Feridos, mas invencíveis: a esperança que sangra na Quaresma

Mosaico abside de Sant'Apollinare in Classe, Ravenna.

Um comentário

A Quaresma não nos poupa da verdade. Ao contrário, ela a desvela. Enquanto o mundo oscila entre euforias artificiais e desesperos silenciosos, a Igreja fixa o olhar num Corpo ferido — e ousa afirmar: aqui está a esperança.

Desde a abertura solene do Concílio Vaticano II pelo Papa São João XXIII, a Igreja assumiu, com renovado vigor, a missão de guardar e anunciar eficazmente o depósito sagrado da fé. Não para adaptá-lo às modas passageiras, mas para oferecê-lo como resposta às angústias reais do homem concreto — corpo e alma, história e eternidade. Poucos dias após aquele discurso inaugural, o mundo estremecia com a Crise dos Mísseis de Cuba. A humanidade parecia à beira da autodestruição. O progresso técnico revelava-se ambíguo: capaz de maravilhas e de horrores.

Hoje, a precariedade não é menor. Mudaram os cenários; permanece a inquietação. A juventude canta suas feridas em palcos iluminados. Em 2025, em Madri, Gracie Abrams entoava versos marcados por uma tristeza que roça o desespero. Milhares repetiam em coro a confissão de uma vida sentida como “ferida aberta”. Não se trata de teatralidade superficial; há ali uma experiência autêntica de fragilidade, de ameaça difusa, de futuro incerto.

A Quaresma, nesse contexto, é escandalosa. Ela nos manda contemplar outro Jovem — desfigurado, rejeitado, suspenso entre céu e terra. E nos diz: esta é a rocha. Este é o sentido.

Durante séculos, a Igreja foi prudente ao representar graficamente o Crucificado. Era preciso salvaguardar o mistério definido em Concílio de Calcedônia: verdadeiro Deus e verdadeiro homem, sem confusão nem separação. Só então o espírito cristão pôde ousar colocar no centro de seus templos a imagem de um Deus ferido. O crucifixo tornou-se o eixo da consciência cristã no Ocidente.

São Paulo o afirmara com desassombro: nada quis saber senão Cristo, e Cristo crucificado. Esse realismo sobrenatural permanece a pedra de toque de toda autêntica renovação. Não há esperança cristã sem a aceitação da Paixão.

Mas atenção: aceitar não é resignar-se. É transfigurar.

Nosso tempo oscila entre duas tentações. A primeira é absolutizar a ferida, transformando-a em identidade última. A segunda é negá-la, eliminando tudo o que lembra fragilidade: o nascente, o doente, o improdutivo. Entre a exibição rancorosa e a supressão eugênica, a Cruz ergue-se como juízo e salvação.

A Cruz nos ensina a lamentar sem ira. Ela nos impede tanto da ingenuidade política — que sonha com uma perfectibilidade imanente — quanto do fatalismo psicológico que sussurra: “Sempre será assim.” O Crucificado revela que o sofrimento, assumido em caridade obediente, pode tornar-se lugar de fecundidade. Não porque a dor seja boa em si, mas porque foi habitada por uma Presença.

Na ressurreição, as chagas não desaparecem; tornam-se gloriosas. Eis o paradoxo que a modernidade tem dificuldade em suportar: a esperança não nasce da negação da ferida, mas de sua passagem pela Páscoa.

A Constituição Gaudium et Spes recorda que nada do que é genuinamente humano é estranho ao coração do cristão. Por isso, a angústia contemporânea não nos é alheia. O pranto juvenil que ecoa em arenas e parques encontra eco no Coração trespassado. O que o mundo chama de “vulnerabilidade” a fé chama de possibilidade de comunhão.

O eclipse do Crucificado na consciência pública empobrece a cultura. Quando a sociedade deixa de contemplar um Deus paciente, perde a capacidade de empatia. Quando abandona o símbolo que a interpreta, passa a fabricar símbolos que manipula. A Cruz, porém, não é produção nossa; é dom. Ela nos interpreta. Ela revela quem somos: criaturas feitas para a glória, atravessando a tribulação.

São Bernardo de Claraval, na aurora pascal de 1139, falava da tribulação como semente da glória. A vida inteira — dizia ele — é uma espécie de Quaresma orientada para a vitória. O peso que hoje sentimos não é definitivo; definitivo é o “peso de glória” que nos atrai. A eternidade já pulsa no instante presente, escondida como fruto na semente.

