As pegadas ocultas de Deus: uma leitura espiritual do n.º 33 da Regra da Ordem Terceira do Carmo
A vocação do Carmelita Secular à santidade no meio das realidades ordinárias da vida
A vocação do Carmelita Secular
não pode ser compreendida simplesmente como a adesão a um conjunto de práticas
devocionais, nem como uma forma de espiritualidade acrescentada exteriormente à
vida cristã. Pertencer ao Carmo significa entrar numa escola espiritual cuja
finalidade é ensinar a alma a buscar a Deus, reconhecê-Lo, unir-se a Ele e
ordenar toda a existência segundo essa união.
É justamente nesse horizonte que
deve ser compreendido o n.º 33 da Regra da Ordem Terceira do Carmo. O texto
apresenta, em poucas linhas, uma verdadeira síntese da vocação secular: Deus
como prioridade absoluta, a descoberta de Sua presença nas realidades
ordinárias, o exercício perseverante das virtudes e a transformação da vida
cotidiana em lugar de santificação.
O texto afirma:
“No Carmelo se recorda aos homens, cheios de tantas preocupações, que a prioridade absoluta deve ser dada à procura ‘do Reino de Deus e da sua justiça’ (Mt 6,33). Por essa razão, na família, no ambiente de trabalho e na vida profissional, nas responsabilidades sociais e eclesiais, nas ações de cada dia, no relacionamento com o próximo, os leigos Carmelitas procuram as pegadas ocultas de Deus. Reconhecendo-as, fazem com que germine a semente da salvação segundo o espírito das bem-aventuranças, com humilde e constante exercício das virtudes da probidade, espírito de justiça, sinceridade, cortesia, fortaleza de ânimo, sem as quais não pode haver uma verdadeira vida humana e cristã.”¹
O texto é breve, mas seu conteúdo
é vastíssimo.
Ele começa com Deus, passa
pela vida cotidiana, alcança as virtudes, toca as relações
humanas e termina afirmando que tudo isso é necessário para uma “verdadeira
vida humana e cristã”.
Não é pouca coisa.
O n.º 33 está dizendo, em outras
palavras, que não existe uma vida cristã autêntica dividida em
compartimentos, na qual a oração pertence a Deus, o trabalho pertence ao
mundo, a família pertence à vida privada e as decisões pertencem exclusivamente
ao indivíduo. Para o Carmelita, tudo precisa ser reunido sob o olhar de Deus. A
vocação secular é precisamente esta: fazer com que a contemplação alcance a
totalidade da existência.
1. “A prioridade absoluta”: Deus não é uma parte da vida, mas o seu princípio
O primeiro movimento do n.º 33 é
radical: “a prioridade absoluta deve ser dada à procura do Reino de Deus e
da sua justiça.”
A expressão “prioridade absoluta”
merece ser levada a sério. Não significa simplesmente que Deus deve ser
“importante”. Para um cristão, Deus não pode ser apenas uma prioridade entre
várias prioridades. Ele é o fim último da existência.
Família é importante. Trabalho é
importante. Saúde é importante. Estudo é importante. Responsabilidade social é
importante. Serviço à Igreja é importante. Mas nenhuma dessas coisas é Deus.
E quando uma realidade criada
ocupa o lugar que pertence somente ao Criador, ela deixa de ser um bem ordenado
e passa a tornar-se um absoluto. A espiritualidade carmelitana começa
precisamente pela ordenação dos amores. Amar a família, mas em Deus. Trabalhar,
mas diante de Deus. Servir a Igreja, mas por Deus. Relacionar-se com o próximo,
mas reconhecendo nele alguém criado à imagem de Deus. Usar os bens temporais
sem transformar os bens temporais no sentido último da vida. É isso que
significa buscar primeiro o Reino. Não significa desprezar o mundo. Significa colocá-lo
no seu devido lugar.
O problema não está em possuir
coisas; está em permitir que as coisas nos possuam. O problema não está em
trabalhar; está em fazer do trabalho o nosso deus. O problema não está em
buscar reconhecimento; está em fazer do reconhecimento humano a medida do nosso
valor.
