Você quer ter razão… ou quer se converter?

São Bernardo quando jovem.

Um comentário

Na segunda conferência do retiro quaresmal com o Papa Leão XIV, o Monge e Arcebispo Dom Erik Varden nos colocou diante de São Bernardo, então o recado é direto: conversão não é pose espiritual. É êxodo real. É sair do ego inflado e caminhar para a luz que não vem de nós.

São Bernardo de Claraval — o gigante do século XII, monge que incendiou a Europa com zelo e contemplação — não fundou uma “novidade religiosa” para chamar de sua. Ele entrou no que já existia e levou às últimas consequências. A santidade não nasce da vaidade de criar algo inédito, mas da coragem de viver radicalmente o que a Igreja sempre guardou.

O projeto cisterciense parecia conservador — e era. Fidelidade à Regra, simplicidade, disciplina. Mas também foi ousado. Houve inovação concreta na forma de viver a tradição. E aqui está uma chave poderosa: tradição viva gera novidade verdadeira. Tradição morta só produz museu e nostalgia vazia.

Bernardo tinha personalidade forte. Convicto. Às vezes duro. Defendia posições firmes. Mas não era hipócrita. Era humilde de verdade. E isso faz toda a diferença. Ele não lutava para proteger o próprio ego; lutava pelo que acreditava ser a necessidade da Igreja. E, com o tempo — pela dor, pelas críticas, pelas feridas — aprendeu que nem sempre seu julgamento era absoluto.

Aqui está o ponto que dói: conversão não é só abandonar pecados óbvios. É aprender a desconfiar da própria autossuficiência. É admitir que até nosso zelo pode estar misturado com orgulho. É deixar que a misericórdia de Deus desmonte nossas certezas rígidas.

Bernardo não foi um santo de vitrine. Foi homem de tensões imensas. Amou intensamente. Brigou. Reconciliou-se. Cresceu. A santidade dele não é estética; é forjada no fogo. E isso consola — porque mostra que Deus trabalha com gente real.

Nesta Quaresma, a pergunta não é: “estou certo?”. A pergunta é: “estou me convertendo?”.

Num mundo — e às vezes numa bolha católica — obcecado por vencer debates, São Bernardo nos lembra: ter razão não salva ninguém. O que salva é deixar-se purificar pela justiça misericordiosa de Deus.

Quaresma é menos performance e mais verdade. Menos ego. Mais Deus.

Menos aplauso. Mais conversão. E aí, você quer ter razão… ou quer ser santo?

Texto traduzido para o PTBR

Bernardo, o Idealista

Da segunda conferência do retiro quaresmal desta semana. Texto traduzido do italiano abaixo.

Que tipo de homem foi São Bernardo? De onde ele veio? Ele se ergue como um gigante sobre o movimento cisterciense do século XII — tal era o seu carisma e a sua incansável energia.

Muitos, inclusive alguns que deveriam saber melhor, supõem que ele tenha fundado a Ordem. Não foi o caso, claro; embora tenha causado grande impacto quando apareceu em 1113, aos 23 anos, acompanhado de um grupo de trinta companheiros.

O mosteiro ao qual ele se juntou, Cîteaux, era um projeto tanto de inovação quanto de reforma. Os fundadores, que o estabeleceram em 1098, chamaram sua casa de novum monasterium. Estavam fazendo algo novo, não principalmente reagindo contra algo — o que foi providencial, já que projetos movidos apenas por reação, mais cedo ou mais tarde, acabam fracassando.

À primeira vista, o projeto cisterciense parecia conservador. No entanto, seus protagonistas introduziram novidades. Essa dialética foi fecunda.

A confiança de Bernardo em seu próprio julgamento podia torná-lo flexível na observância de procedimentos convencionais que, de outro modo, ele afirmava defender. Sua visão das necessidades da Igreja às vezes o levava a adotar posições rígidas, envolvendo-se em partidarismos intensos.

Mas ele não era hipócrita.

Era um homem genuinamente humilde, inteiramente entregue a Deus, capaz de delicada bondade, amigo fiel — inclusive capaz de fazer amizade com antigos inimigos — e uma testemunha convincente do amor de Deus. Foi, e continua sendo, fascinante.

Dom James Fox, abade empreendedor de Gethsemani entre 1948 e 1967, certa vez escreveu, exasperado, sobre seu confrade Thomas Merton: “A mente dele é tão elétrica!” Merton irritava Fox com suas ideias, intuições e insistências. Ainda assim, Fox sabia que ele era autêntico. Respeitava-o, apreciava sua companhia (quando não estavam no meio de alguma disputa épica) e procurava Merton para confissão durante a maior parte de seu abaciado.

Seria tolice comparar Thomas Merton a Bernardo de Claraval, mas há uma semelhança temperamental. Embora Bernardo nada soubesse sobre eletricidade, sua natureza era como mercúrio: rápida, vibrante, carregada de tensões enormes que precisavam ser equilibradas.

O ensinamento de Bernardo sobre a conversão nasce de uma cultura bíblica sem igual e de noções teológicas profundamente refletidas. Mas nasce também — e cada vez mais com o passar do tempo — de luta pessoal, à medida que ele aprende a não tomar como garantido que seu caminho é sempre o correto, instruído pela experiência, pelas dores e pelas provocações que o levam a confrontar sua própria autossuficiência e a maravilhar-se diante da justiça misericordiosa de Deus.

Bernardo é um bom e sábio companheiro para quem inicia um êxodo quaresmal para longe do egoísmo e do orgulho, desejando buscar autenticidade com os olhos fixos no amor de Deus, que tudo ilumina. Texto traduzido na íntegra do sítio: Coram Fratribus

Por Ir. Alan Lucas de Lima, OTC
Carmelita Secular da Antiga Observância