Habitar na Ajuda de Deus: além das ilusões de segurança
Um comentário
A terceira conferência do retiro quaresmal desta semana, pregada pelo Monge e Arcebispo Erik Varden ao Papa Leão XIV e aos membros da Cúria Romana, bateu numa tecla que muita gente prefere ignorar: a ajuda de Deus não é um botão de emergência. Não é 190 espiritual. Não é seguro contra incêndio existencial.
Logo no início, ao recordar Mary Ward, com sua frase simples e direta — fazer o melhor e confiar que Deus fará o resto — somos confrontados com algo muito tradicional e, ao mesmo tempo, revolucionário: responsabilidade humana e confiança sobrenatural caminham juntas. Nada de passividade piedosa. Nada de ativismo sem oração. É cooperação.
O Papa insistiu numa imagem forte: habitar na ajuda de Deus. Aqui ecoa Bernardo de Claraval, para quem o auxílio divino é morada, não visita ocasional. Isso muda tudo. Se a ajuda de Deus é ambiente, então não se trata de pedir socorro só quando o chão treme. Trata-se de viver dentro dessa realidade — respirar nela.
Mas aí vem a parte desconfortável. E quando o céu parece fechado? Quando a oração volta como eco seco? A conferência foi corajosa ao tocar nessa ferida. O modelo bíblico é o Livro de Jó. Jó não aceita respostas prontas. Ele rejeita a teologia contábil dos amigos — aquela ideia de que sofrimento é sempre cálculo moral. Ele não faz barganha com Deus. Ele enfrenta o silêncio.
E aqui está o ponto decisivo para nossa vida espiritual — especialmente na Quaresma: será que nossa fé virou uma apólice de seguro? Algo que supostamente nos blinda contra perdas, doenças, fracassos? Se for assim, quando a dor chega, a estrutura desmonta. A fé não foi feita para ser cerca elétrica emocional.
A provocação do Papa foi clara: Deus às vezes permite que os muros caiam. E não porque nos abandonou, mas porque está demolindo paredes que confundíamos com o próprio mundo. Aquilo que achávamos proteção talvez fosse sufocamento.
Isso é duro. Mas é libertador.
Viver na ajuda de Deus não é viver blindado. É atravessar o Lamento, encarar a Ameaça, e descobrir a Graça num nível mais profundo. Não é espiritualidade de vitrine. É fé de raiz.
A Quaresma é exatamente isso: um tempo em que Deus desmonta ilusões para reconstruir o essencial. Não para nos fragilizar, mas para nos expandir.
Então a pergunta que fica — e que vale como exame de consciência — é direta: eu sigo a Deus enquanto tudo está sob controle ou confio n’Ele também quando o controle evapora?
Se a ajuda de Deus é morada, não precisamos fugir quando a tempestade começa. Podemos permanecer. E crescer.
No fim das contas, não se trata de segurança. Trata-se de profundidade. E profundidade dói antes de amadurecer.
Texto na íntegra traduzido ao PTBR
A Ajuda de Deus
Da terceira conferência do Retiro Quaresmal desta semana. Texto traduzido do italiano abaixo.
Mary Ward, grande educadora cristã do século XVII, costumava dizer às suas irmãs: “Façam o melhor que puderem e Deus ajudará”.
A ideia de que Deus pode e quer nos ajudar em nossas dificuldades é um axioma da fé bíblica. É isso que distingue o Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó — o Deus que se fez carne compassiva em Cristo Jesus — do “Motor Imóvel” da filosofia.
O Salmo 90 começa com o versículo: “Aquele que habita sob o auxílio do Altíssimo”. A ajuda de Deus, diz Bernardo, pode de fato ser chamada de morada, na medida em que constitui uma realidade sustentadora dentro da qual podemos viver, mover-nos e existir. A ajuda de Deus não é algo ocasional para nós; não é um serviço de emergência ao qual recorremos de vez em quando, quando a casa está pegando fogo ou alguém foi atropelado, como quem disca 999.
Mas e quando pessoas tementes a Deus clamam ao céu e não recebem resposta perceptível, ouvindo apenas o eco desolado da própria voz?
A figura bíblica dessa situação é Jó, cujo livro majestoso pode ser lido como uma sinfonia em três movimentos: vai de um Lamento visceral, passa por uma exposição da Ameaça, e culmina numa experiência totalmente surpreendente de Graça.
Jó se recusa a aceitar as racionalizações de seus amigos. Recusa-se a admitir que Deus esteja simplesmente fazendo contas em sua vida, como se tudo fosse um balanço contábil. Sem sentir ajuda, ele está determinado a encontrar Deus presente em sua aflição, clamando heroicamente: “Se não é Ele, quem é então?”
Como crentes, podemos em algum nível tratar nossa religião como uma apólice de seguro. Certos de subsistir sob a ajuda de Deus, podemos imaginar que estamos fora de perigo. O mundo pode parecer desmoronar quando — se — o mal nos atinge. Como enfrentar provações que fazem cair as cercas protetoras que cuidadosamente montamos sob medida? Minha relação com Deus é de barganha, levando-me, quando as coisas apertam, a seguir o conselho direto da esposa de Jó — “amaldiçoa a Deus e morre”? Ou vivo numa profundidade maior?
Deus pode fazer surgir um mundo novo depois de derrubar os muros que pensávamos ser o mundo — muros dentro dos quais, na verdade, estávamos sufocando.
Viver dentro da ajuda de Deus, como São Bernardo nos exorta, não é vender seguranças. É atravessar o Lamento e a Ameaça para viver, com graça, em um nível mais profundo. Texto traduzido na íntegra do sítio: Coram Fratribus.