O problema não está em amar
pessoas; está em amá-las de maneira desordenada, como se fossem o nosso
absoluto. O Carmelo começa recolocando o coração em seu eixo. Deus primeiro.
E somente depois todas as demais coisas.
2. O Reino de Deus como critério de discernimento
Buscar o Reino de Deus não é
apenas uma afirmação espiritual abstrata. É também um critério de
discernimento. Diante de uma decisão, o Carmelita Secular deveria aprender
a perguntar: “Isto me aproxima ou me afasta daquilo que Deus quer de mim?”
Essa pergunta é mais profunda do que: “Eu quero isso?” ou: “Isso é conveniente
para mim?” ou ainda: “O que as outras pessoas vão pensar?”
A vida cristã não pode ser
governada exclusivamente pelo gosto pessoal, pela conveniência ou pela pressão
social. A pergunta carmelitana é outra: Qual é a vontade de Deus? É
justamente aqui que aparece a importância da oração mental, do silêncio, do
exame de consciência e do discernimento. Quem nunca silencia dificilmente
percebe. Quem nunca examina a própria vida dificilmente reconhece seus desvios.
Quem nunca procura a vontade de
Deus acaba, muitas vezes, chamando de “vontade de Deus” aquilo que simplesmente
corresponde aos próprios desejos.
Por isso, a busca do Reino exige interioridade.
O homem exterior corre. O homem interior discerne. E o Carmelo é uma escola de
interioridade.
3. “Cheios de tantas preocupações”: o diagnóstico espiritual do homem moderno
Existe ainda uma expressão no
início do n.º 33 que merece atenção: “homens, cheios de tantas preocupações”.
Isso poderia ter sido escrito ontem. A humanidade mudou tecnologicamente, mas
não mudou essencialmente em suas inquietações.
O homem continua preocupado com
dinheiro, reconhecimento, futuro, trabalho, saúde, relações, segurança, sucesso
e aceitação. A diferença é que hoje temos meios de multiplicar nossas
distrações numa escala gigantesca. O mundo contemporâneo oferece ao homem uma
sucessão quase ininterrupta de estímulos. O silêncio tornou-se raro. A
dispersão tornou-se normal. A atenção tornou-se objeto de disputa. E isso
possui consequências espirituais.
Uma alma permanentemente dispersa
encontra dificuldade para perceber as coisas de Deus. Por isso o Carmelo
insiste tanto no recolhimento interior. O silêncio carmelitano não é
simplesmente ausência de barulho.
É a capacidade de recolher o
coração para Deus. A pessoa pode estar numa sala silenciosa e permanecer
interiormente tumultuada. E pode estar no meio de uma grande atividade e
conservar uma alma recolhida em Deus. O verdadeiro silêncio é interior. É nele
que começamos a perceber as “pegadas ocultas”.
4. “As pegadas ocultas de Deus”: a grande chave do n.º 33
Talvez seja esta a expressão mais
propriamente contemplativa de todo o texto: “os leigos Carmelitas procuram
as pegadas ocultas de Deus.”
A imagem é extraordinariamente
rica. Uma pegada indica que alguém passou por determinado lugar. Mas uma pegada
não é a pessoa. Ela é um sinal da passagem de alguém.
Assim também acontece com Deus. Na
vida presente, muitas vezes não O contemplamos face a face. Caminhamos na fé.
Por isso, aprendemos a reconhecer os sinais de Sua presença e ação.
Deus passa silenciosamente pela
nossa história. Às vezes, deixa Sua
marca numa pessoa. Às vezes, numa circunstância. Às vezes, numa provação. Às
vezes, numa oportunidade. Às vezes, numa porta que se abre. Às vezes, numa
porta que se fecha. Às vezes, numa obrigação que gostaríamos de evitar. Às
vezes, num dever aparentemente insignificante. E aqui surge uma dimensão
essencial da espiritualidade carmelitana: é preciso aprender a ler
espiritualmente a própria existência.
