O esplendor da Verdade que nos prova e nos purifica

Santo Antão, o Grande, serenamente concentrado na busca da verdade, indiferente às artimanhas de espíritos tentadores extravagantemente disfarçados — na realidade, bastante ridículos.  A partir de uma pintura de Joachim Patinir.

Da quinta conferência do Retiro Quaresmal desta semana, pregada pelo Monge e Arcebispo Erik Varden ao Papa Leão XIV e aos membros da Cúria Romana. As meditações estão sendo realizadas na Capela Paulina, sob a condução de Dom Erik Varden, da Ordem Cisterciense da Estrita Observância, Prelado de Trondheim, na Noruega. Estão convidados a participar os Cardeais residentes em Roma e os chefes dos Dicastérios.

Um comentário

A vida cristã não é um passeio em campo aberto; é travessia. E travessia com vento contra. A advertência de São Bernardo é direta: ninguém passa por esta terra sem tentação. Se uma vai embora, outra bate à porta. Simples assim. A questão não é se seremos tentados, mas como responderemos.

Há aqui uma sabedoria antiga que o nosso tempo tenta esquecer: Deus permite a tentação não para nos derrubar, mas para nos fortalecer. É no embate que o músculo da alma cresce. Cada flecha do Pai da Mentira, quando resistida, nos torna mais lúcidos, mais firmes, mais enraizados na verdade. Verdade não como conceito abstrato, mas como Pessoa viva. Verdade que ilumina, corrige e salva.

E então surge a ambição. Não aquela saudável vontade de fazer o bem com excelência, mas a ânsia de aparecer, de subir, de ser visto. São Bernardo não pega leve — chama-a de vírus secreto, peste oculta. Ele está certo. A ambição corrói por dentro. Faz a virtude enferrujar e a santidade apodrecer. E o mais perigoso: ela pode vestir roupa religiosa. Pode falar bonito, citar Escritura, defender causas nobres — mas no fundo está servindo ao próprio ego.

Aqui entra uma pergunta que ecoa há séculos: “O que é a verdade?” Nosso tempo repete essa pergunta com pressa e ansiedade. Muita informação, pouca sabedoria. Muito discurso, pouca luz. A resposta não está numa ideologia nem numa tendência cultural. A resposta é Cristo. Não apenas um mestre moral, mas a própria Verdade encarnada.

Existe uma tentação constante de a Igreja correr atrás do mundo, como se estivesse sempre atrasada na moda espiritual. Mas a Igreja não nasceu para seguir tendências; nasceu para orientar a história. Quando fala sua própria língua — a da Escritura, da liturgia, dos santos — ela não envelhece. Pelo contrário, rejuvenesce. Verdades antigas continuam novas porque são eternas.

Mas não nos enganemos: hoje argumentos sozinhos não convencem tanto quanto antes. O mundo pode debater ideias, mas se curva diante da santidade. A coerência de vida ainda tem autoridade. A santidade ainda faz gente ajoelhar. Não é barulho que transforma o mundo; é testemunho.

O chamado universal à santidade não é frase de documento. É convocação urgente. Cada cristão é chamado a encarnar a verdade — não de forma agressiva, mas luminosa; não com vaidade, mas com amor sacrificial. A verdade brilha mais quando passa pela cruz.

No fim das contas, a pergunta é pessoal: estou buscando a verdade ou apenas reconhecimento? Estou servindo a Cristo ou a mim mesmo com linguagem religiosa?

A tentação é inevitável. A queda não é. A ambição é sedutora. A santidade é libertadora. E a verdade — quando vivida — resplandece.

Que sejamos homens e mulheres que não apenas falam da verdade, mas a encarnam. Porque só a verdade vivida salva.

Texto na íntegra traduzido para o PTBR

Esplendor da Verdade

Da quinta conferência do Retiro Quaresmal desta semana. Texto traduzido do italiano abaixo.

