antes de discutir comportamentos ou leis, é preciso compreender como as consciências são moldadas pela linguagem disponível.

Linguagem que confunde incapacita a consciência

O cristianismo afirma, desde o prólogo do Evangelho de São João, que o Logos se fez carne. Essa afirmação confere à linguagem um estatuto ontológico singular: a realidade é inteligível porque procede de uma Razão criadora, e a palavra humana participa dessa inteligibilidade.

Quando a linguagem se separa da verdade objetiva, ela deixa de descrever o real e passa a produzi-lo artificialmente. Nesse ponto, a palavra já não serve ao conhecimento, mas ao poder. Definir os termos do discurso passa a ser forma privilegiada de dominação cultural.

Leão XIII, na encíclica Libertas Præstantissimum, ensina que a verdadeira liberdade não consiste na indeterminação do agir, mas na adesão racional ao bem. A manipulação da linguagem moral, ao neutralizar categorias fundamentais, não liberta; desorienta e enfraquece a consciência.

São João Paulo II, em Veritatis Splendor, aprofunda esse diagnóstico ao mostrar que a ruptura entre consciência e verdade conduz ao relativismo moral. Onde não existem palavras estáveis para nomear o bem e o mal, as escolhas deixam de ser verdadeiramente livres.

Bento XVI descreveu esse fenômeno como crise da razão moderna, reduzida a instrumento técnico e funcional. A linguagem, privada de sua abertura ao ser, transforma-se em ferramenta de gestão social e engenharia cultural.

A chamada novilíngua opera precisamente nesse nível. Ela não censura explicitamente o pensamento; ela o torna impraticável ao eliminar os conceitos necessários para formular juízos morais coerentes. O dissenso deixa de ser erro discutível para tornar-se desvio inominável.

Santo Agostinho já advertia que a mentira mais nociva não é a negação frontal, mas a confusão deliberada. Uma linguagem que confunde incapacita a consciência e a torna vulnerável à manipulação contínua.

Considerações finais

A disputa contemporânea pela linguagem revela-se, assim, uma disputa pelo próprio núcleo da liberdade humana. Quem controla as palavras condiciona os critérios pelos quais o homem julga a realidade e orienta sua ação.

O Magistério da Igreja recorda que a verdade não nasce do consenso nem da utilidade social, mas da conformidade com o real. Defender a linguagem clara é defender a dignidade da consciência.

Num ambiente cultural que celebra a ambiguidade como virtude, a clareza torna-se ato contracultural. Não por apego ao passado, mas por fidelidade à estrutura do ser e à missão evangelizadora da Igreja.

Sem palavras verdadeiras, a consciência perde sua função normativa e transforma-se em espaço de adaptação passiva às pressões culturais. A liberdade, então, reduz-se a escolha aparente.

Este capítulo estabelece o alicerce de toda a série: enquanto a linguagem permanecer submetida ao poder, as consciências permanecerão vulneráveis. Recuperar a palavra verdadeira é condição para recuperar a liberdade.

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Por Ir. Alan Lucas de Lima, OTC
Carmelita Secular da Antiga Observância