Não somos Anjos; portanto, não julguemos como Demônios
Há tempos estranhos na vida da Igreja. Tempos em que as palavras correm mais depressa que a oração, em que os juízos nascem antes dos fatos e em que muitos, armados de certezas instantâneas, distribuem sentenças como quem distribui boletins meteorológicos: sem responsabilidade pelo clima que ajudam a criar.
Basta uma frase mal colocada, uma decisão pastoral
controversa, uma posição diferente sobre os caminhos da crise — e logo aparecem
os que enxergam traição, malícia, covardia ou apostasia. Não se pergunta mais:
“O que esta pessoa viu que eu talvez não tenha visto?”. Pergunta-se: “Qual
defeito moral a levou a pensar diferente de mim?”.
Talvez aí esteja uma das tentações mais discretas do nosso
tempo.
Porque existe uma diferença enorme entre abandonar
princípios e divergir sobre como aplicá-los.
Dois homens podem ajoelhar diante do mesmo altar, professar
o mesmo Credo, amar a mesma tradição, desejar sinceramente a glória de Deus — e
ainda assim discordar sobre o que fazer numa circunstância concreta. Não porque
a verdade tenha se dividido. A verdade continua una. Mas porque os olhos
humanos não enxergam tudo ao mesmo tempo.
A vida concreta não é um tratado em latim com conclusões
geométricas.
O pai de família, o sacerdote, o leigo comprometido, o
religioso — todos caminham entre neblinas. Cada decisão traz consigo
circunstâncias que escapam ao controle: tempos, consequências, informações
incompletas, pesos invisíveis. É precisamente aí que nasce a prudência: não
como covardia nem cálculo frio, mas como a arte difícil de julgar retamente
quando nenhuma placa luminosa desce do céu dizendo “é por aqui”.
Talvez por isso os antigos tenham falado tanto dessa
virtude.
A prudência exige memória para lembrar o que já aconteceu;
docilidade para ouvir; circunspecção para considerar o entorno; previdência
para medir consequências. Não é virtude dos tímidos. É virtude dos humildes.
Os soberbos preferem outra coisa: dispensam prudência porque
já se consideram em posse da visão completa.
Agem como se fossem anjos.
Mas não somos.
O anjo, segundo os mestres antigos, não caminha como nós
entre sombras e fragmentos. O homem, ao contrário, aprende tropeçando,
corrige-se vivendo, enxerga por frestas. Nossa condição não é a do conhecimento
imediato — é a da peregrinação.
E talvez seja por isso que o julgamento precipitado tenha
algo de tão perigoso: ele tenta ocupar um lugar que não nos pertence.
Quando começamos a atribuir intenções ocultas aos irmãos,
quando decretamos a corrupção moral de quem apenas chegou a outra conclusão
prudencial, deixamos de corrigir atos e passamos a condenar consciências.
E consciência não se abre com chave humana.
Num tempo de crise — e ninguém nega que os ventos que
sopraram sobre a Igreja nas últimas décadas deixaram inquietações profundas —
talvez seja necessário recuperar uma antiga disciplina espiritual: falar menos
das intenções alheias e rezar mais pela própria fidelidade.
Porque, no fim das contas, nossa conta diante de Deus
continua sendo pessoal.
E haverá perguntas que não serão respondidas com: “mas todos
pensavam assim”.
Que Deus conceda luz às almas consagradas, prudência aos que
combatem, humildade aos que ensinam e misericórdia a todos nós que ainda
caminhamos sem asas.
Por seu Irmão Carmelita Secular da Antiga Observância, B.