Quando a Tradição é tolerada, mas a Verdade insiste: Liturgia, poder e a Fé que não pede permissão

Diário de um Católico na Contrarrevolução — Parte 41

Há textos que não são escritos para serem lidos, mas para serem usados. Funcionam como mapas, ou como ordens de marcha. O relatório do Cardeal Arthur Roche, distribuído no Consistório Extraordinário de janeiro de 2026 e mantido fora do debate formal, é exatamente isso: um documento que diz muito mais pelo que afirma com calma do que por qualquer polêmica levantada às pressas. Nele, a liturgia não aparece como detalhe, mas como campo de batalha. E quando a liturgia entra em cena, a fé inteira treme.

Confira o texto traduzido, logo abaixo:

CONSISTÓRIO EXTRAORDINÁRIO

(7–8 de janeiro de 2026)

Liturgia: reflexão teológica, histórica e pastoral cuidadosa, “para que a tradição sólida seja preservada e, ao mesmo tempo, permaneça aberto o caminho para um progresso legítimo” (SC 23).

LITURGIA

Cardeal Arthur Roche

1. Na vida da Igreja, a Liturgia sempre passou por reformas. Da Didaché à Traditio Apostolica; do uso do grego ao do latim; dos libelli precum aos Sacramentários e aos Ordines; dos Pontificais às reformas franco-germânicas; da liturgia segundo o uso da cúria romana à reforma tridentina; das reformas parciais pós-tridentinas à reforma geral do Concílio Vaticano II. A história da Liturgia, poderíamos dizer, é a história de sua contínua “reforma”, num processo de desenvolvimento orgânico.

2. São Pio V, ao enfrentar a reforma dos livros litúrgicos em observância ao mandato do Concílio de Trento (cf. Sessão XXV, Decreto Geral, cap. XXI), foi movido pela vontade de preservar a unidade da Igreja. A bula Quo primum (14 de julho de 1570), com a qual foi promulgado o Missal Romano, afirma que “assim como na Igreja de Deus há um só modo de recitar os salmos, assim também deve haver um só rito para celebrar a Missa” (cum unum in Ecclesia Dei psallendi modum, unum Missae celebrandae ritum esse maxime deceat).

3. A necessidade de reformar a Liturgia está estritamente ligada ao componente ritual, através do qual — per ritus et preces (SC 48) — participamos do mistério pascal: o rito, em si mesmo, é caracterizado por elementos culturais que mudam no tempo e nos lugares.

4. Além disso, uma vez que “a Tradição não é a transmissão de coisas ou palavras, um conjunto de coisas mortas”, mas “o rio vivo que nos liga às origens, o rio vivo no qual as origens estão sempre presentes” (BENTO XVI, Audiência Geral, 26 de abril de 2006), podemos certamente afirmar que a reforma da Liturgia desejada pelo Concílio Vaticano II não apenas está em plena sintonia com o verdadeiro significado da Tradição, mas constitui uma forma singular de colocá-la a serviço da própria Tradição, pois esta é como um grande rio que nos conduz às portas da eternidade (ibid.).

5. Nessa visão dinâmica, “manter a tradição sólida” e “abrir o caminho para o progresso legítimo” (SC 23) não podem ser entendidos como duas ações separáveis: sem um “progresso legítimo”, a tradição seria reduzida a uma “coleção de coisas mortas”, nem sempre saudável; sem a “tradição sólida”, o progresso corre o risco de se tornar uma busca patológica pela novidade, incapaz de gerar vida, como um rio cujo curso é bloqueado ao ser separado de suas fontes.

6. No discurso aos participantes da Plenária do Dicastério para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos (8 de fevereiro de 2024), o Papa Francisco expressou-se assim:

“Sessenta anos após a promulgação da Sacrosanctum Concilium, as palavras que lemos em sua introdução, com as quais os Padres declararam o propósito do Concílio, não cessam de nos entusiasmar. Elas descrevem objetivos que expressam um desejo preciso de reformar a Igreja em suas dimensões fundamentais: fazer crescer cada vez mais a vida cristã dos fiéis; adaptar melhor às necessidades de nossos tempos aquelas instituições que estão sujeitas a mudanças; fomentar tudo o que possa promover a união entre todos os que creem em Cristo; revigorar aquilo que serve para chamar todos ao seio da Igreja” (cf. SC 1).

