Quando o Altar vira tribuna e o incenso é substituído por panfleto

Diário de um Católico na Contrarrevolução — Parte 39

Introdução

Há dias em que a alma católica acorda com gosto de cinza. Não da cinza penitencial que chama à conversão, mas da fuligem ideológica que se infiltra nos templos quando o altar é rebaixado ao nível do palanque. Foi lendo a recente “nota de repúdio” dos chamados Padres da Caminhada — também travestidos de Padres contra o Fascismo — que esse gosto voltou à boca. O texto é longo, inflamado, cheio de listas geopolíticas, slogans continentais e uma confiança quase mística em projetos temporais. Só faltou o essencial: Cristo Rei, a Cruz, o pecado, a graça, a salvação das almas.

E aí está o drama do nosso tempo: muito discurso sobre impérios, pouquíssima palavra sobre o Império de Nosso Senhor.

Muito horizontal, tudo muito terreno

O documento se apresenta como denúncia profética, mas soa mais como editorial de partido. Repudia intervenções, enumera guerras, invoca soberania nacional, cita o Papa seletivamente e termina clamando por uma “Pátria Grande livre e soberana”. Tudo muito horizontal, tudo muito terreno. É a velha tentação denunciada por Nosso Senhor no deserto: trocar o Reino dos Céus por todos os reinos do mundo — desde que se preste culto ao espírito do tempo.

A crítica à política internacional pode até ter pontos debatíveis, mas não é esse o cerne. O problema é mais fundo. É teológico. É espiritual. É eclesial.

Quando padres falam como militantes, a Igreja adoece. Quando a linguagem da fé é substituída pela linguagem da luta de classes, a Cruz é esvaziada. A Teologia da Libertação, já condenada nos seus desvios pelo Magistério — basta lembrar a Libertatis Nuntius e a Libertatis Conscientia — reaparece aqui requentada, com menos marxismo explícito, mas com o mesmo vício: reduzir a Redenção a um projeto histórico-político.

A Igreja sempre falou aos povos, nunca falou como um partido entre outros. Santo Atanásio enfrentou imperadores, mas não escreveu manifestos ideológicos. São Pio V reformou a Igreja, mas não confundiu o Missal com um programa continental. São Óscar Romero — tantas vezes instrumentalizado — morreu como bispo, não como agitador. A Tradição Católica é clara: a missão primeira do sacerdote é oferecer o Santo Sacrifício, absolver pecados, ensinar a verdade inteira da fé, a tempo e fora de tempo.

Exemplos Concretos

O texto analisado fala longamente de soberania nacional, mas ignora a soberania de Deus. Denuncia intervenções estrangeiras, mas silencia sobre a maior intervenção da história: o Verbo que Se fez Carne para intervir no drama do pecado. Cita dezenas de guerras, mas não menciona a guerra espiritual que devasta almas quando o Evangelho é diluído em retórica sociológica.

Mais grave: apresenta a Igreja como parte de um “projeto de Pátria Grande”. Ora, a Igreja não cabe em projetos. Ela os julga. Não é refém de blocos geopolíticos, nem capelã de ideologias. Quando padres assinam notas como essa, falam em nome próprio, não in persona Ecclesiae. E o fiel simples percebe. Pode até não saber formular, mas sente: algo ali não cheira a incenso, cheira a panfleto.

Enquanto isso, a Missa Tridentina — coração pulsante da fé de sempre — segue sendo tratada como problema, quando é remédio. Ali não há slogans. Há silêncio. Não há “repúdio”, há Confiteor. Não há projeto continental, há sacrifício redentor. Não há ideologia, há doutrina.

Conclusão

Este capítulo do Diário não é um ataque pessoal, mas um alerta fraterno — ainda que firme. A Contrarrevolução começa quando recolocamos cada coisa no seu lugar: a política no seu âmbito legítimo, e a Igreja no seu trono sobrenatural. O mundo não precisa de padres que pensem como comentaristas internacionais. Precisa de sacerdotes que pensem como sacerdotes, rezem como sacerdotes e vivam como homens de Deus.

Há esperança, sim. Sempre há. Enquanto houver um altar onde se ofereça a Missa de sempre; enquanto houver um fiel que reze o Rosário em silêncio; enquanto houver quem prefira a verdade inteira ao aplauso fácil. A Igreja já atravessou impérios, ideologias e modas. Também atravessará essa.

No fim das contas, toda “Pátria Grande” passa. O que permanece é o Reino que não é deste mundo — mas que começa, discretamente, toda vez que um padre escolhe o Missal em vez do manifesto, e a Cruz em vez do palanque.

Por um Católico consciente e atento ao cenário eclesial do Brasil e do Mundo.