A Glória que nasce da cruz
Um comentário
Tem uma coisa aqui que não dá pra suavizar: a glória de Cristo não explode no aplauso — ela floresce no abandono. E isso vira o mundo de cabeça pra baixo.
Quando muitos discípulos foram embora, quando o entusiasmo virou silêncio constrangedor, quando restaram apenas Maria e João aos pés da Cruz, ali não estava o fracasso do projeto de Deus. Ali estava a revelação do que é, de fato, a glória. O Evangelho de João Evangelista não tem medo de dizer: é na hora da elevação na Cruz que o Filho é glorificado. A kenosis — o esvaziamento — não é o oposto da glória. É o seu caminho.
A Cruz é o lagar onde o amor é esmagado — mas não destruído. É ali que o amor revela sua natureza invencível. O mundo mede a glória pelo brilho externo; Deus a mede pela capacidade de se doar até o fim.
A Glorificação: Face a Face
Bernardo de Claraval ensina que a verdadeira glorificação acontece “na presença da face de Deus”. Aqui vivemos na esperança — spes in nomine. Lá, viveremos na realidade — res in facie. Aqui é confiança. Lá é visão.
Mas atenção: isso não significa que a glória só começa depois da morte. Existe uma glória escondida, discreta, silenciosa, já operando agora. Ela não faz barulho. Não viraliza. Não pede palco. Ela age no interior.
E é aí que a coisa fica séria.
A Forma Obscura e a Forma Formosa
Agostinho de Hipona dizia que carregamos a imagem da glória numa “forma obscura”. A imagem de Deus em nós não foi apagada. Pode estar soterrada, deformada pelo pecado, obscurecida pela mediocridade, mas não foi destruída.
Isso é gigantesco.
Você pode estar cansado dos seus próprios fracassos. Pode estar decepcionado consigo mesmo. Pode olhar para sua história e enxergar mais ruína que virtude. Mas a forma formosa ainda está lá. A glória não foi cancelada. Está encoberta.
A vida espiritual, então, não é fabricar algo novo — é desenterrar o que sempre esteve ali. É deixar que a graça retire as camadas de escuridão. É permitir que Deus restaure a forma original.
A santidade não é uma performance. É uma revelação.
A Igreja: Guardiã da Glória Oculta
A Igreja não existe para massagear o ego nem para administrar consensos sociais. Ela existe para lembrar ao homem quem ele é diante de Deus. Para recordar que o desespero não é definitivo. Que a mediocridade não é destino. Que a cruz não é derrota.
Nos santos, a glória escondida fica visível. Em corpos doentes, em vidas aparentemente frágeis, Deus faz brilhar algo que o mundo não consegue explicar. Força na fraqueza. Luz na decadência.
E nos sacramentos isso atinge um ponto altíssimo.
Mas na Eucaristia… ali a glória é tão intensa que precisa se esconder sob as aparências mais simples. Pão. Vinho. Silêncio.
E, no entanto, ali está o centro.
Ali está a presença real daquele que foi esmagado no lagar da Cruz e que reina glorioso. Ali, o céu toca a terra. Ali, a forma obscura começa a se tornar luminosa.
A Mística da Cruz
A verdadeira experiência mística não é fuga do sofrimento. É atravessá-lo unido a Cristo. É descobrir que, quando tudo parece ruir, a glória pode estar mais próxima do que nunca.
E no fim — face a face — veremos que nada foi perdido. Que cada lágrima oferecida foi semente. Que cada renúncia escondida carregava peso eterno.
A glória já começou. Está velada. Está silenciosa. Está agindo.
Cabe a nós permanecer.
E deixar que o amor faça o resto.
Texto traduzido na íntegra ao PTBR
Glória
Da sétima conferência do Retiro Quaresmal desta semana. Texto traduzido do original em italiano.
Quando Jesus explicou o que significava permanecer com Ele, entrar no Reino para o qual Ele apontava, “muitos dos seus discípulos se afastaram e deixaram de andar com Ele”. Eles não suportavam seus ensinamentos sobre o realismo sacramental, a indissolubilidade do matrimônio, a necessidade da Cruz. Quando Cristo foi crucificado no Calvário, o sínodo que o acompanhara seis dias antes já não existia mais. Apenas dois permaneceram: sua Mãe e João, o Discípulo Amado. João oferece um relato impactante da kenosis de Jesus. Ela se desenrola em dois níveis: o do amor divino e compassivo esmagado no lagar da Cruz; e o da traição das fidelidades humanas. Contudo, João insiste que essa cena de abandono manifesta a glória de Cristo.
“A glorificação”, diz Bernardo de Claraval, “acontece na presença da face de Deus”, quando, concluída nossa jornada terrena, finalmente contemplaremos aquilo que nesta vida tanto almejamos, depositando nossa confiança no nome de Jesus. Spes in nomine, res in facie est. Não há outra forma de traduzir essa fórmula concisa senão assim: “Nossa esperança está no nome do Senhor; a realidade esperada será revelada face a face”.
Contudo, uma “glória oculta” já é perceptível. Agostinho de Hipona gostava de dizer que carregamos a imagem da glória em uma “forma obscura”. Depois de atravessarmos esta vida, essa forma se tornará explícita e “luminosa”. Estará apta a comparecer diante de Deus. Quaisquer deformidades causadas pelo mau uso da liberdade serão então corrigidas, para que a forma apareça em sua beleza original: como forma formosa.
Agostinho, ao mesmo tempo tão profundamente humano e penetrantemente lúcido, enfatiza que a glória da imagem jamais se perde; ela está impressa em nosso ser. Pode, no entanto, ficar soterrada sob camadas acumuladas de escuridão, que precisam ser removidas.
A Igreja recorda às mulheres e aos homens a glória que reside secretamente neles. Ela nos mostra que a mediocridade e o desespero presentes — sobretudo o meu desespero diante dos meus próprios fracassos persistentes — não precisam ser definitivos; que o plano de Deus para nós é infinitamente belo; e que Deus, por meio do Corpo Místico de Cristo, nos concederá graça e força, se apenas pedirmos.
A Igreja manifesta o brilho dessa “glória oculta” em seus santos. Eles são prova de que até mesmo a doença e a decadência podem ser instrumentos que a Providência utiliza para realizar um propósito glorioso, concedendo força aos fracos e tornando-os radiantes.
A Igreja também canaliza a “glória oculta” em seus sacramentos. Qualquer católico sabe que luz pode surgir no confessionário, em um momento de contrição, numa ordenação ou num matrimônio. Mais esplêndida — e de certo modo mais velada — é a glória da Sagrada Eucaristia. Que sacerdote, após celebrar a Missa, não sentiu aquilo que um grande músico disse certa vez sobre um instrumento que, numa comunicação luminosa de beleza, cura e verdade, leva a pensar que “a morte não seria realmente uma tragédia, pois o melhor daquilo que está no centro da vida humana já foi visto e vivido”, com o coração ardendo em gloriosa admiração?
Texto traduzido na íntegra do sítio: Coram Fratribus.