Entre o incenso e a névoa: crônica de uma Igreja em vigília
Prefácio
Esta crônica será diferente das anteriores. Não nasce
diretamente do silêncio da capela nem da arquitetura conceitual da teologia,
mas do barulho contido dos corredores, das entrelinhas das falas e das cadeiras
vazias que também discursam. É uma crônica de observação, quase de vigília.
Olhos abertos, fé desperta. O que segue não é acusação nem defesa automática: é
leitura amorosa, porém lúcida, da realidade atual da Igreja Católica, tal como
ela se apresenta neste momento histórico delicado.
Introdução
O texto que inspira esta crônica nos coloca diante de uma
Igreja em movimento — mas não necessariamente em consenso. Uma Igreja que fala
muito de caminhar juntos, mas ainda tropeça em definir o caminho. Aqui serão
apresentados seis pontos centrais que emergem dessa realidade recente:
não como teses, mas como sinais dos tempos. Cada ponto será comentado com
franqueza, memória e esperança, porque só quem ama de verdade se permite pensar
criticamente. No fim, apesar das tensões, a esperança não será retirada —
porque ela não é otimismo ingênuo, mas virtude teologal testada no fogo.
1. As ausências que falam mais alto que os discursos
Há algo profundamente simbólico em um consistório
extraordinário marcado por ausências expressivas. Na Igreja, presença sempre
foi sinal de comunhão: concílios, sínodos, capítulos religiosos nasceram da
convicção de que estar junto importa. Quando muitos não vêm, não se trata
apenas de logística. Trata-se de linguagem silenciosa.
Essas ausências não podem ser lidas de forma simplista. Não
são, necessariamente, atos de oposição aberta. Em muitos casos, parecem
expressar cansaço, desconfiança, ou mesmo a sensação de que determinadas
instâncias já não produzem verdadeiro discernimento. Quando pastores
experientes se retiram do espaço de escuta, algo no processo precisa ser
revisto.
A Igreja não vive só do que é dito, mas também do que é
evitado. E hoje, o que se evita revela um corpo eclesial que ainda não
reencontrou plenamente a confiança nos seus próprios instrumentos de
colegialidade. A comunhão não se decreta; ela se constrói — e a ausência é
sempre um pedido implícito de revisão.
2. Unidade desejada, mas sem uma linguagem comum
Todos falam de unidade. É quase um mantra contemporâneo. Mas
unidade, na tradição católica, nunca foi mero acordo emocional ou discurso
conciliador. Sempre foi unidade na fé, na liturgia e na missão. Quando essas
três dimensões se desalinhavam, os conflitos surgiam — e a Igreja os enfrentava
com clareza doutrinal.
O problema atual não é a falta de boa vontade, mas a
ausência de um vocabulário comum. Usa-se a mesma palavra para significar coisas
diferentes. Reforma, escuta, missão, sinodalidade — tudo parece elástico
demais. Quando a linguagem se dissolve, a unidade vira uma intenção vaga, não
um projeto concreto.
Sem um eixo claro, cada grupo entende a unidade a partir da
própria sensibilidade. Isso gera frustração dos dois lados: uns se sentem
contidos, outros se sentem ignorados. A história da Igreja ensina que a
verdadeira unidade não nasce da ambiguidade prolongada, mas da verdade dita com
caridade.
3. Sinodalidade: entre tradição antiga e experimento aberto
Caminhar juntos não é novidade. A Igreja sempre caminhou
sinodalmente, ainda que não usasse o termo com a frequência atual. O problema
não está na ideia, mas na expansão indefinida do conceito. Quando tudo é
sinodal, perde-se o contorno canônico, teológico e pastoral da própria noção.
A introdução de novos sujeitos com direito deliberativo —
sem clareza suficiente sobre autoridade e responsabilidade — gera confusão
legítima. Não é resistência à participação dos leigos; é preocupação com a
natureza do discernimento eclesial. A Igreja sempre soube distinguir consulta
de decisão. Apagar essa distinção cria tensão permanente.
