O Cristo no banco e a Igreja no espelho

Diário de um Católico na Contrarrevolução – Parte 49  

No coração do Santuário Nacional de Aparecida, ergueu-se — ou melhor, deitou-se — uma imagem que não permite distração: o “Jesus Sem Teto”. Bronze frio. Banco público. Pés com chagas. O rosto oculto. A assinatura é de Timothy Schmalz, e o mundo já conhece a obra como Homeless Jesus.

A proposta é clara: ver Cristo no homem abandonado.

Até aqui, nada a contestar. Está no Evangelho de Mateus, capítulo 25. Está na Tradição. Está nos Padres da Igreja. Está nos santos que beijaram leprosos, fundaram hospitais, recolheram órfãos.

Mas a pergunta que não quer calar — e precisa ser feita — é outra:

Estamos diante de um chamado à conversão… ou de mais um símbolo domesticado pela retórica?

A Campanha da Fraternidade 2026 escolheu o tema “Fraternidade e Moradia”. O lema: “Ele veio morar entre nós”. Teologicamente, é uma bomba de profundidade. A Encarnação não é metáfora sociológica. É dogma. Deus assumiu carne, história, precariedade. Não fez performance. Fez Redenção.

E, no entanto, vivemos tempos estranhos.

Há um risco real quando a dimensão social da fé é apresentada sem a dimensão sobrenatural. Quando a caridade é separada da Cruz. Quando a moradia é defendida, mas o pecado não é denunciado. Quando se fala de estruturas injustas, mas se silencia sobre a necessidade da graça.

Cristo não é apenas o desabrigado.
Cristo é o Senhor crucificado e ressuscitado.

Sem isso, a escultura vira manifesto.
Com isso, vira profecia.

Não sejamos ingênuos. A Igreja sempre cuidou dos pobres. Muito antes de campanhas anuais e coletivas de imprensa. Foram monges que preservaram a civilização. Foram ordens religiosas que criaram hospitais. Foram confrarias que ergueram casas. Isso não começou ontem.

A caridade católica nasce do altar.

Quando o sacerdote sobe ao altar — e aqui falo da Missa de sempre, da Missa que formou santos, da Missa que moldou mártires — ele oferece o Sacrifício. E é desse Sacrifício que brota a misericórdia concreta. A Missa não é assembleia temática. É Calvário incruento.

Se perdermos essa centralidade, trocamos a fonte por campanhas. E campanha sem fonte seca rápido.

A escultura foi colocada em local de grande circulação. Peregrinos passarão. Fotos serão tiradas. Discursos serão feitos. Autoridades civis marcaram presença — inclusive o vice-presidente Geraldo Alckmin. Tudo muito solene.

Mas o que me inquieta não é a presença do Estado. É a ausência, tantas vezes, da clareza doutrinal.

Fala-se de moradia. Ótimo.
Mas fala-se com a mesma ênfase da necessidade de estado de graça?
Fala-se da dignidade da família como célula primeira da sociedade?
Fala-se do pecado que destrói lares antes mesmo de faltar o teto?

Sem conversão moral, política habitacional vira enxugar gelo.

E aqui está o ponto: a Quaresma não é tempo de ativismo. É tempo de penitência. A ação social católica nasce do joelho dobrado, não do microfone ligado.

Não escrevo contra a caridade. Seria absurdo. Escrevo contra a redução da fé a pauta.

Quando a Igreja assume linguagem excessivamente horizontal, perde altitude sobrenatural. E quando perde altitude, perde autoridade.

O Cristo do banco não pode ser separado do Cristo do altar. Se for, deixamos de adorar e passamos a apenas admirar.

A modernidade eclesial gosta de símbolos impactantes. Mas a Tradição sempre soube que o maior impacto é o silêncio diante do Sacrário.

Uma escultura pode comover.
Uma Missa bem celebrada converte.

Ainda assim — e aqui está a esperança — há algo profundamente providencial nesse gesto.

Cristo foi colocado diante de todos. Não escondido. Não diluído. Não reinterpretado. Está ali, com as chagas visíveis. As marcas da Paixão não foram apagadas. Isso importa.

Se alguém, ao passar, ajoelhar-se interiormente… já valeu.

Se uma paróquia decidir agir concretamente sem cair em ideologizações… já valeu.

Se a Campanha conduzir almas ao confessionário e ao altar… então não será apenas evento. Será graça.

A Igreja atravessa tempos de ambiguidade. Palavras elásticas. Documentos interpretáveis. Silêncios constrangedores. Mas Cristo permanece.

E talvez — ironia das ironias — Ele esteja agora deitado num banco para lembrar à própria Igreja quem Ela é.

Não ONG.
Não plataforma sociopolítica.
Não comentarista de problemas urbanos.

Ela é Corpo Místico.

E o Corpo Místico não vive de slogans. Vive da Eucaristia.

Se a Campanha de 2026 conseguir unir moradia concreta com conversão real, caridade material com fidelidade doutrinal, ação social com reverência litúrgica — então veremos frutos.

Se não, será mais uma estação no calendário.

A escultura está ali.
O Cristo está ali.
A pergunta está ali.

A Igreja vai contemplar… ou vai converter-se?

A contrarrevolução começa sempre do mesmo jeito: voltando ao altar, à Tradição, ao que nunca envelhece.

Porque no fim das contas, o mundo precisa de casas.
Mas precisa ainda mais da Verdade.

E a Verdade não dorme em banco público.
Ela reina da Cruz.

Por um Católico consciente e atento ao cenário eclesial do Brasil e do Mundo.