Consideração: o caminho interior que conduz à Pátria

Fotografia: CS-BB.

Um comentário

A Quaresma não é um intervalo decorativo no calendário litúrgico. É deserto. É poda. É ajuste de rota. E aqui entra a palavra-chave de São Bernardo: consideração.

Não é mera reflexão intelectual. Não é curiosidade teológica. É uma busca da verdade nas dobras concretas da vida — ali onde as decisões pesam, onde as responsabilidades apertam, onde o coração oscila entre Deus e mil distrações. Contemplar é saborear o que já sabemos de Deus. Considerar é procurar Deus onde ainda não O percebemos.

E sejamos francos: o drama não está na falta de informação espiritual. Está na falta de interioridade.

Bernardo escreve a um Papa. Mas a exortação serve a qualquer alma que tenha recebido uma responsabilidade — e todo batizado recebeu. Ele não propõe reformas estruturais primeiro. Ele propõe homens santos. Gente que reza. Gente obediente. Gente silenciosa. Gente que prefere a unidade à própria opinião.

Isso é radical. Porque desmonta nossa obsessão moderna por métodos, estratégias e eficiência.

Na lógica bernardina, a Igreja só é forte quando é parecida com o céu. Quando sua organização reflete as hierarquias angélicas — ordem que nasce da adoração. Se perdemos a primazia da glória de Deus, tudo vira burocracia religiosa.

A Quaresma é justamente o tempo de recuperar essa hierarquia interior.

Considerar é voltar para casa

Bernardo diz algo que parece paradoxal: considerar as coisas do alto não é exilar-se do mundo, é retornar à pátria.

Aqui está o núcleo místico.

O pecado nos desloca. Nos descentra. Nos faz viver fora de nós mesmos. A dispersão é a marca do homem caído. Mil pensamentos, mil desejos, mil urgências. Mas nenhum centro.

Considerar, no sentido espiritual, é recolher-se. É perguntar:

— Onde Deus está nesta situação?
— Onde está a eternidade neste problema concreto?
— Onde está a glória divina neste conflito humano?

Isso é profundamente carmelitano. O deserto não é fuga, é realinhamento. O silêncio não é ausência, é presença densificada.

Quanto mais consideramos segundo Deus, mais a alma se dilata para recebê-Lo. E aqui entra uma das intuições mais belas do texto: Deus nos criou para desejá-Lo. Ele mesmo amplia nossa capacidade de recebê-Lo.

Não somos nós que escalamos o céu. É Deus que alarga o coração.

O peso que se torna leve

Santo Agostinho fala da sarcina, o fardo episcopal. A imagem é dura: mochila de legionário em campanha no deserto. Poeira, cansaço, medo. Não é uma espiritualidade açucarada.

Mas ele vira a chave: o peso depende do amor.

“Se amas, é leve. Se odeias, é pesado.”

Isso não é psicologia motivacional. É metafísica da caridade.

O jugo de Cristo é suave não porque elimina a cruz, mas porque transforma o sujeito que a carrega. A cruz permanece cruz. O que muda é o coração.

E aqui a Quaresma é decisiva: ou aprendemos a amar a vontade de Deus ou viveremos ressentidos com ela.

Sem amor, o ministério vira opressão.
Sem amor, a vida religiosa vira formalismo.
Sem amor, a disciplina quaresmal vira dieta espiritual.

Mas com amor?
O fardo brilha.

A prioridade esquecida

Bernardo insiste: antes de qualquer assunto prático, considerai quem é Deus.

Onipotente vontade.
Virtude benevolente.
Razão imutável.
Suprema bem-aventurança.

Não é poesia vazia. É ordem espiritual. Se Deus não ocupa o primeiro lugar na consideração, tudo o mais desordena.

A crise contemporânea — e aqui precisamos ser honestos — não nasce da falta de atividade, mas da falta de primazia de Deus.

A Quaresma é o retorno ao essencial.

Jejum para purificar o desejo.
Silêncio para purificar a palavra.
Esmola para purificar o apego.
Oração para recentrar o coração.

Sem isso, falamos de Deus como gestores. Com isso, falamos como amigos do Esposo.

E o prelado — diz Bernardo — deve ser justamente isso: amigo do Esposo. Não dono da Esposa.

Que correção sutil e potente.

A lógica do depósito

“Teu é o depósito que nos foi confiado.”

Nada é nosso. Nem a missão. Nem os talentos. Nem os frutos. Somos guardiões provisórios de um tesouro eterno.

Essa consciência muda tudo. Tira o peso do ego. Tira a ansiedade pelo controle. Tira o medo do fracasso.

Se tudo é depósito, tudo será devolvido.

E a pergunta quaresmal ecoa:
Como estou guardando o que me foi confiado?

A mística da consideração

No fim, considerar é um ato de amor lúcido. É recusar a superficialidade. É olhar para a realidade com olhos transfigurados.

