Mil cairão à tua direita: a unidade que salva

Detalhe da notável obra de Van der Weyden,  A Descida de Cristo da Cruz , atualmente no Museu do Prado.

Um comentário 

Na sexta conferência do retiro quaresmal pregado na Capela Paulina por Erik Varden, monge da Ordem Cisterciense da Estrita Observância e prelado de Trondheim, ecoa uma palavra que não massageia o ego — ela confronta. Diante de Cardeais, chefes de Dicastérios e pastores da Igreja, o Salmo ressoa como lâmina: “Mil cairão ao teu lado, dez mil à tua direita” (Sl 90).

Não é poesia decorativa. É aviso.

A tradição nunca foi ingênua. Os Padres sabiam que a queda pode ser pedagógica — Deus permite que tropecemos para quebrar o orgulho. Às vezes, uma queda bem chorada vira marco de conversão. A gente lembra depois e diz: ali Deus me salvou de mim mesmo.

Mas há quedas que não edificam — devastam. Há quedas que não purificam — corrompem. E o escândalo que nasce dentro da própria casa fere mais do que o ataque vindo de fora. A história da Igreja prova isso sem filtro. As maiores crises não vieram do Império, nem dos salões iluministas, nem das manchetes modernas. Vieram de dentro. Da tibieza que virou duplicidade. Da vida espiritual que perdeu raiz na carne concreta.

É duro admitir. Mas é libertador.

O mundo simplifica: divide tudo entre monstros e vítimas. A Igreja, quando é fiel à sua sabedoria, vai mais fundo. São Bernardo — lendo o Qui habitat — fala de esquerda e direita. A esquerda: nossa natureza carnal. A direita: nossa natureza espiritual. E ele diz algo desconcertante: as baixas são maiores à direita. O campo espiritual é onde as armas são mais letais.

Isso desmonta a narrativa superficial. Não é só a carne que cai. O espírito também pode se deformar. E quando o espírito se corrompe, ele arrasta a carne junto.

Aqui está o ponto que dói: a natureza humana é una. Não existe vida espiritual isolada do corpo, dos afetos, dos hábitos. Quem mergulha fundo na oração, mas não educa os afetos, expõe fissuras. Quem busca o alto, mas ignora a própria vulnerabilidade, cria zonas de sombra. A fome existencial aparece. A necessidade de consolo emerge. Se não for integrada, ela procura compensações — e depois tenta rebatizá-las como “espirituais”.

Quantas vezes o erro não começa com uma racionalização piedosa?

O verdadeiro mestre espiritual não se prova só no púlpito. Prova-se na mesa, na conversa informal, no uso discreto da internet, na forma como lida com elogios. A santidade não é performance. É unidade.

A Encarnação resolve o dilema: o Verbo se fez carne. Não veio nos ensinar a fugir do humano, mas a transfigurá-lo. Dualismo é heresia antiga com roupa nova. Não existe “eu espiritual” separado do “eu real”. Ou Cristo governa tudo — afetos, desejos, ambições — ou governa quase nada.

Essa meditação, proclamada no coração do Vaticano, é um chamado à lucidez. Para pastores, mas também para cada um de nós. Porque a Quaresma não é teatro litúrgico; é campo de batalha.

O Salmo não promete ausência de queda ao nosso redor. Promete refúgio naquele que habita sob a sombra do Altíssimo. O combate é real. O inimigo é astuto. Mas a graça é maior.

A Igreja não será purificada por estratégias de imagem, mas por homens e mulheres inteiros. Inteiros na esquerda e na direita. Inteiros no corpo e na alma. Inteiros no secreto e no público.

Cristo não quer funcionários espirituais. Quer corações indivisos.

E a pergunta fica, sem maquiagem: estamos construindo uma vida integrada, ou só uma reputação religiosa?

Mil podem cair ao lado. Dez mil à direita. Mas quem aprende a habitar em Deus permanece de pé — não por mérito próprio, mas porque finalmente deixou de dividir o que Deus uniu.

Tradução na íntegra para o PTBR

Vida Iluminada
A Queda de Milhares

Da sexta conferência do retiro quaresmal desta semana. Texto original traduzido do italiano abaixo.

