Globalismo Sacralizado: Janeiro em Roma e a Crise da clareza Católica


Quando a máscara cai e o léxico governa

Janeiro não foi apenas mais um mês no calendário romano. Foi uma vitrine. Em poucos dias, Roma entregou um pacote completo: consistório extraordinário, nova equipe papal, discurso ao corpo diplomático e, como pano de fundo, a reafirmação do vocabulário pós-conciliar que já não governa apenas a linguagem, mas a própria estrutura da Igreja. Tudo organizado, tudo previsível, tudo embalado com palavras que soam espirituais, mas funcionam como instrumentos políticos.

O fio condutor é claro: a transformação da fé em processo e da doutrina em gestão. O que antes era verdade revelada agora aparece como “discernimento contínuo”. O que antes era mandato apostólico vira “escuta”. O que antes era clareza moral passa a ser tratado como rigidez. Não se exige adesão à verdade, mas lealdade ao método.

Essa lógica não opera apenas dentro da Igreja. Ela se projeta para o mundo. O mesmo mecanismo que dilui a doutrina em “acompanhamento pastoral” dissolve as nações em “fluxos migratórios” e rebatiza essa dissolução como caridade. A teologia se curva à governança global, e a linguagem sagrada serve de verniz para agendas já decididas.

Janeiro foi o momento em que tudo isso deixou de ser sussurro e virou discurso oficial. A máscara escorregou em público.

Sinodalidade, linguagem elástica e política global

A intervenção do cardeal Joseph Zen foi breve, mas devastadora. Três minutos diante de mais de cento e setenta cardeais para denunciar um processo sinodal de três anos apresentado como obra do Espírito Santo. O contraste é gritante e revela o que Roma chama de “escuta”. Zen foi direto: o processo funcionou como uma “manipulação implacável”. Bispos reduzidos a figurantes, conclusões pré-fabricadas e o Espírito invocado como selo de aprovação. Quando o Espírito é usado para legitimar decisões humanas já tomadas, não estamos diante de piedade, mas de abuso da linguagem sagrada.

O problema se aprofunda quando se observa a ambiguidade deliberada do sistema. O Documento Final ora é chamado de magistério, ora de não normativo, depois exige “mediações”, e por fim se abre a adaptações locais. Essa elasticidade não é acidente, é método. Ambiguidade se torna virtude, responsabilidade se dissolve e a unidade passa a ser meramente documental. Zen acerta ao alertar para a trajetória anglicana: doutrina fragmentada, igrejas nacionais divergentes e Roma insistindo que tudo permanece “unido”.

Nesse cenário, o otimismo de certos setores soa deslocado. A tentativa de vender o consistório como sinal de “retorno à normalidade” repete um roteiro conhecido: atribuir a crise a estilos pessoais e não ao programa que os produziu. Fala-se em ajustes, em reaprendizado, em mudança de tom. Mas o próprio diagnóstico interno revela o colapso: cardeais sem formação sólida, liturgia marginalizada, confusão de prioridades e uma cúria dominada por quadros modernistas. A casa está comprometida, e a esperança oferecida é uma nova demão de tinta.

A simbologia litúrgica confirma essa tendência. O novo báculo papal, apresentado como sinal de continuidade, catequiza silenciosamente uma espiritualidade sem sacrifício. Cristo aparece glorificado, quase desprendido da Cruz, como se a Paixão fosse apenas um detalhe transitório. A Cruz deixa de ser altar e se torna elemento estético. A vitória vem sem reparação, a glória sem propiciação. Isso não é detalhe artístico; é pedagogia visual alinhada a uma pastoral que foge do escândalo do sofrimento redentor.

O discurso ao corpo diplomático fecha o ciclo. Trata-se de teologia política explícita. Multilateralismo exaltado, nacionalismo tratado como ameaça, ONU apresentada como mediadora moral. Migração abordada apenas em termos de direitos, sem deveres; clima elevado a imperativo ético incontestável; pena de morte rejeitada como se sempre tivesse sido intrinsecamente má. O ensinamento católico clássico sobre justiça, punição e bem comum é substituído por um sentimentalismo que desconfia da ordem e se surpreende com o caos.

Considerações finais: gestão ou fé? A escolha inevitável

O padrão se repete em todos os níveis: sínodos administrados, fronteiras administradas, significado administrado. A Igreja pós-conciliar pede católicos treinados na ambiguidade, obedientes ao processo, desconfiados da soberania, alérgicos à punição e confiantes de que as mesmas instituições que corroeram o Ocidente agora o salvarão. Tudo isso embalado com citações patrísticas e linguagem pastoral.

Janeiro mostrou o programa sem disfarces. Não se trata mais de interpretar intenções ou esperar correções futuras. O projeto está em plena execução. A crítica de Zen ecoa como um aviso tardio, enquanto o sistema segue absorvendo a indignação e perpetuando o método.

A questão, no fim, é simples e brutal. Os católicos continuarão aplaudindo a gestão ou resgatarão a fé que fala com clareza, governa com autoridade, adora sem medo da Cruz e diz a verdade às nações sem pedir licença a corpos diplomáticos?

A Igreja que outrora convertia povos agora corre o risco de apenas aconselhar administradores. Recuperar a clareza não é nostalgia; é sobrevivência. A Tradição não precisa ser reinventada, reinterpretada ou flexibilizada. Precisa ser crida, vivida e defendida — com a Cruz inteira, sem atalhos e sem maquiagem.

Por Ir. Alan Lucas de Lima, OTC
Carmelita Secular da Antiga Observância