O Carmelita não olha apenas para
os acontecimentos. Ele procura discernir o que Deus pode estar realizando por
meio deles. Isso não significa interpretar supersticiosamente cada
acontecimento como uma mensagem secreta. É preciso prudência.
Nem tudo que acontece é uma
“mensagem”. Nem toda coincidência é um sinal extraordinário. Nem todo
sentimento interior vem de Deus. É justamente por isso que precisamos de
discernimento. As “pegadas ocultas” não são fantasia espiritual. São percebidas
por uma alma que, pela oração, pela fé e pela vida sacramental, vai aprendendo
a reconhecer a ação de Deus.
5. A semente da salvação: a graça precisa tornar-se vida
Depois de falar das pegadas, o
texto diz: “Reconhecendo-as, fazem com que germine a semente da salvação.”
Há aqui uma sequência espiritual belíssima.
Primeiro: procurar. Depois:
reconhecer. Depois: corresponder.
A graça de Deus é dom gratuito,
mas o homem é chamado a cooperar com ela. A semente não pode permanecer
eternamente enterrada. Ela precisa germinar. E como saberemos que germinou? Pelos
frutos.
Uma espiritualidade que não
produz frutos concretos corre o risco de permanecer apenas no plano das ideias.
A pessoa pode conhecer os escritos de Santa Teresa, São João da Cruz, Santa
Teresinha e tantos outros santos e, ainda assim, não ter permitido que a graça
transforme profundamente sua vida.
Conhecimento espiritual não é
necessariamente santidade. Devoção não é automaticamente conversão. Emoção
religiosa não é necessariamente virtude. A semente precisa produzir frutos. E é
exatamente por isso que o texto passa imediatamente às virtudes.
6. A verdadeira contemplação conduz à virtude
O n.º 33 fala do: “humilde e
constante exercício das virtudes.”
Aqui encontramos uma chave
essencial para compreender a tradição carmelitana. A contemplação não é uma
fuga da realidade. É uma transformação do modo como nos relacionamos com a
realidade.
Quem contempla aprende a amar
melhor. Quem contempla aprende a dominar melhor suas paixões. Quem contempla
aprende a suportar melhor as contrariedades. Quem contempla aprende a
reconhecer a dignidade do próximo. Quem contempla aprende a silenciar o ego. Quem
contempla aprende a obedecer à verdade.
Por isso, existe uma ligação
profunda entre oração e ascese. A oração sem combate pode tornar-se
sentimentalismo. A ascese sem oração pode tornar-se voluntarismo. O Carmelo une
as duas coisas. Deus dá a graça; o homem coopera com ela. A vida
espiritual é graça, mas também é combate. É dom, mas também resposta. É
contemplação, mas também conversão.
7. “Humilde e constante”: duas palavras fundamentais
O texto não diz apenas “exercício
das virtudes”. Diz: “humilde e constante exercício”. Essas duas palavras
são fundamentais.
Humilde
Porque ninguém se santifica
confiando apenas em suas próprias forças. O Carmelita precisa conhecer sua
própria pobreza. Precisa reconhecer seus defeitos. Precisa aceitar correção. Precisa
admitir que ainda precisa crescer. A humildade impede que a espiritualidade se
transforme em vaidade religiosa. Existe, inclusive, um perigo muito sutil: orgulhar-se
da própria espiritualidade.
É possível tornar-se orgulhoso
por rezar mais. Orgulhoso por conhecer mais. Orgulhoso por pertencer a uma
Ordem. Orgulhoso por conhecer a tradição. Orgulhoso por defender a liturgia. Orgulhoso
por conhecer os santos. Isso seria uma contradição. A tradição espiritual
existe para nos tornar santos, não para nos tornar superiores aos outros.
Constante
Porque a santidade não é obra de
um entusiasmo momentâneo. É obra de perseverança. O Carmelo é escola de
perseverança. A alma precisa aprender a permanecer. Permanecer quando sente. Permanecer
quando não sente. Permanecer quando é compreendida. Permanecer quando é
incompreendida. Permanecer quando recebe consolação. Permanecer quando
atravessa aridez. A fidelidade é uma das grandes provas do amor.
