Nem de esquerda, nem de direita: sou Católico

Entre os escombros da revolução e as promessas do século, permanece de pé apenas o Reino que não passa: Cristo Rei.

Antes de qualquer juízo sobre estas linhas, convém estabelecer um princípio: não escrevo como homem de direita nem como homem de esquerda. Escrevo como Católico.

E sem essa chave, tudo o que segue corre o risco de parecer apenas preferência ideológica ou nostalgia de um mundo que passou. Mas o problema não é eleitoral. É mais profundo. Trata-se de uma questão de fundamentos.

A grande armadilha da modernidade não foi apenas trocar governantes ou reorganizar instituições. Foi substituir a origem da autoridade. A questão deixou de ser: quem governa? e passou a ser: quem tem o direito último de governar?

Nesse sentido, a Revolução Francesa não foi apenas uma mudança política. Representou uma ruptura espiritual e filosófica: a tentativa de deslocar o centro da ordem social de Deus para o homem. Não bastava limitar reis ou reformar estruturas; era necessário declarar que a legitimidade deixaria de descer do alto para nascer da vontade coletiva.

Desde então, quase toda discussão política passou a ocorrer dentro desse novo terreno.

Esquerda e direita surgiram como polos de uma mesma linguagem histórica.

A esquerda manifesta o impulso revolucionário em sua forma mais aberta: desconfiança das hierarquias, desejo constante de reconstrução social e a esperança de realizar, pela ação humana, uma espécie de redenção histórica. Seu erro não está em desejar justiça, mas em acreditar que o homem pode salvar a si mesmo sem referência ao Criador.

Mas seria ingênuo concluir que a direita moderna constitui automaticamente o oposto desse projeto.

Na prática, grande parte do conservadorismo contemporâneo não busca restaurar uma ordem anterior à ruptura; busca apenas administrar seus efeitos. Conserva costumes, porém aceita pressupostos. Defende limites, mas frequentemente admite que toda autoridade dependa exclusivamente da decisão humana.

Tenta conter a velocidade da transformação sem questionar o motor que a produz.

O resultado é um paradoxo: conservar estruturas edificadas sobre fundamentos que já foram abandonados.

Por isso, reduzir o debate entre esquerda e direita pode significar permanecer dentro do mesmo horizonte intelectual.

Para o Católico, entretanto, política nunca foi fundamento último.

A autoridade humana possui dignidade, mas não é absoluta. O Estado possui legitimidade, mas não soberania total. A sociedade possui ordem própria, mas não existe desligada da Lei Moral.

A resposta católica ao caos moderno não consiste em inventar uma nova revolução nem em administrar indefinidamente os escombros das anteriores.

Consiste em recordar que existe uma ordem anterior às ideologias e superior aos ciclos eleitorais.

Essa ordem tem um nome: Cristo Rei.

A doutrina da Realeza Social de Cristo afirma que Nosso Senhor não reina apenas sobre consciências individuais ou dentro dos templos. Seu senhorio alcança toda a realidade humana: famílias, cultura, economia, educação, costumes e instituições.

Isso não significa transformar religião em instrumento partidário nem confundir Igreja e Estado. Significa reconhecer algo mais simples e mais profundo: nenhuma sociedade permanece saudável quando organiza sua vida pública como se Deus fosse irrelevante.

Um Estado que se declara moralmente neutro não elimina valores — apenas substitui uns por outros.

É justamente aqui que a Doutrina Social da Igreja aparece como resposta.

Ela não é uma versão cristianizada da esquerda nem um conservadorismo sentimental. É um corpo orgânico de princípios que parte da dignidade da pessoa humana, do bem comum, da subsidiariedade e da solidariedade, ordenando tudo ao destino último do homem.

Sua proposta não é estatizar tudo nem entregar tudo ao mercado. Não é dissolver famílias nem submetê-las ao aparato burocrático. É restaurar a justa ordem das coisas para que a vida social favoreça o florescimento humano e a busca pela verdade.

Mas reconhecer isso não significa abandonar a vida pública.

O católico não recebe autorização para fugir do mundo.

Votar, participar da política, formar cultura e influenciar instituições continuam sendo deveres legítimos. Não porque a política salve, mas porque o bem comum exige responsabilidade.

A prudência cristã ensina que nem todas as opções produzem os mesmos frutos e que permitir o avanço do erro por omissão não é virtude.

Contudo, existe um limite que nunca pode ser ultrapassado.

A política é instrumento. Nunca esperança última.

Nenhuma eleição redime uma civilização. Nenhum partido substitui uma conversão. Nenhum governante ocupa o lugar que pertence a Cristo.

A política pode conter o caos.

Mas não salva o homem.

Por isso, o Católico participa da cidade sem adorá-la.

Não deposita sua esperança definitiva na direita nem entrega o mundo à esquerda por resignação.

Seu horizonte permanece outro.

Não o triunfo de um partido.

Mas a restauração de todas as coisas em Cristo.

Nem esquerda. Nem direita. Cristo Rei.

Por Ir. Alan Lucas de Lima, OTC
Carmelita Secular da Antiga Observância