A fumaça que não era incenso
Notas de Resistência em Tempos de Sinodalidade Fluida — Parte 7
Há dias em que Roma parece uma cidade construída sobre duas
camadas de tempo.
Na superfície, comunicados, encontros, documentos, sínteses,
mesas redondas, escutas, itinerários, processos, discernimentos permanentes.
Tudo muito acompanhado por palavras suaves e expressões cuidadosamente polidas
— como se a linguagem tivesse descoberto o segredo de nunca mais precisar
afirmar nada de modo definitivo.
Abaixo dessa superfície, porém, permanece outra Roma.
A Roma das pedras gastas pelos joelhos. A Roma dos mártires.
A Roma que conheceu imperadores, cismas, heresias, saques, papas santos e papas
menos santos — e que nunca sobreviveu por habilidade diplomática, mas por uma
insistência quase escandalosa em repetir o mesmo Credo.
Hoje caminhei imaginariamente entre essas duas cidades.
E confesso: a distância entre elas às vezes parece maior que
o Tibre.
Existe algo curioso em nossa época eclesial.
Já não se fala tanto em erro.
Fala-se em processos.
Já não se fala tanto em conversão.
Fala-se em acompanhamento.
Já não se fala tanto em verdade.
Fala-se em narrativas.
Nada disso, tomado isoladamente, é necessariamente
ilegítimo. A Igreja sempre acompanhou, discerniu, escutou e conduziu. O pastor
conhece as ovelhas.
Mas existe uma diferença antiga e decisiva entre acompanhar
alguém até a verdade e instalar-se confortavelmente na estrada.
Nos últimos anos tornou-se difícil ignorar certo fenômeno:
cresce uma pastoral que parece receosa de concluir frases.
Tudo precisa permanecer aberto.
Tudo precisa conservar margem.
Tudo precisa evitar qualquer impressão de rigidez — palavra
que, em certos ambientes, passou a soar mais grave que erro doutrinário.
Curioso destino de uma civilização religiosa: condenava-se
outrora o dogma por considerá-lo severo demais; agora condena-se a clareza por
parecer pouco acolhedora.
A antiga tentação retorna com roupas novas.
São Pio X viu algo semelhante quando descreveu o modernismo
não como uma heresia entre outras, mas como uma tendência dissolvente — menos
interessada em negar frontalmente e mais inclinada a reinterpretar
silenciosamente.
O método permanece elegante.
Não se destrói uma muralha com explosivos.
Substituem-se lentamente as pedras.
No início todos continuam chamando aquilo de muralha.
Depois percebem que já não segura o vento.
Há algo particularmente revelador na crise litúrgica
contemporânea.
Não se trata apenas de rubricas.
A questão nunca foi apenas latim, orientação do altar ou
preferência estética.
O problema aparece quando o rito deixa de ensinar.
Durante séculos, o homem entrava numa igreja e compreendia
imediatamente — mesmo sem catecismo — que algo ali não pertencia ao mundo
comum.
Hoje, às vezes, entra e precisa verificar se haverá
adoração, assembleia comunitária, palestra motivacional ou uma celebração onde
o mistério aparece discretamente para não constranger ninguém.
É estranho.
O homem moderno atravessa oceanos para contemplar catedrais
antigas e retorna para assistir liturgias que parecem ter sido desenhadas por
departamentos de recursos humanos.
Talvez exista uma lição nisso.
A alma continua desejando transcendência.
Ninguém entrega a vida por um comunicado pastoral.
Ninguém enfrenta leões por um consenso provisório.
Os mártires não morreram por ambiguidades.
Morreram por uma frase objetiva:
Cristo é Senhor.
Também observo um fenômeno silencioso.
Quanto mais certas estruturas eclesiais tentam tornar o
catolicismo indistinguível do mundo contemporâneo, mais alguns jovens procuram
justamente aquilo que receberam o rótulo de ultrapassado.
Silêncio.
Confissão.
Adoração.
Doutrina.
Jejum.
Liturgia reverente.
Não porque desejem um museu.
Mas porque descobriram que eternidade não envelhece.
A ironia discreta da história talvez esteja aí.
Depois de décadas tentando convencer os homens de que a
Igreja precisava parecer menos Igreja para ser ouvida, descobre-se que muitos
ainda procuram exatamente aquilo que o mundo não consegue oferecer.
O sagrado.
Não o espetáculo.
Não o comentário sociológico.
Não a espiritualidade de frases macias.
O sagrado.
Ainda assim, seria injusto transformar toda crise em
catástrofe.
A Igreja já atravessou desertos maiores.
Os santos não foram produzidos em épocas confortáveis.
Talvez nossa geração tenha recebido uma vocação menos
triunfal e mais monástica: conservar o fogo.
Sem raiva.
Sem nostalgia doentia.
Sem rebeliões estéreis.
Sem transformar prudência em cinismo.
Resistir não é abandonar.
Resistir é permanecer.
Continuar rezando o Credo inteiro.
Continuar ensinando o catecismo inteiro.
Continuar celebrando com reverência.
Continuar amando a Igreja quando ela parece cansada de si
mesma.
Cristo não prometeu que a barca seria elegante.
Prometeu que não afundaria.
E isso basta.
Esta noite, antes de fechar estas notas, permaneço com uma
convicção simples:
a Tradição não é o culto das cinzas.
É a transmissão do fogo.
E fogo verdadeiro não precisa reinventar sua natureza para
iluminar.
Por um Vaticanista residente em Roma.