Quando a Igreja fala demais de si mesma e esquece de falar de Deus
Diário de um Católico na Contrarrevolução — Parte 38
Introdução
Há momentos na história da Igreja em que o silêncio grita
mais alto que qualquer discurso. O recente consistório é um desses momentos.
Não pelo que foi dito — mas pelo que foi cuidadosamente evitado. A liturgia, a
Missa, a fonte e o cume da vida cristã, foi retirada da pauta. Em seu lugar,
voltou o velho refrão: sinodalidade. A palavra que promete tudo e entrega
pouco. Palavra que gira, gira, gira… e não chega.
Este capítulo nasce dessa constatação amarga, mas
necessária: quando a Igreja fala demais de si mesma, começa a esquecer de Deus.
E quando esquece de Deus, começa a perder o homem.
A Revelação não nasce de assembleias
A Igreja sempre caminhou na história enfrentando crises.
Heresias, perseguições, decadências morais, papas fracos, clérigos confusos —
nada disso é novidade. O que muda hoje é o método da confusão: não se nega
frontalmente, mas se dilui; não se combate abertamente, mas se substitui o
essencial pelo acessório. Sai a Missa. Entra o processo. Sai o altar. Entra a
mesa de debate.
A sinodalidade, tal como vem sendo promovida, não é
continuidade da Tradição, mas ruptura disfarçada de escuta. O Magistério perene
sempre ensinou que a Igreja escuta — sim — mas escuta a Deus primeiro. Dei
Verbum não é Vox Populi. A Revelação não nasce de assembleias, mas
da iniciativa divina, confiada aos Apóstolos e guardada fielmente pela Igreja.
Os Santos nunca precisaram de “processos sinodais” para
reformar a Igreja. São Francisco ajoelhou-se diante do crucifixo. São Domingos
pregou a verdade sem negociar a doutrina. Santa Teresa reformou o Carmelo com
silêncio, oração e regra. São Pio V reformou a liturgia não para agradar
sensibilidades, mas para proteger a fé. Todos entenderam algo que hoje parece
esquecido: lex orandi, lex credendi. Mexa na Missa, e a fé desmorona
logo atrás.
A perseguição à Missa no Rito Romano Antigo não é um detalhe
administrativo. É um sintoma. Quando se suprime a forma mais clara, objetiva e
teocêntrica do culto católico, o que se enfraquece não é um “grupo”, mas a
própria consciência do sagrado. E uma Igreja sem senso do sagrado vira apenas
mais uma voz no mercado das opiniões.
Enquanto isso, os problemas reais seguem intocados: jovens
abandonando a fé, famílias implodindo, o niilismo avançando, o paganismo
voltando com força total — agora com verniz terapêutico e linguagem inclusiva.
Mas os pastores preferem discutir “metodologias de escuta”. É como rearrumar as
cadeiras enquanto o navio faz água.
Exemplos Concretos
O texto que inspira este capítulo é claro: retirou-se da
pauta a liturgia. Retirou-se a discussão sobre Prædicate Evangelium e a
reforma da Cúria. Evitou-se qualquer avaliação concreta. Em compensação,
insistiu-se na conversa sem conclusão. Não chegar a um texto. Não fixar uma
direção. Não decidir.
Isso não é prudência. É paralisia travestida de humildade.
O fiel comum percebe. Ele pode não dominar os termos
técnicos, mas sente quando algo está fora do lugar. Ele sabe quando a Missa
deixa de apontar para o céu e passa a girar em torno do homem. Ele sente falta
do silêncio, da reverência, da continuidade com os séculos que nos precederam.
E, ironicamente, quando o Papa lembra que “não é a Igreja
que atrai, mas Cristo”, ele toca no nervo exposto da crise atual. Porque tudo o
que hoje se promove parece desmentir essa frase na prática. Atrai-se pelo
discurso, pelo método, pela novidade — nunca mais pelo mistério.
Conclusão
Apesar de tudo, este diário não termina em desespero. A
Contrarrevolução católica sempre foi assim: silenciosa, fiel, teimosa. Enquanto
os salões discutem, os altares antigos continuam a formar almas. Enquanto os
documentos se acumulam, a Missa Tridentina continua a oferecer o Santo
Sacrifício como sempre foi feito — ad orientem, in persona Christi,
para a glória de Deus e salvação das almas.
A esperança da Igreja não está na sinodalidade, nem em
reformas estruturais, nem em conversas intermináveis. Está em Cristo. No Seu
Sacrifício renovado no altar. Na Tradição viva que não envelhece. Nos santos
que não pediram permissão para ser fiéis.
A ajuda pode não vir “de cima”, nos corredores do poder
eclesiástico. Mas nunca veio apenas daí. Ela vem do alto — do Céu. E enquanto
houver um católico disposto a ajoelhar-se, a crer no que sempre se creu e a
rezar como sempre se rezou, a Igreja continuará viva.
Contra a Revolução, seguimos.
Sem barulho. Sem medo.
Com a Missa. Com os Santos. Com Cristo.
Por um Católico consciente e atento ao cenário eclesial do Brasil e do Mundo.