A Quaresma, então, não é um exercício de melancolia religiosa. É escola de realismo sobrenatural. Ensina-nos que Deus está conosco na tribulação. Que a Benevolência divina saturou o sofrimento humano até suas profundezas extremas. Que nenhuma desolação é última palavra.

Diante de uma geração que canta: “Espero sobreviver”, a Igreja responde com autoridade mansa: “Fostes feitos para ressuscitar.”

Comunicar a esperança não é vender otimismo. É anunciar, sem concessões, que o Cordeiro imolado vive. Que a morte foi ferida de morte. Que o homem inteiro — corpo e alma — tem destino eterno. Que a história não é um círculo fechado, mas uma peregrinação.

Na noite ainda velamos. Trabalhamos. Servimos. Ensinamos. Lutamos quando necessário. Amamos como podemos. Mas nossos olhos permanecem fixos em Jesus, autor e consumador da fé. Sua luz, mesmo quando velada pela Sexta-feira, é já claridade pascal.

A esperança cristã sangra — mas não sucumbe.

Ela traz nas chagas a promessa da glória.

Texto traduzido na íntegra em PTBR

Comunicar a Esperança

Esta é a décima primeira e última conferência do retiro quaresmal desta semana.

Em 11 de outubro de 1962, o Papa São João XXIII abriu solenemente o Concílio Vaticano II. A “maior preocupação” do Concílio, disse ele, seria que “o sagrado depósito da doutrina cristã fosse guardado e ensinado de modo mais eficaz”. Essa doutrina abrange o homem inteiro, composto de corpo e alma. Ela nos ordena, peregrinos nesta terra, a tender para a nossa pátria celeste.

Menos de uma semana após o discurso do Papa, eclodiu a Crise dos Mísseis de Cuba. A humanidade parecia prestes a destruir a si mesma nas águas de sua peregrinação terrena, sem qualquer pensamento em um fim escatológico. Com as feridas da Segunda Guerra Mundial ainda abertas, nossa raça engendrava novas e terríveis perspectivas de autodestruição.

Um clima de precariedade cercava o Concílio; ao mesmo tempo, esse período estava carregado de fervorosas esperanças por uma nova sociedade fundada nos direitos humanos, no comércio justo e nos avanços técnicos. O Concílio desejava falar às “questões angustiantes sobre a tendência atual do mundo, o lugar e o papel do homem no universo, o significado de seus esforços, o destino último da realidade e da humanidade”. Não apenas abordou essas questões. Apontou para sua resolução, anunciando que Cristo, crucificado e ressuscitado, encarna o futuro da humanidade. O Concílio confiou à Igreja a tarefa de anunciar Cristo de tal modo que Ele apareça clara e convincentemente como resposta às questões mais urgentes do tempo presente, sem jamais comprometer o sagrado depósito da doutrina.

Podemos perguntar-nos se, nos sessenta anos que se passaram desde o encerramento do Concílio, sempre e em toda parte se manteve confiança no poder e na eficácia desse depósito. Cada geração cristã deve considerar-se à luz do contraste traçado por Paulo aos Efésios entre a medida da estatura da plenitude de Cristo — manifestada na unidade da fé e do conhecimento, na maturidade — e um estado infantil, agitado de um lado para outro, levado por todo vento de doutrina, ora pela astúcia, ora por artimanhas, ora por um otimismo fácil.

Cristo nos chama a comunicar esperança ao mundo. Ter esperança cristã não é necessariamente ser otimista. O cristão renuncia ao pensamento ilusório, optando decididamente pelo real. Demagogos prometem que tudo vai melhorar. Alegam possuir poder quase demiúrgico para transformar comunidades em um mandato eleitoral, distraindo as massas das decepções sentidas com pão, ingressos para espetáculos e difamações dos adversários. Quão diferentes são as palavras de Cristo! Ele nos diz: “Os pobres sempre os tereis convosco”. Afirma que nação se levantará contra nação. Virão perseguições. Os inimigos de um homem poderão ser os membros de sua própria casa. Não há resignação frouxa nessas afirmações. O Senhor nos obriga, seus discípulos, a trabalhar sem descanso por uma humanidade nova e sadia, formada pela caridade na justiça. Ele nos manda “curar os enfermos, ressuscitar os mortos, purificar os leprosos, expulsar os demônios”. Devemos viver as bem-aventuranças, fazendo brilhar a glória nelas escondida. Mas, ao fazê-lo, somos lembrados: “Sem mim nada podeis fazer”.

