Do Foro ao Juízo da História: quando a palavra vira prova
À primeira vista, pode soar estranho encontrar uma análise
política num espaço voltado ao público católico. Afinal, muitos ainda insistem
nessa falsa divisão entre fé e história, como se a Igreja vivesse numa redoma,
imune às forças que moldam povos, culturas e consciências. Isso nunca foi
verdade. Nunca foi assim. E quem conhece minimamente a tradição católica sabe
disso.
A Igreja sempre falou quando o mundo tentou reorganizar a
realidade sem Deus — do Império Romano às ideologias modernas. Silenciar agora
seria covardia espiritual.
Escrevo este texto porque a política latino-americana das
últimas décadas não foi neutra, nem acidental. Ela se construiu a partir de uma
visão de mundo específica, militante, ideológica, e profundamente hostil à
concepção cristã clássica de homem, verdade e liberdade. O Foro de São Paulo
não foi apenas um arranjo partidário: foi um projeto civilizacional. E projetos
civilizacionais sempre disputam almas antes de disputar votos.
É impossível compreender a trajetória das Comunidades
Eclesiais de Base (CEBs) e o avanço da chamada Teologia da Libertação sem
reconhecer essa contaminação ideológica. A leitura marxista da realidade,
travestida de opção pastoral, não caiu do céu. Foi importada, cultivada e
organizada dentro de um mesmo caldo político-cultural que moldou governos,
movimentos sociais e parte da ação eclesial na América Latina.
Aqui não se trata de negar a legítima preocupação da Igreja
com os pobres — isso seria heresia prática. O problema começa quando a pobreza
deixa de ser ferida a ser curada e passa a ser instrumento de revolução; quando
Cristo é reduzido a símbolo político; quando o pecado vira “estrutura” abstrata
e a conversão pessoal desaparece do horizonte.
A análise que segue é política, sim — mas não é estranha à
fé. Pelo contrário: ela é necessária para que o católico entenda como certas
ideias penetraram ambientes eclesiais, deformaram a missão da Igreja e
confundiram gerações inteiras de fiéis. Ignorar isso em nome de uma falsa
“neutralidade” é repetir o erro que nos trouxe até aqui.
O católico não pode ser ingênuo. A tradição não é um apego
ao passado morto, mas uma memória viva que ensina a reconhecer velhas mentiras
com novas embalagens. A esquerda latino-americana soube usar a linguagem da
justiça social para inocular uma visão materialista, revolucionária e
anticristã dentro da própria Igreja. E isso não é teoria: é fato histórico.
Este texto nasce, portanto, como um alerta fraterno. Não
para inflamar paixões partidárias, mas para restaurar a lucidez. Porque quando
a política redefine a teologia, o Evangelho vira panfleto. E quando isso
acontece, os pobres continuam pobres — só que agora também sem verdade.
Escrever é um ato de caridade intelectual. E calar, neste
momento da história, seria omissão.
Que o leitor leia com espírito crítico, fé firme e memória
longa. Porque o futuro da Igreja na América Latina passa, gostemos ou não, pela
coragem de encarar o passado sem anestesia.
O que vem para o Brasil depois da prisão de Maduro?
Durante mais de trinta anos, o Foro de São Paulo foi vendido
ao público como um clube de debates da esquerda latino-americana. A polêmica
nunca foi sobre sua existência — isso sempre esteve escancarado —, mas sobre
sua natureza real. Olavo de Carvalho bateu nessa tecla até cansar: o problema
do Foro não é ser secreto, é ser informal, transnacional e, sobretudo, eficaz.
No capítulo “Lula, réu confesso”, do livro O Foro
de São Paulo, Olavo não acusa com base em arquivos vazados nem em delações
bombásticas. Ele faz algo muito mais incômodo: acusa a partir de discurso
oficial. Palavra pública. Registro histórico. Ata assinada pelo tempo.
E é aí que mora o estrago.
A fala que muda tudo
Em 2 de julho de 2005, durante a comemoração dos 15 anos do
Foro, Luiz Inácio Lula da Silva discursou num evento cujo conteúdo foi
incorporado ao acervo oficial da Presidência da República. Nada clandestino.
Nada “teoria da conspiração”.
Nesse discurso, Lula relata a atuação do Foro na crise
venezuelana do início dos anos 2000 e deixa três pontos cristalinos:
- a mediação foi iniciativa de “companheiros”,
- não se tratou de ação entre Estados,
- usou-se uma rede política construída dentro do Foro, inclusive em encontros realizados em Havana.
Está tudo ali, preto no branco. O trabalho de Olavo não foi
inventar nada, mas puxar o fio lógico: se não foi ação de Estado, foi ação
paralela; se não passou por ministérios, parlamentos ou chancelerias, operou
fora do controle institucional.
A conclusão é simples e dura: o Foro não era só um espaço de
conversa. Era um instrumento de operação política.