8. A vida secular como lugar real da santificação
O n.º 33 é explícito ao colocar a
vocação no interior das circunstâncias concretas: “na família, no ambiente
de trabalho e na vida profissional, nas responsabilidades sociais e eclesiais,
nas ações de cada dia, no relacionamento com o próximo...”
Isso destrói qualquer compreensão
superficial de que o Carmelita Secular deveria viver uma espécie de “vida
religiosa incompleta”. Não. A vocação
secular possui sua própria dignidade.
O Carmelita Secular não é um
religioso frustrado. Ele possui uma vocação própria. Sua santificação acontece
justamente no interior das realidades temporais. A família é um lugar
teológico.
O trabalho é um lugar de
responsabilidade diante de Deus. A sociedade é um campo de testemunho. A Igreja
é um lugar de serviço. O cotidiano é o terreno onde a semente da salvação deve
germinar. Por isso, não devemos esperar circunstâncias extraordinárias para
viver a santidade. O extraordinário do Carmelo pode estar justamente na
fidelidade ao ordinário.
9. A família: primeiro campo da autenticidade espiritual
Existe uma espécie de teste
infalível para muitas espiritualidades: Como a pessoa se comporta dentro de
casa?
É relativamente fácil parecer
piedoso numa reunião. É relativamente fácil falar sobre Deus. É relativamente
fácil demonstrar devoção diante dos outros. Mas dentro de casa aparecem muitas
coisas que a aparência consegue esconder. A impaciência. A irritação. A
arrogância. A falta de perdão. A negligência. A dureza.
Por isso, o n.º 33 começa sua
aplicação prática justamente pelas realidades concretas.
O Carmelita deve perguntar: Minha
vida de oração está tornando-me uma presença mais pacífica dentro da minha
própria casa?
Se não, é preciso examinar a
própria vida espiritual. A família não é um obstáculo à santidade.
A família é uma das escolas da
santidade.
10. O trabalho e a vida profissional como campo de virtude
O texto também menciona o
ambiente profissional. Isso é importantíssimo. O cristão não deixa sua fé na
porta do trabalho.
A honestidade profissional é uma
questão espiritual. A responsabilidade é uma questão espiritual. O cumprimento
dos deveres é uma questão espiritual. A maneira como tratamos colegas e
subordinados é uma questão espiritual.
A maneira como lidamos com
dinheiro e bens é uma questão espiritual. A probidade mencionada no n.º 33
possui aqui enorme importância.
Probidade significa retidão,
honestidade, integridade moral.
Um Carmelita não deveria ser
conhecido apenas por rezar muito, mas também por ser alguém em quem se pode
confiar. Se a pessoa é devota, mas desonesta, há uma contradição séria. Se fala
de contemplação, mas não cumpre seus deveres, existe uma ruptura entre oração e
vida. O Carmelo exige unidade.
11. As virtudes apresentadas pela Regra
O texto menciona concretamente: “probidade,
espírito de justiça, sinceridade, cortesia, fortaleza de ânimo”.
Cada uma dessas virtudes possui
uma função na construção da personalidade cristã.
Probidade
É a integridade moral. É ser
correto quando ninguém está olhando. É fazer o que é certo não apenas por medo
da punição ou busca de reconhecimento, mas porque o bem deve ser amado por si
mesmo.
Espírito de justiça
É reconhecer os direitos de Deus
e do próximo. O justo não vive exclusivamente perguntando: “O que eu ganho?”
Ele também pergunta: “O que
devo?”
Devo respeito. Devo verdade. Devo
honestidade. Devo responsabilidade. Devo caridade.
Sinceridade
A sinceridade exige coerência
interior. O homem sincero não precisa construir permanentemente uma personagem.
Ele procura viver diante de Deus na verdade.