Cristo é a luz das nações, Lumen Gentium. Só Ele, fazendo a vontade do Pai e agindo no Espírito, pode renovar a face da terra. Nele colocamos nossa confiança, não em estratégias passageiras.

Ele pode agir por meio de nós se consentirmos em ser pacientes. A Quaresma nos mostra que Deus, sofrendo a ferida de sua filantropia, está no auge de sua ação em sua Paixão. A esperança que Ele nos confia não é esperança em um Vale de Lágrimas finalmente modernizado, digitalizado e higienizado. Nossa esperança está em um novo céu e uma nova terra, na ressurreição dos mortos.

O tempo em que vivemos tem fome de ouvir essa esperança proclamada. Consideramos alguns sinais ao nosso redor: nova consciência religiosa entre os jovens; o retorno da categoria da verdade ao discurso público; uma busca por raízes. Instituições e alianças globais estão se desfazendo. Estamos expostos a perigos estratégicos, ecológicos e ideológicos. É natural que pessoas sensatas e de boa vontade perguntem o que, em meio a tanta incerteza, pode realmente durar. Cansadas de construir suas vidas sobre a areia, procuram a rocha firme. Enquanto isso, seus corações estão inquietos. Os Padres do Concílio Vaticano II afirmaram, na Gaudium et Spes, que as melhores aspirações e os temores mais sombrios do tempo presente devem encontrar eco no coração dos cristãos. Pois o cristão não é estranho a nada do que é “genuinamente humano”.

Permitam-me compartilhar um desses ecos que ressoa em mim.

Há um ano, em 8 de fevereiro de 2025, a cantora americana Gracie Abrams deu um concerto em Madri. É uma jovem com tudo a seu favor: bela, próspera, bem-sucedida. Em Madri, usava um vestido branco de seda. Poderia ter sido um vestido de noiva, uma veste de alegria, não fossem as longas fitas pretas nos ombros, presságios de uma tristeza que, quando começou a cantar, constituía o núcleo de sua mensagem.

Há em seus textos uma tristeza pungente que beira — talvez toque — o desespero. Abrams nasceu em 1999. Sua canção Camden começa com a frase: “Eu nunca disse isso, mas sei que não consigo imaginar nada depois dos 25”. A música evoca a necessidade de esconder a dor, de “enterrar a bagagem até que fique fora de vista”, enquanto externamente se mantém a aparência, dizendo que está tudo bem, esperando que alguém “perceba o quanto estou tentando”. Um refrão quase mantral repete: “Eu inteira, uma ferida a fechar, mas deixo tudo aberto”.

A apresentação de Camden em Madri foi filmada e publicada no YouTube por um fã que escreveu: “Insano. Sem palavras. Chorei. Morri. Morta.” Milhares compareceram ao concerto. Cantaram junto, todos, conhecendo o texto sinuoso de cor, apropriando-se dele. A Weltschmerz adolescente não é novidade. Cada geração encontra sua maneira de expressá-la. Há, contudo, algo singular no lamento de nosso tempo. Não podemos descartá-lo como mera fetichização da desolação. Ao ouvir e ver Gracie Abrams cantar, não se duvida da profundidade da experiência de onde brota seu clamor. É inquietante ouvi-lo ecoado, cadência após cadência melancólica, por uma multidão jovem: “Eu só queria que você soubesse, eu nunca fui boa em lidar com isso. [...] Eu realmente espero sobreviver a isso.” “Esperança” é um termo apropriado aqui? Na verdade, duvido. O que se destaca nas letras é a falta de esperança diante de uma ameaça constante.

Os fãs de Abrams são majoritariamente meninas. Um estereótipo sugere que os rapazes são diferentes, atraídos antes por um reconhecimento austero das dificuldades da vida, dispostos a suportá-las com virilidade resoluta. Quem conversa com jovens ou passa tempo no confessionário sabe que as fronteiras não são tão nítidas. A consciência de estar ferido permeia nosso tempo como uma névoa esfumaçada.

Como é marcante viver a Quaresma nesse contexto, fixar o olhar em um corpo ferido e afirmar que aqui se encontra a esperança. Durante séculos, a Igreja foi cautelosa ao exibir as feridas da Paixão de Cristo. Estava ocupada em formular em palavras o paradoxo que constitui o coração da proposta cristã: que em Cristo divindade e humanidade estão integralmente presentes, que este homem “nascido da Virgem Maria” é também “Deus de Deus, Luz da Luz”. Somente depois que o Concílio de Calcedônia refinou o arcabouço conceitual necessário para salvaguardar esse equilíbrio é que o espírito cristão pôde representar, não apenas em palavras, mas também na arte, graficamente, a humilhação livremente assumida por Deus feito homem. O crucifixo emergiu como o emblema cristão supremo. Passou a ocupar o centro da prática cultual, ao menos no Ocidente, onde representações de um Deus ferido tornaram-se foco de igrejas e outros edifícios, moldando gradualmente a consciência pública.