Além disso, a sinodalidade ainda carrega sombras de
experiências problemáticas recentes. Quando se associa, mesmo indiretamente, a
processos que flertam com rupturas doutrinais, o receio cresce. A sinodalidade
precisa de raízes claras na tradição; caso contrário, corre o risco de se
tornar método instável para uma Igreja bimilenar.
4. A liturgia como espelho da crise e da esperança
A liturgia nunca foi um tema secundário. Ela é o lugar onde
a fé se torna gesto, palavra e silêncio. Quando há inquietação litúrgica
generalizada — inclusive entre cardeais de perfis distintos — é sinal de que
algo mais profundo está em jogo: a forma como a Igreja compreende o sagrado.
Os abusos litúrgicos não são meros excessos estéticos. Eles
revelam uma mudança de mentalidade: a passagem do culto a Deus para a
autoexpressão da comunidade. Quando isso acontece, a liturgia deixa de formar e
passa a refletir gostos, ideologias ou agendas locais.
A questão da Missa tradicional, tratada de modo indireto e
documental, reforça a sensação de que certos temas são administrados, não
discernidos. Isso gera desconfiança. A tradição litúrgica não é um problema a
ser resolvido, mas um patrimônio a ser integrado com sabedoria.
5. Métodos novos, frustrações antigas
A adoção de formatos modernos promete horizontalidade,
diálogo e participação. Mas método, por si só, não garante escuta real. Quando
as intervenções são curtas, controladas e pouco consideradas, a sensação de
teatro deliberativo se instala — fala-se muito, decide-se pouco em comum.
A frustração relatada por diversos cardeais não é
irrelevante. Ela aponta para um desgaste institucional: a impressão de que os
processos servem mais para legitimar decisões prévias do que para construir
caminhos novos. Isso enfraquece a confiança no próprio sistema.
A Igreja sempre debateu longamente. Basta lembrar os
concílios antigos, com discussões intensas e decisões claras. Reduzir o tempo
da palavra não necessariamente melhora o discernimento. Às vezes, é justamente
o tempo prolongado que permite à verdade emergir.
6. Um pontificado entre herança pesada e futuro indefinido
Leão XIV surge como figura de transição. Herda uma Igreja
marcada por polarizações, expectativas conflitantes e estruturas em mutação.
Seu estilo parece mais moderado, menos combativo, mais pastoral. Isso é virtude
— mas também traz riscos.
Governar em tempos de tensão exige mais do que gentileza:
exige direção. A Igreja suporta diversidade, mas não indefinição prolongada.
Quando o Papa não oferece linhas claras, outros o farão — e nem sempre a partir
da Tradição.
Ainda assim, é cedo para julgamentos definitivos. Todo
pontificado precisa de tempo para se revelar. A grande questão será se Leão XIV
terá coragem de clarificar o que hoje está nebuloso, mesmo ao custo de
desagradar setores. A história mostra: os Papas mais fecundos não foram os mais
populares, mas os mais fiéis.
Epílogo de esperança
Apesar de tudo, há esperança — e não pequena. A Igreja está
inquieta porque está viva. Onde não há tensão, geralmente já há acomodação ou
morte espiritual. O debate atual, por mais áspero que seja, revela amor pela
Igreja e desejo de fidelidade.
Cristo continua no leme, mesmo quando o mar está agitado. A
Tradição não é peso morto; é raiz que sustenta novos ramos. A liturgia, a fé e
a missão ainda encontram corações dispostos a guardá-las com reverência.
A noite não é o fim da história. É apenas o tempo em que se
aprende a vigiar. E a Igreja, que já atravessou impérios, cismas e revoluções,
saberá atravessar também este tempo — não negando suas raízes, mas bebendo
novamente delas.
Por seu Irmão Carmelita Secular da Antiga Observância B