Cortesia
A cortesia é a caridade
manifestada nos modos. A pessoa pode ter razão e ainda assim pecar contra a
caridade pela maneira como fala. É possível corrigir alguém sem humilhá-lo. É
possível discordar sem desprezar. É possível defender a verdade sem transformar
o outro em inimigo.
Fortaleza de ânimo
É a capacidade de permanecer
firme diante das dificuldades. A fortaleza não significa ausência de
sofrimento. Significa não permitir que o sofrimento nos faça abandonar o bem.
12. São João da Cruz: Deus também está presente quando não O sentimos
Aqui podemos aprofundar a
expressão “pegadas ocultas” à luz de São João da Cruz. A tradição joanina
ensina que a alma não deve depender exclusivamente das consolações sensíveis. Deus
não deixa de estar presente porque não sentimos Sua presença. Essa é uma
distinção importantíssima.
Sentir Deus não é o mesmo que
estar com Deus.
Há dias em que a oração será
cheia de consolação. Há dias em que parecerá seca. Há dias em que a alma terá
facilidade. Há dias em que tudo parecerá difícil. A fidelidade verdadeira
começa justamente quando desaparece a recompensa emocional. A alma aprende
então a procurar Deus por fé.
E isso é profundamente
carmelitano. O Carmelita não deve tornar-se dependente de emoções religiosas. Deve
aprender a permanecer. A noite espiritual, entendida dentro da tradição de São
João da Cruz, ensina justamente a purificação dos apegos e a passagem de uma
relação baseada predominantemente no sensível para uma relação mais profunda,
fundada na fé, esperança e caridade.
Por isso, as “pegadas” podem ser
ocultas. Deus pode estar agindo quando a alma não percebe.
13. Santa Teresa de Jesus: oração como amizade que transforma
Santa Teresa fornece outra chave
indispensável. Para ela, a oração é relacionamento com Deus, amizade, encontro.
Mas uma amizade verdadeira transforma.
Se alguém afirma amar a Deus e
não permite que esse amor transforme sua maneira de viver, existe uma
contradição.
A oração deve levar à reforma da
vida. Por isso, a tradição teresiana insiste tanto no conhecimento de si. A
alma precisa conhecer sua própria pobreza para poder abandonar-se
verdadeiramente em Deus. Nesse sentido, o caminho pode ser compreendido assim:
Oração → Autoconhecimento → Humildade
→ Conversão → Virtude → Serviço → Perseverança.
É uma sequência muito diferente
da espiritualidade superficial que busca apenas “sentir-se bem”. O Carmelo não
promete uma vida espiritualmente confortável. Promete um caminho de
transformação. E transformação verdadeira custa.
14. A contemplação precisa desembocar na caridade
O n.º 33 termina falando de uma: “verdadeira
vida humana e cristã.”
Essa expressão merece enorme
atenção. O cristianismo não destrói a humanidade. Ele a aperfeiçoa. A graça não
nos torna menos humanos. Ela cura, eleva e ordena a natureza humana. Por isso,
o resultado da contemplação deve ser uma humanidade mais madura. Mais paciente.
Mais justa. Mais verdadeira. Mais equilibrada. Mais capaz de amar. Mais capaz
de sofrer sem desmoronar. Mais capaz de servir sem exigir aplauso. Mais capaz
de perdoar. Mais capaz de reconhecer seus próprios limites.
A santidade não nos transforma em
seres estranhos. Faz-nos aquilo que deveríamos ter sido desde o princípio.
15. O perigo de uma espiritualidade apenas exterior
Aqui está uma advertência que
considero especialmente importante para qualquer membro de uma Ordem Terceira. É
possível possuir uma identidade religiosa forte sem possuir uma vida interior
correspondente. É possível conhecer a tradição sem viver a tradição. É possível
falar dos santos sem imitá-los. É possível usar sinais externos da pertença
religiosa sem permitir que eles produzam conversão. O hábito, o escapulário, as
devoções, os livros, as reuniões e os conhecimentos são importantes. Mas todos
eles devem apontar para uma realidade maior: a união da alma com Deus.
