Leão XIV diante da encruzilhada: autoridade, tradição e a ponte necessária com a FSSPX
Bispo auxiliar de Astana apela ao Papa para que conceda mandato apostólico às futuras consagrações da Fraternidade São Pio X e evite um novo capítulo de ruptura na Igreja.
Roma vive um momento delicado. E histórico.
Em um apelo público divulgado nesta terça-feira (24), pela jornalista americana em Roma, credenciada junto a Santa Sé Diane Montagna. Dom Athanasius Schneider dirigiu-se diretamente ao Papa Leão XIV pedindo que conceda o mandato apostólico às consagrações episcopais anunciadas pela Fraternidade Sacerdotal São Pio X (FSSPX).
O gesto não é pequeno. E o momento, menos ainda.
O ponto central: cisma ou ponte?
O Vaticano já havia advertido que consagrações sem mandato pontifício poderiam configurar ruptura decisiva da comunhão eclesial. Dom Schneider, porém, sustenta que a questão é mais profunda do que um simples enquadramento jurídico.
Para ele, reduzir o problema a uma leitura puramente canônica ignora a tradição histórica da Igreja e o contexto atual de crise doutrinal e litúrgica.
Segundo o bispo, equiparar automaticamente desobediência disciplinar a cisma é um erro teológico e histórico. Ele recorda que, durante séculos, a nomeação e consagração de bispos não seguiam o modelo centralizado que hoje conhecemos.
A crítica à “ambiguidade”
No texto, Dom Schneider afirma que a raiz do impasse está nas ambiguidades de certas formulações do Concílio Vaticano II, especialmente em temas como liberdade religiosa, ecumenismo e colegialidade.
Ele não acusa o Concílio de heresia. Mas aponta que a opção por uma linguagem pastoral, sem definições dogmáticas, abriu espaço para interpretações divergentes ao longo das décadas.
E aqui está o ponto sensível: se o próprio Concílio não se apresentou como definidor de novos dogmas, por que exigir adesão absoluta a cada formulação pastoral como condição mínima de comunhão?
Essa é a pergunta que ele coloca — direta, sem rodeios.
A carta ao Papa
O apelo ao Papa Leão XIV é claro: conceder o mandato apostólico não faria a Igreja perder nada. Pelo contrário, seria um gesto de paternidade e magnanimidade pastoral.
Dom Schneider argumenta que milhares de fiéis ligados à FSSPX amam a Igreja, reconhecem o Papa e desejam permanecer dentro da comunhão católica. Empurrá-los para um isolamento definitivo seria, segundo ele, uma tragédia histórica.
Ele evoca inclusive palavras de Bento XVI, que advertia que, ao longo da história, muitas divisões se agravaram porque autoridades eclesiásticas não fizeram o suficiente para manter a unidade.
O peso histórico do momento
Não estamos mais falando de um fenômeno passageiro.
A FSSPX já atravessa gerações. Possui centenas de sacerdotes, seminaristas, escolas e presença em dezenas de países. Ignorar essa realidade não a fará desaparecer.
A decisão agora está nas mãos do Papa.
Se conceder o mandato, inaugura um novo capítulo de reconciliação prática.
Se negar, o risco é consolidar uma divisão que poderá marcar seu pontificado.
Mais que disciplina, é eclesiologia
O debate real não é apenas jurídico. É sobre o que constitui o “mínimo” para a plena comunhão na Igreja.
Essa é a encruzilhada.
E talvez este seja, de fato, um momento providencial — ou uma oportunidade que pode se perder.
Com informações da Diane Montagna.