Venezuela: o campo de testes
A Venezuela aparece como peça-chave nesse quebra-cabeça. A
consolidação de Hugo Chávez após as crises internas e o referendo de 2004
surge, na fala de Lula, como fruto direto dessa articulação informal.
Isso revela três coisas graves:
- a existência de uma instância supranacional de coordenação política;
- a disposição de governos eleitos para agir fora dos canais oficiais;
- a relativização prática da soberania nacional em nome da fidelidade ideológica.
Mais ainda: Lula admite que a mediação não deveria “parecer
interferência política”. Traduzindo do dialeto revolucionário: havia intenção
consciente de disfarce.
Não é erro. Não é improviso. É método.
Partidos, Estados e armas no mesmo ecossistema
Outro ponto recorrente no livro é o convívio, dentro do
mesmo ambiente político, de partidos legais, governos e organizações armadas.
FARC, MIR e afins não aparecem como “equivalentes” aos partidos, mas como
continuidade histórica de uma mesma estratégia continental.
Não se diz que o Foro comandava guerrilhas. Diz-se algo
pior: nunca houve uma ruptura real entre a fase armada e a fase institucional
da revolução. O que mudou foi a tática. O mesmo projeto, novas roupas.
Quem ontem usava fuzil, hoje usa gravata. A lógica é a
mesma.
Quando o tempo alcança a fala
Avançando para o presente, a prisão de Nicolás Maduro — no
contexto das acusações de narcotráfico e terrorismo formuladas pelo
Departamento de Justiça dos EUA desde 2020 — muda o tabuleiro.
Independentemente do desfecho judicial, o fato político já
está dado: o regime venezuelano deixou de ser tratado como mero adversário
ideológico e passou a ser enquadrado como organização criminosa transnacional.
Isso é um divisor de águas.
Se a Venezuela deixa de ser apenas um “governo autoritário”
e passa a ser reconhecida como narcoditadura, todas as redes de apoio político
informal entram automaticamente sob suspeita.
A luz acende. As sombras diminuem.
E Lula nisso tudo?
É aqui que a tese de Olavo ganha um peso desconfortável.
O próprio Lula declarou, em discurso oficial, que:
- decisões centrais da política regional foram tomadas fora da lógica estatal;
- essas decisões se basearam em relações políticas informais;
- o Foro foi o instrumento dessa engrenagem.
Nada disso foi arrancado à força. Foi dito espontaneamente.
Está registrado.
Se investigações internacionais avançarem no reconhecimento
do regime venezuelano como estrutura criminosa organizada, a pergunta deixa de
ser teórica e passa a ser jurídica:
Quem colaborou politicamente, fora dos canais
institucionais, para a sustentação desse regime?
Não se trata de condenar por antecipação. Trata-se de
reconhecer que a narrativa pública do passado pode virar prova contextual no
presente.
Quando a Ideologia Entra no Altar
É aqui que o leitor católico precisa abrir bem os olhos.
A mesma matriz ideológica que estruturou o Foro de São Paulo
também influenciou profundamente setores da vida eclesial latino-americana. As
Comunidades Eclesiais de Base e a Teologia da Libertação não surgiram no vácuo.
Elas beberam de uma leitura marxista da realidade, importada como “ferramenta
pastoral”.
O Magistério da Igreja nunca foi ambíguo sobre isso.
Joseph Ratzinger, ainda como Prefeito da Congregação para a
Doutrina da Fé, alertou com clareza nas Instruções de 1984 e 1986: a opção
pelos pobres é evangélica, mas a adoção do marxismo como chave interpretativa é
incompatível com a fé cristã. Quando a luta de classes substitui o combate
espiritual, a Igreja perde sua alma.
Puebla já advertia contra a politização da fé. Aparecida
reforçou: a Igreja não é ONG ideológica nem braço de projetos de poder. Sua
missão é formar discípulos, não militantes.
O resultado do desvio está diante de nós: comunidades fortes
em assembleias e fracas em sacramentos; muito discurso social, pouca vida
espiritual; muita análise estrutural, pouca conversão pessoal.
Isso não foi renovação conciliar. Foi traição prática ao
Concílio.
Analisar a política latino-americana, portanto, não é algo
estranho à fé. É defendê-la. É compreender como projetos de poder tentaram
instrumentalizar a Igreja e como isso deformou sua missão.
Confissão não prescreve
Olavo insistia: o maior erro dos críticos foi tratar o Foro
como irrelevante. O segundo foi esquecer que palavras oficiais não evaporam.
Elas ficam. E cobram.
Quando um presidente afirma que atuou politicamente fora do
Estado, em coordenação com agentes estrangeiros, produzindo efeitos concretos
em outro país, ele não está apenas discursando. Está assinando um documento
histórico.
O tempo alcançou a confissão.
Resta saber se a direita brasileira continuará falando de
PIB e amenidades enquanto é governada pelo chefe do Foro de São Paulo — o mesmo
organismo que deu sustentação política ao regime que hoje o mundo começa a
tratar pelo nome certo: cartel travestido de Estado.
O relógio está correndo. E ele não perdoa.