É viver na terra com o coração no céu — não por alienação, mas por fidelidade.

A Quaresma nos chama a isso:
Menos ruído.
Mais interioridade.
Menos estratégia.
Mais santidade.
Menos ansiedade pastoral.
Mais confiança orante.

Porque, no fim das contas, a Igreja só brilha quando reflete o Céu.

E a alma só encontra descanso quando retorna à Pátria.

Que esta Quaresma não seja apenas observância exterior, mas retorno real. Que aprendamos a considerar — até que nossa própria vida se torne um hino silencioso à glória de Deus.

Texto traduzido na íntegra em PTBR

Sobre a Consideração

Da décima conferência do Retiro Quaresmal desta semana. Texto italiano abaixo.

São Bernardo escreveu um tratado intitulado Sobre a Consideração. Foi a obra sua que alcançou maior difusão. Isso pode parecer estranho, pois o texto é, na essência, uma carta dirigida a uma pessoa concreta, colocada numa situação singular. Bernardo a escreveu para um confrade seu, um monge italiano chamado Bernardo dei Paganelli que, já sacerdote da Igreja de Pisa, havia ingressado em Claraval em 1138.

Em 1145, Paganelli tornou-se o Papa Eugênio III.

Enquanto a contemplação trata de verdades já conhecidas, a consideração, no vocabulário de Bernardo, busca a verdade nos assuntos humanos contingentes, onde pode ser difícil percebê-la. Pode-se defini-la como “o pensamento que busca a verdade, ou o exame da mente para descobrir a verdade”.

Ao considerar os problemas da Igreja, Bernardo não oferece remédios institucionais. Antes, aconselha Eugênio a cercar-se de boas pessoas. Quanto melhor forem conduzidos os órgãos centrais da Igreja, maior será o benefício para a Igreja no mundo inteiro.

As qualidades que Bernardo pede que ele procure e cultive são perenes. São necessários colaboradores “de santidade comprovada, pronta obediência e paciente silêncio; […] católicos na fé, fiéis no serviço; inclinados à paz e desejosos de unidade; […] prudentes no conselho, […] diligentes na organização […], modestos na palavra”.

Tais pessoas “dedicam-se habitualmente à oração e, em todo empreendimento, depositam mais confiança nela do que em sua própria indústria ou trabalho. Sua chegada é pacífica; sua partida, discreta”.

Na medida em que a Igreja operar nesses termos, refletirá a organização das hierarquias angélicas. Quem assim a considerar verá então sua missão principal: dar glória a Deus.

Para considerar corretamente as necessidades terrenas, devemos buscar, através delas, aquilo que está acima. Isso não é, diz Bernardo a Eugênio, “ir para o exílio: considerar desse modo é retornar à pátria”.

Bernardo pergunta a si mesmo: O que é Deus? Vontade onipotente, virtude benevolente, razão imutável. Deus é a “suprema bem-aventurança” que, por amor, deseja compartilhar conosco sua divindade. Ele nos criou para desejá-lo. Dilata-nos para recebê-lo, justifica-nos para merecê-lo. Conduz-nos na justiça, molda-nos na benevolência, ilumina-nos com o conhecimento, preserva-nos para a imortalidade.

Seja qual for o mais que os prelados tenham de considerar — e é muito —, devem considerar essas coisas antes de tudo. Assim, também sua consideração dos assuntos práticos será iluminada, ordenada e abençoada.

Um prelado deve, na visão de Bernardo, ser íntegro, santo e austero. Mas deve também ser amigo do Esposo, alegrando-se em partilhar essa amizade com os outros.

Agostinho gostava de descrever o ofício episcopal como uma sarcina, a mochila de um legionário. É uma imagem crua, concebida por alguém que conhecia a desolação e o medo das campanhas no deserto norte-africano. Contudo, ele mesmo desenvolve essa imagem. Embora o fardo pastoral tenha um aspecto temível, ele é temível apenas se deixarmos de perceber quem o coloca sobre nossos ombros. Pois ele é também participação no suave jugo de Cristo, que nos permite descobrir que a trave da cruz confiada a nós é luminosa e leve, que ter parte nela é fonte de alegria.

Agostinho escreveu certa vez: Perduc sarcinam tuam quia levis est si diligis gravis si odisti, isto é: “Leva teu próprio fardo até o fim. Se o amares, será leve. Se o odiares, será pesado.”

“Teu, ó bom Jesus”, escreveu Bernardo na Vida de São Malaquias, o Irlandês, “é o depósito que nos foi confiado; teu o tesouro escondido em nossa posse, para ser devolvido no tempo que determinares para reclamá-lo.”

Texto traduzido na íntegra do sítio: Coram Fratribus.

Ir. Alan Lucas de Lima, OTC
Carmelita Secular da Antiga Observância