A espiritualidade exterior sem
conversão interior corre o risco de tornar-se formalismo. E a espiritualidade
interior sem expressão concreta corre o risco de tornar-se subjetivismo.
O n.º 33 evita os dois extremos. Ele
une: Interioridade + Virtude + Vida cotidiana.
16. Um exame de consciência verdadeiramente carmelitano
O n.º 33 pode tornar-se um
excelente exame diário. Ao final do dia, o Carmelita poderia perguntar: Deus
ocupou hoje o primeiro lugar em minhas decisões? Onde reconheci hoje
alguma “pegada oculta” de Deus? Onde resisti à graça? Como tratei
minha família? Como cumpri meus deveres profissionais? Fui justo?
Fui sincero? Fui cortês? Tive fortaleza diante das
dificuldades? Minha oração produziu algum fruto concreto? Hoje
fui mais semelhante a Cristo do que ontem?
Esta última pergunta talvez seja
a mais importante. Porque a vida espiritual não deve ser medida somente pela
quantidade de práticas realizadas. Devemos perguntar: Estou me tornando uma
pessoa mais configurada a Cristo?
17. O Carmelo como escola de visão espiritual
No fundo, o n.º 33 é também uma
pedagogia do olhar. O problema muitas vezes não é a ausência de Deus. É nossa
incapacidade de percebê-Lo. As pegadas estão ali. Mas estamos distraídos. Estamos
preocupados. Estamos ocupados. Estamos presos aos nossos próprios projetos. Estamos
tão cheios de nós mesmos que não percebemos a passagem silenciosa de Deus.
O Carmelo ensina a olhar
novamente. Olhar a própria história. Olhar as circunstâncias. Olhar as pessoas.
Olhar as provações. Olhar os próprios pecados. Olhar a graça. E, sobretudo, olhar
para Deus. Essa é uma transformação profunda.
A pessoa deixa de perguntar
somente: “O que está acontecendo comigo?” e começa a perguntar: “Senhor, o
que queres realizar em mim por meio disso?”
Essa mudança de perspectiva é
profundamente espiritual.
18. A santidade escondida no ordinário
Talvez seja aqui que o n.º 33 se
torne especialmente belo para o Carmelita Secular. A santidade não precisa
aparecer como algo espetacular. Pode estar escondida. Como as pegadas. Como a
semente. Como o trabalho silencioso da graça. Um dever cumprido. Uma palavra
contida. Uma resposta paciente. Uma injustiça não retribuída. Uma obrigação
realizada sem reclamação. Uma oração perseverante. Uma correção aceita. Um
pedido de perdão. Um ato de serviço que ninguém viu.
Tudo isso pode ser terreno de
santificação. A lógica do Evangelho é frequentemente assim: pequeno aos
olhos dos homens, grande aos olhos de Deus. É por isso que a
espiritualidade carmelitana possui tanta afinidade com o silêncio e a vida
escondida. Nem tudo precisa aparecer. Nem tudo precisa ser publicado. Nem toda
boa obra precisa receber aplausos.
Existe uma santidade que somente
Deus conhece. E talvez essa seja uma das formas mais puras de santidade.
19. A vocação secular não é uma versão reduzida do Carmelo
É preciso insistir neste ponto. O
Carmelita Secular não é alguém que recebeu “menos Carmelo” porque não vive num
convento. Ele vive uma forma própria da vocação carmelitana. Sua cela
pode ser sua casa. Seu claustro pode ser, em certo sentido, o recolhimento
interior que conserva em meio às atividades. Seu apostolado pode estar na
família, no trabalho, na sociedade e na Igreja. Sua ascese acontece no interior
das responsabilidades próprias de seu estado. Sua contemplação precisa penetrar
sua vida.
Isso não significa transformar
toda atividade em oração no sentido estrito. Significa viver todas as coisas sob
o olhar de Deus. A secularidade não é um acidente da vocação. Ela faz parte
da própria maneira pela qual o Carmelita Secular é chamado a buscar a
santidade.