Recordando aos coríntios sua vinda a eles, Paulo escreveu: “Eu não vim anunciar-vos o mistério de Deus com sublimidade de palavras ou de sabedoria. Pois decidi nada saber entre vós senão Jesus Cristo, e este crucificado.” A centralidade categórica da Paixão salvadora de Jesus permeou a doutrina desse incomparável pregador de reconciliação, misericórdia, transformação pela graça, alegria e vida eterna. É preciso coragem para seguir seu exemplo numa cultura que nos tenta a comercializar um Evangelho mais feliz, previsível em termos de processos fixos e resultados garantidos. Ao nosso redor, as naves sombreadas pela cruz das antigas catedrais são entregues ao minigolfe. Santuários são usados para espetáculos seculares, numa tentativa desesperada de parecer “relevantes”. Enquanto isso, a poucos passos dali, na arena secular, jovens balançam desolados, cantando suavemente que a vida é uma ferida aberta e que não há bálsamo em Gileade.

Duas tendências contraditórias marcam os esforços contemporâneos para lidar com as feridas. Por um lado, muitos exibem feridas — adquiridas, herdadas ou imaginadas — como marcadores de identidade. Podem ter razões legítimas, causas fundamentadas na busca por justiça. Mas, como ouvimos explicar, se enraizamos nossa identidade no apego à ferida, perdemos a perspectiva motivadora. Corremos o risco de ficar presos à ira, paixão que substitui o desejo de cura por afirmações de autossuficiência moral. Ira e amargura podem nos aprisionar num desespero perversamente satisfeito consigo mesmo.

Por outro lado, há tentativas de apagar as feridas. Insinua-se que elas não deveriam existir e que, se existem, membros doentes devem ser removidos. Em sociedades tornadas transacionais, elementos improdutivos ou considerados “indesejáveis” não têm lugar. São vistos como ocorrências anômalas, tratadas com dureza. Isso se manifesta em controvérsias sobre aborto e eutanásia, bem como em discursos recorrentes sobre eugenia. Vê-se também em sonhos distópicos de livrar a sociedade dos indesejáveis.

É difícil negar que o eclipse, na consciência pública, da figura do Crucificado — o Ferido que não foi vencido — tenha algo a ver com isso. Uma civilização que, em algum nível, busca sua medida numa imagem que afirma a estatura da paciência e do sofrimento redentor é transformada. Pode aprender a empatia, que não é espontânea ao homem decaído.

A reverência às feridas de Cristo definiu por séculos a sensibilidade cristã. Expressou-se na devoção às relíquias da Paixão; na Via-Sacra; em poemas e pinturas; em obras musicais das Lamentações renascentistas às Paixões de Bach e à hinódia do século XIX. Manifestou-se também na devoção ao Sagrado Coração difundida pelo mundo após as fúrias revolucionárias. No centro estava o respeito pelo tremendo mistério do sofrimento, constitutivo da condição humana como a conhecemos. A Cruz nos permite assumir a realidade, ao mesmo tempo que afirma a não definitividade das feridas, que podem ser curadas e tornar-se fontes de cura.

Enraizar-nos nesse mistério da fé é realizar uma revolta construtiva contra várias falácias: contra a falácia política de que a sociedade e o Estado devem ser conduzidos segundo um modelo evolutivo rumo à perfectibilidade humana; contra a falácia antropológica de um padrão normativo de “saúde” usado para dividir vidas “dignas de ser vividas” e “indignas de ser vividas”; contra a falácia cultural que atribui às feridas um poder fatal e determinista; e contra a falácia psicológica que se rende ao desespero, hipnotizada pela voz que sussurra na noite: “Sempre será assim”.

A Paixão de Cristo nos permite lamentar sem ira. Abre-nos à compaixão, categoria capaz de preparar uma compreensão graciosa como a de Jó: “Eu te conhecia só de ouvir falar, mas agora meus olhos te veem.” Podemos clamar ao Crucificado e Ressuscitado: “Meu Senhor e meu Deus!” O Evangelho afirma que as feridas de Cristo, após sua ressurreição, não foram eliminadas, mas tornadas gloriosas. Assim também podem ser as feridas do mundo, quando o óleo e o vinho de Cristo são derramados sobre elas.

