Tornar-se Livre: o escândalo da cruz e a verdade da liberdade

Ah, como seria bom ter novamente essa liberdade de movimento espontânea, despreocupada e prazerosa! Foto: CS-BB.

Um comentário

Na quarta conferência do retiro quaresmal desta semana, pregada pelo Monge e Arcebispo Erik Varden ao Papa Leão XIV aos membros da Cúria Romana.

Fala-se demais em liberdade. Todo mundo reivindica. Todo mundo levanta bandeira. Mas, no fim das contas, que liberdade é essa? A de fazer o que dá na telha? A de satisfazer desejos, impor vontades, vencer debates e sair aplaudido? Se for isso, sejamos honestos: isso não é liberdade. É impulso com maquiagem de nobreza.

São Bernardo mete o dedo na ferida. Ele olha para o homem que se acha autônomo, dono de si, iluminado — e solta: você virou presa fácil. Forte? Nada. Livre? Muito menos. Basta observar: caímos sempre nas mesmas armadilhas. Orgulho, vaidade, ressentimento, prazer desordenado, sede de reconhecimento. Sabemos onde estão os laços, mas tropeçamos neles de novo. Isso é liberdade? Ou é cativeiro com Wi-Fi?

A tradição cristã não romantiza a condição humana. Ela encara o drama de frente: o homem decaído não é naturalmente livre. Ele é inclinado a si mesmo. Quer o mundo dobrado à sua vontade. Só que a vontade ferida não produz liberdade — produz conflito. E aí surgem as guerras ideológicas, cada grupo empunhando a palavra “liberdade” como se fosse espada. O curioso é que, no meio desse barulho todo, quase ninguém fala de conversão.

Bernardo faz a virada radical: liberdade não é dizer “eu quero”, é aprender a dizer “sim” como o Filho diz ao Pai. A raiz da liberdade cristã está naquele “Sim” silencioso e absoluto de Cristo. Não é a força que salva. Não é a imposição que redime. É o amor crucificado.

Aqui está o ponto que desmonta qualquer discurso raso: a liberdade cristã passa pela cruz. E cruz não é performance; é entrega. Não é dominar; é doar-se. Não é esmagar o outro em nome de uma causa; é oferecer a própria vida para que o outro viva. Isso é magnanimidade de verdade. Isso é revolução — mas daquelas que começam dentro.

E vamos falar claro: quando “o Partido”, “a Economia” ou “a História” são usados como justificativa para esmagar pessoas concretas, algo está profundamente errado. A liberdade, para ser cristã, é sempre pessoal. Nunca abstrata. Nunca ideológica. A liberdade de um não pode anular a do outro. Se anula, já não é liberdade — é poder.

Cristo diz: “Não resistais ao mal.” Isso não é covardia. É força elevada ao máximo. É a coragem de não se deixar moldar pelo ódio. Às vezes, a justiça é mais servida pelo sofrimento assumido do que pela violência retribuída. Isso dói? Dói. Mas liberdade sem dor é fantasia. Consentir ao amor verdadeiro sempre custa alguma coisa. E geralmente custa o nosso ego.

Nosso emblema continua sendo o Filho que se esvaziou. O mundo chama isso de fracasso. A fé chama isso de liberdade plena. Porque quem já não precisa afirmar-se a qualquer preço, quem já não vive escravo da própria vontade, esse é realmente livre.

A pergunta final é simples e direta: eu quero mesmo ser livre? Ou só quero vencer?

A liberdade cristã não é barulhenta. É firme. Não é arrogante. É obediente. Não é frágil. É crucificada — e por isso mesmo, invencível.

Tradução na íntegra do texto PTBR

Tornando-se Livre

Da quarta conferência do Retiro Quaresmal desta semana. Texto traduzido do italiano abaixo.

A noção de “liberdade” tornou-se controversa no debate público. Liberdade é um bem ao qual todos aspiramos; levantamo-nos contra qualquer coisa que ameace restringi-la ou confiná-la. Por isso, o vocabulário da liberdade tornou-se uma ferramenta retórica eficaz.

Sugestões de que a liberdade de um determinado grupo está em risco provocam reações imediatas de indignação na internet. Podem até levar pessoas às praças.

Diversas causas políticas na Europa hoje recorrem ao jargão da liberdade. Surgem tensões. Aquilo que um segmento da sociedade considera “libertador” é visto como opressivo por outros. Formam-se frentes opostas, cada qual erguendo bem alto o estandarte da “liberdade”. Conflitos amargos nascem de agendas incompatíveis de suposta libertação.

Esse estado de coisas representa um desafio para os cristãos. É essencial qualificar o que queremos dizer quando, no contexto da fé, falamos de tornar-se livre. É isso que Bernardo faz ao comentar o versículo: “Pois ele me libertou do laço dos caçadores e da palavra amarga.”

Para Bernardo, é evidente que a verdadeira liberdade não é “natural” ao homem decaído. O que nos parece natural é fazer as coisas do nosso jeito, satisfazer nossos desejos e realizar nossos planos sem interferência, ostentar e ser exaltados por nossos próprios brilhos. Bernardo, dirigindo-se ao homem nesse estado de ilusão, é deliciosamente sarcástico: “O que você pensa que é, ó sabichão? Tornou-se uma besta para a qual se armam as armadilhas dos caçadores.”

O fato de sermos tão facilmente derrubados, de continuarmos caindo nas mesmas velhas armadilhas, mesmo sabendo muito bem onde elas estão, é para ele prova suficiente de que somos não livres, incapazes por nós mesmos de avançar com firmeza rumo ao verdadeiro fim da nossa vida, entregues antes a todo tipo de obstáculos e distrações.

Enraizando sua compreensão da liberdade no “Sim” do Filho à vontade do Pai, Bernardo opera uma revolução no nosso entendimento do que significa ser livre. A liberdade cristã não consiste em tomar o mundo à força; consiste em amar o mundo com um amor crucificado, magnânimo o bastante para nos fazer desejar livremente, unidos a Cristo, entregar nossa vida por ele, para que seja libertado.

É preciso cautela quando a liberdade, mantida refém pela força, é manipulada como meio de legitimar as ações de sujeitos impessoais como “o Partido”, “a Economia” ou até mesmo “a História”. No modo cristão de pensar, nenhuma política opressiva pode ser redimida por invocações de uma “liberdade” ideológica. A única liberdade que tem sentido é pessoal; e a liberdade de uma pessoa não pode anular a de outra.

Subscrever a uma ideia cristã de liberdade é consentir à dor. Quando Cristo nos diz: “Não resistais ao mal”, não nos pede que aceitemos a injustiça. Ele nos mostra que a causa da justiça às vezes é melhor servida sofrendo por ela, recusando-se a enfrentar a força com força.

Nosso emblema de liberdade permanece o Filho de Deus que “esvaziou-se a si mesmo”. Texto traduzido na íntegra do sítio: Coram Fratribus.

Ir. Alan Lucas de Lima, OTC
Carmelita Secular da Antiga Observância