Quando o tempo se ajoelha: o chamado esquecido das Têmporas da Quaresma

Há algo de profundamente inquietante nas Têmporas da Quaresma. Elas chegam discretas — quarta, sexta e sábado da primeira semana — e, no entanto, carregam um peso espiritual que poucos percebem. São como sinos antigos tocando numa vila que desaprendeu a escutar.

As Têmporas não são invenção recente, nem detalhe periférico. Elas nascem na tradição viva da Igreja, especialmente na antiga prática de Roma, onde os cristãos aprenderam a consagrar o tempo ao Senhor. Não apenas o domingo. Não apenas as festas. O tempo. O ciclo das estações. A terra que produz. O suor que cai da fronte. A vida inteira.

E aqui está o ponto que dói: nós ainda consagramos o tempo a Deus? Ou apenas administramos agendas?

As Têmporas da Quaresma nos colocam diante de três colunas inegociáveis: jejum, oração e penitência. Não como formalidade litúrgica, mas como reordenação da existência. O jejum recorda que não somos escravos do apetite. A oração nos devolve o eixo. A penitência corrige o rumo quando a alma começa a se perder.

Vivemos numa cultura que corre. A Igreja, porém, sempre ensinou a caminhar. E caminhar com consciência. As Têmporas são esse freio sagrado: “Pare. Examine-se. Ofereça.”

Elas também revelam algo que esquecemos: a fé católica é cósmica. A mudança das estações não é apenas fenômeno meteorológico; é linguagem de Deus. A criação não é cenário neutro; é obra que geme e louva. Quando a Igreja reza nas Têmporas, ela está dizendo que o clima, as colheitas, o trabalho humano e o sustento das famílias pertencem ao Senhor.

Isso muda tudo.

Se o tempo pertence a Deus, então minha rotina também pertence. Se a colheita deve ser abençoada, meu esforço profissional também deve ser oferecido. Se a Igreja pede penitência nesses dias, talvez seja porque algo em nós precisa urgentemente ser purificado.

As Têmporas expõem uma pergunta incômoda: minha Quaresma é real ou decorativa?

Jejuar não é dieta espiritual. É disciplina. É combate contra a autossuficiência. É lembrar que “nem só de pão vive o homem”. Orar não é cumprir tabela. É entrar no silêncio onde Deus corrige nossas ilusões. Fazer penitência não é autopunição; é medicina para uma alma inchada de si mesma.

A tradição nunca foi capricho nostálgico. Ela é sabedoria acumulada. Se os antigos consagravam as estações, talvez soubessem algo que nós, tão tecnológicos, esquecemos: sem Deus, o tempo vira ansiedade; com Deus, o tempo vira caminho.

As Têmporas da Quaresma são, portanto, um convite radical: reorganize sua vida. Reordene seus afetos. Purifique suas intenções. Ofereça seu trabalho. Santifique seu calendário. Faça do seu cotidiano um altar.

Talvez o mundo não pare para rezar pelas colheitas. Talvez ninguém mais fale das Têmporas. Mas o cristão que leva a sério sua vocação entende que santidade não nasce do improviso — nasce de ritmo, disciplina e entrega.

Quando a Igreja nos chama a jejuar nesses dias, ela está nos treinando para a liberdade. Quando nos chama à oração, está nos devolvendo o céu. Quando nos chama à penitência, está nos libertando do ego que nos aprisiona.

No fundo, as Têmporas são um gesto simples e gigante: o tempo se ajoelha diante de Deus.

E a pergunta final não é sobre o calendário. É sobre nós.

Nos ajoelhamos também?

Por seu Irmão Carmelita Secular da Antiga Observância, B.