As quedas podem nos humilhar quando estamos cheios de nós mesmos, mostrando o poder de Deus para salvar. Elas podem se tornar marcos numa caminhada pessoal de salvação, lembrados depois com gratidão.

Mas não podemos ser ingênuos. Nem toda queda termina em júbilo. Há quedas que têm cheiro de inferno, trazendo destruição ao culpado e espalhando ruína ao redor. E essa ruína costuma ser ampla e duradoura, arrastando muitos inocentes. Será preciso fortaleza para encarar, com Bernardo, o versículo do Salmo 90 que diz: “Mil cairão ao teu lado, dez mil à tua direita.”

Nada causou dano mais trágico à Igreja, nem comprometeu mais o nosso testemunho, do que a corrupção surgida dentro da própria casa. A pior crise da Igreja não veio da oposição secular, mas da corrupção eclesiástica. As feridas abertas levarão tempo para cicatrizar. Elas clamam por justiça e por lágrimas.

Diante da corrupção, especialmente quando se trata de abuso, é tentador procurar uma raiz doente. Esperamos encontrar sinais de alerta ignorados: falhas no discernimento, padrões iniciais de desvio. Às vezes esses rastros existem, e temos razão em lamentar não tê-los percebido a tempo. Mas nem sempre é assim.

Reconhecemos o grande e alegre bem que muitas vezes se manifestou nos começos de comunidades hoje associadas a escândalos. Não podemos simplesmente supor que houve hipocrisia estrutural desde o início, que fundadores começaram como sepulcros caiados. Às vezes encontramos sinais de inspiração, até traços de santidade. Como explicar, ao mesmo tempo, esses sinais e os desvios posteriores?

Uma mentalidade secular tende a simplificar: diante da calamidade, aponta monstros e vítimas.

Felizmente, a Igreja possui — quando se lembra de usá-las — ferramentas mais delicadas e mais eficazes.

Bernardo recorda que, onde as pessoas se dedicam a empreendimentos nobres, os ataques do inimigo serão mais ferozes. Ele observa que “os homens espirituais da Igreja são atacados muito mais terrivelmente do que os carnais”. Interpreta que o Salmo Qui habitat sugere isso ao falar de “esquerda” e “direita”: a esquerda representaria nossa natureza carnal; a direita, a espiritual. As baixas são mais numerosas à direita porque é ali que, no campo de batalha espiritual, se usam as armas mais letais.

Embora leve a sério a realidade do mundo demoníaco, isso não significa que atribua toda doença espiritual a vilões com chifres e forquilhas. Ele responsabiliza homens e mulheres pelo uso que fazem de sua liberdade soberana. Seu ponto é que a natureza humana é una. Se começamos a aprofundar nossa dimensão espiritual, outras profundezas inevitavelmente vêm à tona. Enfrentaremos fome existencial, vulnerabilidade, desejo de consolo. Tais experiências podem surgir como forma de ataque.

O progresso na vida espiritual exige que nosso ser físico e afetivo seja configurado de modo harmonizado com o amadurecimento contemplativo. Caso contrário, há o risco de que a exposição espiritual busque compensação física ou afetiva; e que tais compensações sejam racionalizadas como se fossem, de algum modo, “espirituais” em si mesmas, mais elevadas que as faltas comuns dos mortais. A integridade de um mestre espiritual será atestada por sua conversa, mas não só; aparecerá também em seus hábitos online, em seu comportamento à mesa ou no bar, em sua liberdade diante da adulação alheia.

A vida espiritual não é um apêndice do resto da existência. É a sua alma. Devemos fugir de todo dualismo, lembrando sempre que o Verbo se fez carne para que nossa carne fosse penetrada pelo Logos. Precisamos vigiar tanto à esquerda quanto à direita, cuidando — e Bernardo insiste nisso — para não confundir a esquerda com a direita nem a direita com a esquerda. Devemos aprender a estar igualmente em paz com nossa natureza carnal e espiritual, para que Cristo, nosso Mestre, governe serenamente em ambas.

Texto traduzido na íntegra do sítio: Coram Fratribus.

Por Ir. Alan Lucas de Lima, OTC
Carmelita Secular da Antiga Observância