20. Uma síntese do itinerário apresentado pelo n.º 33
Podemos agora compreender o
movimento inteiro do texto:
DEUS COMO
PRIORIDADE ABSOLUTA
↓
BUSCA DO REINO DE DEUS
↓
RECOLHIMENTO E ATENÇÃO INTERIOR
↓
DISCERNIMENTO DAS PEGADAS DE DEUS
↓
CORRESPONDÊNCIA À GRAÇA
↓
GERMINAÇÃO DA SEMENTE DA SALVAÇÃO
↓
EXERCÍCIO HUMILDE E CONSTANTE DAS VIRTUDES
↓
TRANSFORMAÇÃO DAS RELAÇÕES E RESPONSABILIDADES
↓
VERDADEIRA VIDA HUMANA E CRISTÃ
↓
SANTIDADE NO ESTADO SECULAR
Essa sequência revela que o n.º
33 não é apenas um conselho moral. Ele apresenta uma verdadeira dinâmica de
santificação. Deus chama. A alma procura. A alma reconhece. A graça age. A
pessoa coopera. As virtudes crescem. A vida se transforma. E a santidade começa
a aparecer no cotidiano.
Conclusão — O Carmelita que aprende a enxergar
O n.º 33 da Regra da Ordem
Terceira do Carmo contém uma verdadeira síntese da vocação do Carmelita
Secular. Ele começa apontando para o alto: “a prioridade absoluta deve ser
dada à procura do Reino de Deus e da sua justiça.”
E imediatamente nos conduz para
baixo, para o terreno concreto da existência: “na família, no ambiente de
trabalho e na vida profissional, nas responsabilidades sociais e eclesiais, nas
ações de cada dia, no relacionamento com o próximo...”
Isso é profundamente
significativo. O Carmelo eleva a alma para Deus sem permitir que ela abandone
as responsabilidades da terra. Ensina o silêncio sem desprezar o serviço. Ensina
a contemplação sem abandonar a caridade. Ensina a interioridade sem fugir da
realidade. Ensina a buscar o invisível sem negligenciar os deveres visíveis.
E então aparece a expressão que
talvez melhor resuma toda essa vocação: “os leigos Carmelitas procuram as
pegadas ocultas de Deus.” Há uma grandeza escondida nessa frase. Deus
passa. Nem sempre percebemos. Deus age. Nem sempre compreendemos. Deus chama. Nem
sempre escutamos. Deus deixa suas marcas. Nem sempre sabemos reconhecê-las. Por
isso, o Carmelita precisa tornar-se um homem de interioridade. Precisa aprender
a silenciar. Precisa aprender a discernir. Precisa aprender a esperar. Precisa
aprender a contemplar. Precisa aprender a reconhecer Deus quando Ele não se
manifesta segundo nossas expectativas.
E, depois de reconhecer Suas
pegadas, precisa responder. Porque o texto não diz simplesmente que os
Carmelitas veem as pegadas. Diz que, “reconhecendo-as, fazem com que
germine a semente da salvação”. A contemplação verdadeira produz resposta. A
graça pede correspondência. A oração pede conversão. A contemplação pede
virtude. O encontro com Deus pede transformação.
Por isso, o n.º 33 termina de
maneira extremamente realista, falando da: “probidade, espírito de justiça,
sinceridade, cortesia, fortaleza de ânimo”, e conclui que sem essas
virtudes não pode existir: “uma verdadeira vida humana e cristã.” Aqui
está o coração do ensinamento. Não há verdadeira contemplação sem conversão.
Não há verdadeira oração sem luta contra o pecado. Não há verdadeira pertença
ao Carmelo sem busca de santidade. Não há verdadeira devoção sem crescimento
nas virtudes. Não há verdadeira vida cristã sem caridade.