Trata-se de uma tarefa de renovação espiritual, pastoral, ecumênica e missionária. E, para realizá-la, os Padres conciliares sabiam por onde começar: sabiam que havia razões particularmente fortes para empreender a reforma e promoção da liturgia. É como dizer: sem reforma litúrgica, não há reforma da Igreja.

7. A Reforma litúrgica foi elaborada com base em uma “investigação teológica, histórica e pastoral precisa” (SC 23). Seu alcance foi tornar mais plena a participação na celebração do Mistério Pascal para uma renovação da Igreja, o Povo de Deus, o Corpo Místico de Cristo (cf. Lumen gentium, caps. I–II), aperfeiçoando os fiéis na unidade com Deus e entre si (cf. SC 48). Somente a partir da experiência salvífica da celebração da Páscoa, a Igreja redescobre e relança o mandato missionário do Senhor Ressuscitado (cf. Mt 28, 19–20) e se torna, num mundo dilacerado pela discórdia, fermento de unidade.

8. Devemos também reconhecer que a aplicação da Reforma sofreu — e continua a sofrer — com a falta de formação, o que torna urgente enfrentá-la, começando pelos Seminários, para “dar vida à formação dos fiéis e ao ministério dos pastores, que terão na liturgia seu cume e sua fonte” (Instrução Inter Oecumenici, 26 de setembro de 1964, n. 5).

9. O bem primário da unidade da Igreja não é alcançado congelando as divisões, mas encontrando-nos na partilha daquilo que não pode deixar de ser partilhado, como disse o Papa Francisco em Desiderio desideravi 61:

“Somos continuamente chamados a redescobrir a riqueza dos princípios gerais expostos nos primeiros números da Sacrosanctum Concilium, compreendendo o vínculo íntimo entre esta primeira das constituições conciliares e todas as outras. Por esta razão, não podemos voltar àquela forma ritual que os Padres — cum Petro et sub Petro — sentiram a necessidade de reformar, aprovando, sob a guia do Espírito Santo e seguindo a sua consciência como pastores, os princípios dos quais nasceu a reforma. Os santos pontífices Paulo VI e João Paulo II, aprovando os livros litúrgicos reformados por decreto do Concílio Ecumênico Vaticano II, garantiram a fidelidade da reforma do Concílio. Por esta razão escrevi Traditionis custodes, para que a Igreja eleve, na variedade de tantas línguas, uma só e mesma oração capaz de expressar a sua unidade. Como já escrevi, pretendo que esta unidade seja restabelecida em toda a Igreja de Rito Romano.”

10. O uso dos livros litúrgicos que o Concílio buscou reformar foi, de São João Paulo II a Francisco, uma concessão que jamais previu sua promoção. O Papa Francisco — ao conceder, de acordo com Traditionis custodes, o uso do Missale Romanum de 1962 — indicou o caminho para a unidade no uso dos livros litúrgicos promulgados pelos santos Papas Paulo VI e João Paulo II, em conformidade com os decretos do Concílio Vaticano II, como a única expressão da lex orandi do Rito Romano.

11. O Papa Francisco resumiu a questão nos seguintes termos (Desiderio desideravi 31):

“Se a liturgia é ‘o cume para o qual tende a ação da Igreja e, ao mesmo tempo, a fonte de onde emana toda a sua força’ (Sacrosanctum Concilium, n. 10), então podemos compreender o que está em jogo na questão litúrgica. Seria trivial ler as tensões, infelizmente presentes em torno da celebração, como uma simples divergência entre diferentes gostos quanto a uma determinada forma ritual. A problemática é primordialmente eclesiológica. Não vejo como seja possível dizer que se reconhece a validade do Concílio — embora me surpreenda que um católico possa presumir não o fazer — e, ao mesmo tempo, não aceitar a reforma litúrgica nascida da Sacrosanctum Concilium, documento que exprime a realidade da Liturgia intimamente unida à visão de Igreja tão admiravelmente descrita na Lumen gentium.”

