Série: Linguagem, Verdade e Poder: Da novilíngua à liturgia
Capítulo II
Da novilíngua à liturgia: por que a Igreja sempre foi cautelosa com as palavras
Introdução
Esta série parte de uma constatação fundamental: uma nova
linguagem, funcionalmente análoga à novilíngua descrita por George Orwell, vem
se consolidando no espaço cultural contemporâneo. Seu objetivo não é apenas
alterar modos de expressão, mas reorganizar a percepção da realidade, redefinir
categorias morais e limitar silenciosamente o campo do pensamento possível.
Cada capítulo examina uma frente específica dessa transformação; neste, o foco
recai sobre a liturgia e o discurso religioso.
A liturgia constitui o espaço mais sensível da linguagem
cristã precisamente porque nela a palavra não apenas descreve a fé, mas a
realiza sacramentalmente. Diferentemente do discurso ordinário — que pode
tolerar ambiguidades sem consequências imediatas —, a linguagem litúrgica
participa da ação que enuncia: proclama, consagra, absolve e envia. Por essa
razão, sempre foi protegida com especial vigilância contra manipulações
semânticas.
A Igreja, desde seus primórdios, compreendeu que a
integridade da fé depende diretamente da precisão da linguagem com que é
expressa. A máxima lex orandi, lex credendi não se reduz a um princípio
devocional, mas exprime uma lei teológica estrutural: quando a linguagem da
oração se torna ambígua, a crença inevitavelmente se fragmenta. A confusão
linguística não permanece no plano das palavras; ela se infiltra na consciência.
É justamente nesse ponto que a lógica da novilíngua entra em
conflito direto com a tradição litúrgica da Igreja. Enquanto a linguagem
ideológica contemporânea opera pela diluição dos significados, pela
substituição de conceitos por impressões emocionais e pela fluidez estratégica
dos termos, a linguagem litúrgica exige densidade semântica, continuidade
histórica e fidelidade doutrinal. Onde a novilíngua busca flexibilidade máxima,
a liturgia requer estabilidade responsável.
Ao analisar a cautela histórica da Igreja em relação às
palavras litúrgicas, este capítulo não realiza um exercício arqueológico, mas
um diagnóstico cultural. Em um contexto marcado pela pressão para adaptar o
discurso religioso às categorias dominantes do mundo contemporâneo, torna-se
essencial compreender por que a Igreja sempre resistiu à confusão linguística:
não por nostalgia, mas para preservar a inteligibilidade do mistério cristão
diante de qualquer forma de colonização ideológica da linguagem.
Quem controla os termos, controla o conteúdo
A história dos Concílios Ecumênicos revela com clareza que
as grandes crises doutrinais foram, em larga medida, crises de linguagem. O
debate cristológico do século IV demonstrou que uma única palavra — homoousios
— era suficiente para salvaguardar ou dissolver a fé na divindade de Cristo.
Não se tratava de preciosismo técnico, mas de fidelidade à Revelação.
A partir dessa experiência, a Igreja aprendeu que a
linguagem teológica não pode ser arbitrária. Quem controla os termos, controla
o conteúdo. Por isso, desenvolveu um vocabulário doutrinal preciso, capaz de
resistir tanto às simplificações excessivas quanto às ambiguidades calculadas
que mascaram erros sob aparência de profundidade pastoral.
Pio XII, na encíclica Humani Generis, advertiu
explicitamente contra o uso de categorias vagas e indeterminadas na teologia,
sobretudo quando justificadas pelo desejo de diálogo com a cultura moderna.
Para o Pontífice, abandonar a linguagem conceitual herdada da tradição não
elimina o erro; apenas o torna mais difícil de identificar e corrigir.
Bento XVI retomou essa preocupação ao insistir que a
liturgia não é espaço de criatividade subjetiva, mas de recepção fiel. As
palavras litúrgicas pertencem à Igreja enquanto sujeito histórico e espiritual,
atravessam séculos e culturas e não podem ser moldadas ao gosto de cada época
sem comprometer a continuidade da fé.
O Concílio Vaticano II, frequentemente invocado de
modo seletivo, jamais autorizou a dissolução semântica da linguagem litúrgica.
Em Sacrosanctum Concilium, afirma-se que a liturgia deve exprimir com
clareza aquilo que a Igreja crê. Quando o discurso litúrgico se torna genérico,
psicologizante ou ideologicamente carregado, ele deixa de formar o povo de Deus
e passa a refletir apenas o espírito transitório de uma época.
Considerações Finais
A cautela da Igreja com as palavras não decorre de medo do
novo, mas de respeito pelo real. A experiência histórica demonstrou que
palavras imprecisas produzem consciências frágeis, incapazes de discernimento
moral sólido e vulneráveis à manipulação cultural.
Num mundo que exalta a fluidez e desconfia da definição, a
linguagem litúrgica permanece como sinal de contradição. Ela afirma que a
verdade pode — e deve — ser dita com clareza, sem violência, mas também sem
concessões semânticas que esvaziam o conteúdo da fé.
Resistir à novilíngua no âmbito litúrgico não é gesto
ideológico, mas profundamente pastoral. Trata-se de proteger o fiel comum da
confusão que nasce quando tudo parece dizer tudo e, no fim, nada diz coisa
alguma com precisão suficiente para orientar a vida cristã.
A Igreja não precisa falar como o mundo para ser
compreendida. Precisa falar com verdade. E a verdade exige palavras firmes,
herdadas, testadas pelo tempo e capazes de atravessar culturas sem perder o
sentido essencial.
Onde a palavra mantém densidade, o mistério permanece
inteligível. E onde o mistério é inteligível, a fé não se dissolve em emoção ou
opinião, mas se enraíza, amadurece e floresce na vida concreta dos fiéis.