Quando a Missa Vira Crime: Notas de um Católico em Tempos de Cerco
Diário de um Católico na Contrarrevolução – Parte 50
Há dias em que a notícia não
chega como informação — chega como punhal.
Li a nota da Arquidiocese de Maceió, datada de 11 de fevereiro de 2026, e
confesso: não senti surpresa. Senti aquele cansaço antigo de quem já viu esse
filme antes. Mas, junto com o cansaço, veio também a convicção: estamos vivendo
dias decisivos.
A ameaça é clara. Participar da
Missa segundo o Missal de São Pio V fora do único local autorizado poderá ser
considerado “ato de cisma público”, com excomunhão automática. O argumento
invoca os cânones 751 e 1364 §1 do Código de Direito Canônico.
Respiremos fundo.
Desde quando a Tradição bimilenar
da Igreja se tornou matéria de polícia eclesiástica?
O que está realmente em jogo?
O texto não fala de um grupo que
negue o Papa.
Não fala de fiéis que rejeitem dogmas.
Não fala de quem rompa com Roma.
Fala de católicos que desejam
assistir à Missa celebrada segundo o Rito Romano Tradicional — o mesmo rito
codificado por São Pio V em 1570, santificado por séculos de santos, mártires,
missionários e doutores.
Esse rito não nasceu ontem. Ele
atravessou pestes, guerras, revoluções e perseguições. Foi a Missa de São João
Maria Vianney, de São Pio de Pietrelcina, de Santa Teresinha do Menino Jesus.
E agora, em 2026, ela é tratada
como potencial foco de “cisma” se celebrada fora de um perímetro autorizado.
Não deixa de ser curioso: durante
décadas nos disseram que a Igreja precisava “abrir-se ao mundo”. Mas quando
alguns fiéis querem simplesmente abrir um missal antigo, a resposta é fechar
portas.
Cisma… ou fidelidade?
O cânon 751 define cisma como
recusa de submissão ao Sumo Pontífice ou ruptura de comunhão com aqueles que
lhe estão sujeitos.
Pergunta honesta: Onde está a recusa ao Papa quando um fiel participa da Missa tradicional em
comunhão com a Igreja?
A nota afirma que celebrar a
Missa no antigo rito fora do local autorizado será considerado “ato de cisma
público”. Mas cisma não é categoria administrativa. Não é infração territorial.
É ruptura de comunhão.
Se um padre celebra validamente a
Missa tradicional, menciona o Papa no Cânon, mantém a doutrina católica íntegra
— onde está o cisma?
Transformar uma questão
disciplinar em matéria de excomunhão automática é algo gravíssimo. Excomunhão
não é advertência pedagógica. É a pena mais severa da Igreja. Aplicá-la por
apego ao rito tradicional parece, no mínimo, uma desproporção histórica.
A memória que incomoda
O texto recorda que, em 2010,
apesar do Motu Proprio Summorum Pontificum de Bento XVI, o antigo rito
foi proibido na diocese.
Vale lembrar: Summorum
Pontificum reconhecia que o rito tradicional jamais havia sido
juridicamente abolido.
Jamais abolido.
Isso não é frase de blogueiro
tradicionalista. É afirmação magisterial.
Então o que mudou? Mudou o clima.
Mudou a tolerância. Mudou a paciência com aqueles que não embarcam no
entusiasmo permanente da adaptação ao espírito do tempo.
O modernismo não precisa mais
negar dogmas explicitamente. Ele prefere algo mais sutil: esvaziar o sentido de
continuidade, tratar a Tradição como concessão temporária e fazer da exceção um
favor revogável.
O paradoxo do nosso tempo
Vivemos o paradoxo de uma Igreja
que dialoga com tudo — menos com a própria memória.
Pode-se acolher experimentações
litúrgicas criativas.
Pode-se flexibilizar normas quando convém.
Pode-se reinterpretar quase tudo sob a lente pastoral.
Mas a Missa que formou a
Cristandade? Essa precisa de licença restrita.
É como se o problema não fosse a
desobediência, mas a reverência.
Há algo profundamente simbólico
nisso: o altar voltado para Deus incomoda um mundo — e talvez parte do clero —
acostumado a olhar para si mesmo.
O que fazer, então?
Primeiro: não ceder à histeria.
Segundo: não ceder ao ressentimento.
Terceiro: não ceder ao silêncio covarde.
A resposta católica não é
rebelião. É firmeza serena. É conhecer o Direito Canônico melhor do que quem o
usa como ameaça. É estudar os documentos. É viver a comunhão real, não teatral.
Ser contrarrevolucionário hoje
não é gritar slogans. É permanecer de joelhos.
Se a Missa tradicional é
confinada a uma capela, então que essa capela se torne fortaleza espiritual. Se
é marginalizada, que floresça nas consciências. A história da Igreja mostra que
aquilo que nasce da Tradição não morre por decreto.
O que é orgânico sobrevive.
Esperança, apesar de tudo
A Tradição não é museu. É raiz
viva.
E raiz não faz barulho — sustenta.
Talvez estejamos vivendo um tempo
de poda. E poda dói. Mas só se poda o que está vivo.
Se a Missa tradicional incomoda
tanto, é porque ainda fala. Ainda forma. Ainda converte. Ainda lembra que Deus
é Deus — e nós não somos.
E isso, convenhamos, é
revolucionário demais para um mundo que perdeu o senso do sagrado.
Seguimos. Com lucidez. Com
caridade. Com firmeza.
Porque a verdadeira comunhão não
se constrói diluindo a fé, mas guardando-a.
E, no fim das contas, a Igreja
não pertence às estratégias administrativas de uma geração. Pertence a Cristo.
E Cristo não abandona a Sua
Igreja.
Por um Católico consciente e atento ao cenário eclesial do Brasil e do Mundo.
Nota aos comentadores de plantão
Caríssimos,
Antes que os teclados esquentem mais do que turíbulo em Missa solene, vale um esclarecimento simples e direto.
Este espaço não é trincheira de guerra civil católica. Também não é palanque para ataques pessoais a bispos, padres ou fiéis. A crítica aqui feita é doutrinária, canônica e histórica — nunca passional ou facciosa.
Se alguém discorda, ótimo. Argumente com documentos, com Magistério, com fatos. Não com rótulos.
Não reduzamos tudo a slogans fáceis como “rad-trad”, “cismático”, “progressista”, “modernista”. A Igreja é mais séria do que nossas bolhas virtuais.
Outra coisa importante: ninguém aqui está incentivando desobediência imprudente ou ruptura de comunhão. Pelo contrário — o que se pede é clareza jurídica, proporcionalidade pastoral e fidelidade àquilo que sempre foi considerado tesouro da Igreja.
Portanto:
Estamos tratando de algo sagrado. E o sagrado exige elevação — inclusive nos comentários.
Sigamos firmes, mas lúcidos. Críticos, mas católicos. Combativos, mas caridosos.
Porque no fim das contas, o que está em jogo não é vencer debate — é permanecer na Verdade.