Entre microfones abertos e memorandos fechados: a Igreja que puniu a voz e arquivou a Verdade
Diário de um Católico na Contrarrevolução – Parte 40
Quando o ruído revela o silêncio
Há épocas em que um sussurro diz mais do que um discurso
inteiro. Um microfone esquecido ligado, uma frase captada sem cerimônia, um
vídeo que escapa ao controle. Não é o palavrão que escandaliza — é o que a
reação institucional revela. O caso de Mons. Marco Agostini não inaugura uma
crise; ele expõe uma. E o que aparece por baixo do verniz é um modelo de
governo eclesial que pune a aparência, protege a ideologia e administra a fé
como quem gerencia riscos de imagem.
Este diário não é um lamento nostálgico. É um ato de
memória. E memória, na Igreja, é fidelidade.
As notícias, lidas à luz da Tradição
Agostini: o bode expiatório e o método
Agostini não era um improviso. Serviu por décadas,
atravessou pontificados, guardou o rito romano com a sobriedade de quem sabe
que a liturgia não é palco, é altar. Caiu rápido, em silêncio, sem processo
visível, sem critérios públicos. O pecado? Uma frase grosseira, captada fora de
contexto. A pena? Exemplar.
A Tradição sempre distinguiu culpa privada de escândalo
público, intenção de circunstância, correção de expurgo.
Aqui, nada disso importou. Importou o efeito. Importou a narrativa. Importou
sinalizar que certos homens — sobretudo os associados ao antigo rito — não têm
margem de erro. O velho catecismo chamaria isso de injustiça; o novo
manual chama de “responsabilização”.
Dois pesos, duas medidas
A memória recente lembra comentários informais, expressões
infelizes, até termos idênticos usados por figuras mais altas — tratados como
tropeços culturais, rapidamente esquecidos. O contraste não é acidental. É político.
Onde a Tradição pesa, a disciplina aperta; onde o progressismo circula, a
misericórdia vira desculpa. A ironia é fina: fala-se muito de “acompanhamento”,
pouco de lei; muito de “processo”, pouco de verdade.
Roche e o memorando que substitui o debate
A Missa Tridentina não foi debatida no consistório; foi arquivada
por papel. Um documento “bastante negativo” distribuído ao final — sem
contraditório, sem teologia pública, sem coragem de assumir que se tenta
domesticar o que nunca foi criado por comissões. Assim se consolida uma
revolução: quando deixa de gritar e passa a protocolar.
Os santos reformaram costumes, não apagaram raízes. Trento
não teve medo de anátemas porque não tinha medo da verdade. Hoje, teme-se o
debate porque se teme o que a Tradição ainda vence quando é ouvida.
O “querigma” de Fernández e a fé em modo rascunho
Quando se pede menos “obsessão” com doutrina e normas, o
subtexto é previsível: menos moral, mais clima; menos clareza, mais
criatividade. O slogan “Ecclesia semper reformanda”, importado sem
alfândega, sugere uma Igreja eternamente inacabada. Mas a Igreja não é um
beta. Ela se purifica, não se reescreve.
Os santos pregavam o coração e a cruz; a fé e
a lei; a misericórdia e o arrependimento. Separar isso é protestantizar
o discurso e esvaziar o sacramento.
Cidade do Cabo e o ecumenismo sem conversão
Diálogo é virtude; confusão, não. Quando “a Igreja” vira um
termo elástico que dilui a identidade católica, perde-se o eixo sacramental e
jurídico da unidade. O ecumenismo católico sempre teve um fim claro: a
conversão à única Igreja verdadeira. O resto é política religiosa com
estética piedosa.
A dissidência permitida
Vozes como a de Eleganti soam porque já não governam. A
máquina tolera a crítica inofensiva. É a válvula de escape: fala-se
muito onde nada se decide. O sistema gosta de oposição decorativa; teme a
oposição eficaz. Eis a pedagogia do pós-concílio burocratizado.
Exemplos concretos: o contraste que denuncia
Enquanto se suaviza a linguagem sobre pecados que clamam aos
céus, pune-se com rigor um desabafo captado por acidente. Enquanto se
distribuem memorandos contra o rito antigo, evita-se o debate teológico.
Enquanto se invoca “inclusão”, exclui-se a herança litúrgica que formou santos.
A aparência vira critério; a verdade, incômodo.
Concluindo: Esperança contra a maré
Ainda assim, há esperança. Ela não nasce dos memorandos, mas
do instinto católico que reconhece a casa quando a vê. Nasce dos altares
antigos que continuam a erguer o sacrifício sem pedir licença à moda. Nasce dos
santos que ensinaram que a Igreja cresce quando obedece, não quando
negocia.
A Contrarrevolução não é barulho; é perseverança. Não é trending
topic; é fidelidade. O dia passa, o documento envelhece, o slogan cai. A
Missa permanece. A doutrina permanece. A verdade permanece.
Que este diário sirva de lembrete: quando a Igreja fala
como corporação, os fiéis respondem como filhos — com respeito, sim, mas
com memória, coragem e esperança. Porque no fim, não é o microfone aberto que
revela a crise. É o silêncio diante da verdade que a confirma.
Por um Católico consciente e atento ao cenário eclesial do Brasil e do Mundo.