Bernardo nos mantém vigilantes. Ele afirma: “Quero que estejais avisados: ninguém vive na terra sem tentação; se alguém é aliviado de uma, certamente deve esperar outra.” Precisamos cultivar o equilíbrio correto entre a confiança na ajuda de Deus e a desconfiança de nossa própria fragilidade, temendo as tentações enquanto aceitamos sua inevitabilidade, lembrando que Deus nos submete a elas porque são úteis.

Úteis em que sentido?

À medida que resistimos às flechas lançadas pelo Pai da Mentira, nosso compromisso com a verdade se fortalece. Tornamo-nos aptos, tendo rejeitado a falsidade que enfraquece, a fortalecer nossos irmãos.

A ambição representa uma forma particular de capitulação diante da inverdade. A ambição é uma forma não muito sutilmente sublimada de cupidez. Ao descrevê-la, Bernardo, sempre eloquente, supera a si mesmo. A ambição, diz ele, é “um mal sutil, um vírus secreto, uma peste oculta, uma artífice do engano; é mãe da hipocrisia, pai da inveja, origem dos vícios; é lenha para os crimes, faz as virtudes enferrujarem, a santidade apodrecer, os corações se cegarem. Transforma remédios em doenças. Da medicina extrai apatia.” A ambição nasce de uma “alienação da mente”. É uma loucura que surge quando a verdade é esquecida. O fato de a ambição ser uma forma de insanidade a torna ridícula em qualquer manifestação, mas especialmente quando aparece em pessoas dedicadas a um estado de serviço abnegado. Não é à toa que a figura do clérigo ambicioso assombra a literatura e o cinema como um tropo cômico — mas não muito engraçado — desde os párocos bajuladores em Jane Austen até o sacerdote cortesão mordaz no notável filme Ridicule, de Patrice Leconte.

“Que é a verdade?”

As pessoas de nosso tempo fazem essa pergunta com sinceridade, muitas vezes com notável boa vontade, apesar de sua confusão, medo e da pressa constante em que vivem. Não podemos deixar essa pergunta sem resposta. Não temos energia a desperdiçar com as tentações tolas do medo, da vanglória e da ambição. Precisamos de nossas melhores forças para sustentar a verdade substancial, essencial e libertadora contra substitutos que brilham com maior ou menor plausibilidade, mais ou menos diabólicos.

Em nossa situação, rica em oportunidades, é imperativo ver e articular o mundo à luz de Cristo. Cristo, que é a verdade, não apenas nos protege; Ele nos renova, desejoso de revelar-se por meio de nós a uma criação cada vez mais consciente de estar sujeita à vaidade.

É tentador pensar que precisamos acompanhar as modas do mundo. Eu diria que é um procedimento duvidoso. A Igreja, corpo que se move lentamente, sempre correrá o risco de parecer e soar ultrapassada. Mas, se falar bem a sua própria linguagem — a das Escrituras e da liturgia, a de seus pais e mães, poetas e santos do passado e do presente — será original e nova, pronta para expressar verdades antigas de modos novos, tendo a chance, como já fez antes, de orientar a cultura.

Esse trabalho tem uma dimensão intelectual importante. Também possui uma dimensão existencial. Como disse o Cardeal Schuster em seu leito de morte: “Parece que as pessoas já não se deixam convencer por nossa pregação, mas, diante da santidade, ainda creem, ainda se ajoelham e rezam.”

Não foi o chamado universal à santidade — o chamado a encarnar a verdade — a nota mais forte do Concílio Vaticano II? Ele ressoou esplendidamente como um gongo ao longo de suas deliberações. A pretensão cristã à verdade torna-se convincente quando seu esplendor se torna pessoalmente evidente no amor sacrificial da santidade, purificado das tentações de acomodação. Texto traduzido na íntegra do sítio: Coram Fratribus.

Ir. Alan Lucas de Lima, OTC
Carmelita Secular da Antiga Observância