Roma, 8 de janeiro de 2026

Não é exagero. Nunca foi.

A história da Igreja — como o próprio texto insiste — é uma história de reformas litúrgicas. Verdade. Mas aqui começa o truque retórico moderno: dizer “reforma” como se toda reforma fosse orgânica, fiel, obediente. O Cardeal Roche fala de desenvolvimento orgânico, cita a Didaché, Trento, São Pio V, o Vaticano II. Tudo correto no papel. O problema não está nas citações. Está na conclusão prática que se tenta impor a partir delas.

Porque São Pio V reformou para unificar, não para relativizar. Reformou para guardar, não para experimentar. Sua Quo primum nasce da convicção simples e dura como pedra: uma só fé, uma só oração, um só rito. Não porque Deus precise disso, mas porque o homem precisa de chão firme para não se perder no pântano do próprio gosto.

O relatório insiste que a tradição não é “uma coleção de coisas mortas”, mas um “rio vivo”. Bonita imagem. Bento XVI a usou com precisão cirúrgica. Mas rio vivo não é enchente descontrolada. Rio vivo tem nascente. Tem margens. Tem curso. Quando se rompe a ligação com a nascente, o rio não vira mais tradição: vira lama.

E aqui entramos no ponto que ninguém quer dizer em voz alta, mas que o texto em inglês (que foi traduzido para apreciação dos leitores) que veio a público deixa cristalino: a Missa Tridentina estava no centro da pauta, mesmo quando fingiram que não estava. Traditionis Custodes não é um detalhe administrativo; é um gesto teológico. Um gesto que afirma, na prática, que a liturgia tradicional é tolerada, mas não desejada. Permitida, mas suspeita. Concedida, mas jamais promovida.

O próprio relatório admite isso sem corar: o uso do Missal de 1962 é uma concessão, não um caminho. A única lex orandi reconhecida plenamente passa a ser a dos livros reformados após o Concílio. Aqui o jogo fica claro. Não se trata apenas de unidade; trata-se de controle. Unidade entendida não como harmonia na verdade, mas como uniformidade imposta.

E ainda assim — ironia fina da história — o texto reconhece que a reforma litúrgica fracassou em algo essencial: a formação. Falhou nos seminários. Falhou na catequese. Falhou no senso do sagrado. Falhou no silêncio, na reverência, na orientação para Deus. Falhou tanto que hoje se tenta curar a hemorragia proibindo o remédio que ainda funciona.

A Missa Tridentina, com todos os seus séculos de santos, mártires, doutores e fiéis simples ajoelhados, continua a gerar vocações, famílias numerosas, conversões profundas. Não porque seja “nostálgica”, mas porque é objetiva. Não pergunta ao fiel o que ele sente; ensina-lhe o que deve crer. Ela não dialoga com o mundo: ela o julga à luz do Calvário.

O relatório de Roche afirma que não se pode aceitar o Concílio sem aceitar a reforma litúrgica. Aqui está o nó. O católico fiel sempre aceitou o Concílio à luz da Tradição, como manda o Magistério perene. O que se recusa é a leitura ideológica que transforma um concílio pastoral em ruptura prática. São coisas diferentes — mas hoje fingem que não são.

Apesar de tudo isso, este não é um texto de desespero. A Contrarrevolução nunca foi melancólica. Ela é paciente. Sabe que a Igreja já atravessou crises piores. Sabe que a liturgia não pertence a cardeais, nem a dicastérios, nem a relatórios de duas páginas. A liturgia pertence a Cristo. E Cristo não abandona o que é Seu.

O fato de esse texto ter sido distribuído e silenciado, adiado para um próximo consistório, diz mais do que mil discursos. A questão litúrgica não está resolvida porque não pode ser resolvida por decreto. Enquanto houver um só altar onde se celebre com fé, latim, silêncio e sacrifício, a Tradição seguirá viva. Não como peça de museu, mas como chama.

A Contrarrevolução continua. De joelhos. Em latim. Com esperança.

Por um Católico consciente e atento ao cenário eclesial do Brasil e do Mundo.