O Carmelita Secular deve ser,
portanto, alguém cuja vida inteira começa progressivamente a adquirir uma nova
orientação. O trabalho continua sendo trabalho, mas passa a ser realizado
diante de Deus. A família continua sendo família, mas passa a ser vivida como
lugar de amor e santificação. As dificuldades continuam existindo, mas passam a
ser enfrentadas com maior confiança. As responsabilidades continuam pesadas,
mas deixam de ser vistas apenas como peso e passam a ser também ocasião de
fidelidade. As relações continuam imperfeitas, mas tornam-se campo de exercício
da caridade. E até aquilo que ninguém vê pode adquirir um valor eterno. Porque
Deus vê.
É aqui que o Carmelo nos conduz
àquela santidade silenciosa que não precisa de palco. A santidade de quem
cumpre o dever. A santidade de quem permanece fiel. A santidade de quem reza
quando ninguém sabe. A santidade de quem suporta sem fazer espetáculo. A
santidade de quem perdoa. A santidade de quem trabalha honestamente. A
santidade de quem combate seus próprios defeitos. A santidade de quem continua
caminhando mesmo quando não sente consolação. A santidade de quem procura Deus não
apenas nos momentos extraordinários, mas nas pequenas coisas. Esta é a
santidade das pegadas ocultas.
O mundo costuma valorizar aquilo
que aparece. O Carmelo ensina o valor daquilo que Deus vê. O mundo pede
velocidade. O Carmelo ensina recolhimento. O mundo pede reconhecimento. O
Carmelo ensina humildade. O mundo pede prazer imediato. O Carmelo ensina
ascese. O mundo diz: “mostre-se”.
O Carmelo pergunta: “Onde está
o teu coração diante de Deus?” E talvez seja justamente aí que esteja a
atualidade impressionante do n.º 33. Em uma época de dispersão, ele nos chama
ao recolhimento. Em uma época de superficialidade, chama-nos à interioridade. Em
uma época de aparência, chama-nos à sinceridade. Em uma época de
individualismo, chama-nos à caridade. Em uma época de fragilidade diante das
dificuldades, chama-nos à fortaleza. Em uma época em que tudo precisa ser
visto, curtido e reconhecido, recorda-nos que existe uma obra silenciosa que
acontece entre Deus e a alma.
As pegadas de Deus não fazem
barulho. É preciso silêncio para percebê-las. É preciso fé para
reconhecê-las. É preciso humildade para segui-las. E é preciso perseverança
para caminhar por elas.
Assim, o Carmelo não é
simplesmente uma devoção que carregamos. É uma escola de olhar. Aprendemos
a olhar para Deus. A olhar para nós mesmos. A olhar para o próximo. A olhar
para a realidade. A olhar para o sofrimento. A olhar para o cotidiano. E, pouco
a pouco, aprendemos a descobrir que o caminho que parecia comum estava cheio de
sinais da presença divina.
A segunda-feira pode tornar-se
lugar de santificação. O trabalho pode tornar-se serviço. A família pode
tornar-se escola de caridade. A dificuldade pode tornar-se ocasião de abandono.
O silêncio pode tornar-se oração.
A fidelidade escondida pode
tornar-se sacrifício agradável a Deus. E a vida inteira pode transformar-se em
uma peregrinação contemplativa. No fim, talvez possamos resumir o n.º 33 em uma
única frase: O Carmelita Secular procura a Deus no cotidiano e demonstra que
O encontrou pela maneira como vive.
Porque o verdadeiro fruto de uma
vida carmelitana não é apenas falar de Deus. É pertencer-Lhe cada vez mais
profundamente. E quando a alma realmente começa a pertencer a Deus, algo
muda. Muda a maneira de trabalhar. Muda a maneira de sofrer. Muda a maneira de
amar. Muda a maneira de perdoar. Muda a maneira de servir. Muda a maneira de
olhar. Então começamos, finalmente, a perceber as pegadas. E percebemos que Ele
já estava caminhando conosco. Sempre esteve.
Ir. Alan Lucas de
Lima, OTC
Carmelita Secular da Antiga Observância
Nota:
¹Regra da Ordem Terceira do Carmo, n.º 33, conforme o texto apresentado na edição consultada e fornecido na imagem que acompanha este estudo.