A Cruz é, para os crentes, símbolo e memorial de um acontecimento. O símbolo da Paixão não foi por nós criado; foi-nos dado. Ele nos interpreta, não o interpretamos. Isso é importante quando nadamos contra a maré de um capitalismo simbólico empenhado em “produzir conhecimento”. Nesse mundo virtual, “fatos” tornam-se artefatos. Narrativas, imagens e dados são manipulados para perpetuar mudanças e fomentar consumo. Torna-se difícil compreender algo e transformá-lo ao mesmo tempo. A clareza passa a desempenhar papel secundário num discurso público retórico e errático, muitas vezes feito para confundir.

O ser humano, porém, anseia por compreensão. É definido por sua necessidade de perguntar: “Por quê?” Precisa do pensamento claro da Igreja e da esperança centrada em Cristo. Precisa de sua direção confiante. Precisa de seus símbolos realistas, distintos dos do mundo, centrados num corpo historicamente ferido, na morte da morte, no destino eterno do homem inteiro, corpo e alma. A perspectiva sublime da fé funda-se em realidades que aconteceram e que, na comunhão do corpo místico de Cristo, continuam a acontecer. Professamos que uma Benevolência transformadora saturou o sofrimento humano até em suas manifestações extremas, alcançando as profundezas do inferno, e que nenhuma desolação é definitiva.

Este é o nosso Evangelho. Nosso tempo clama por ele. Os jovens que lamentam nos parques, de coração pesado, têm fome dele. Eles escutam quando é apresentado com autoridade por cristãos capazes de expor e manifestar sua verdade sem compromisso, mostrando o poder gracioso de Cristo para renovar e transformar vidas.

Em Claraval, em 1139, Bernardo pregou seu último sermão sobre o Salmo 90 na véspera da Páscoa. Ele respira a alegria de um atleta que terminou a corrida. A vida monástica, diz São Bento, deve ser uma Quaresma contínua, sempre focada na vitória de Cristo sobre a morte. O tempo litúrgico revela o impulso de nossa própria existência. Bernardo o torna explícito: as provações da vida são dores de parto. Elas nos fazem descobrir o que significa estar vivo: “Vivemos plenamente quando a vida é vital e vivificante.” Nascemos para dar fruto. Há uma “esperança de glória” na tribulação — corrige-se ele — não, a glória está na tribulação, como o fruto está na semente. Ele exclama: “Meus irmãos, a glória agora se esconde na tribulação; a eternidade se esconde no momento presente, um peso sublime e imensurável nesta leveza.”

A inversão é completa. O que agora nos pesa não tem substância duradoura. O peso da glória nos atrai para o alto, para uma glória magnífica e múltipla. Configurados à plena participação na vida de Cristo, conheceremos a alegria paciente de Deus, que proclama no Salmo 90: “Estou com ele na tribulação.” Ele também diz: “Minhas delícias são estar com os filhos dos homens.” “Ó Emanuel”, responde Bernardo: “Deus conosco!” E acrescenta: “Ave, cheia de graça, o Senhor é convosco”, delineando delicadamente o caráter mariano do crescimento na maturidade cristã. Deus sabe o que desejamos e pelo que temos sede. Não devemos nos contentar com pouco. Devemos saber e proclamar à imagem de Quem fomos feitos e de que grandeza somos, pela graça, capazes.

Na manhã seguinte a esse último sermão, Bernardo teria aberto seu Gradual para cantar o intróito da Páscoa, o belo Resurrexi no sexto modo, grave — expressão musical de uma gravidade que se eleva. Essa composição litúrgica proclama a ressurreição com maravilhamento sereno. Eleva o louvor da Igreja diante do túmulo vazio ao abraço eterno da Trindade. Finalmente atraídos para esse abraço pela vitória pascal de Cristo, veremos como somos vistos, conheceremos como somos conhecidos. Por fim, amaremos perfeitamente.

Por agora, ainda vemos e conhecemos em parte, enquanto velamos na noite. Trabalhamos. Servimos. Ensinamos. Lutamos quando necessário. Procuramos amar e honrar uns aos outros, com os olhos fixos em Jesus, o autor e consumador de nossa fé. Ele, o Cordeiro de Deus, é nossa lâmpada. Sua luz benigna, mesmo quando oculta, é cheia de alegria. 

Texto traduzido na íntegra do sítio: Coram Fratribus.

Ir. Alan Lucas de Lima, OTC
Carmelita Secular da Antiga Observância