Por que os cardeais elegem o Papa? Uma viagem pela história da eleição papal
A eleição do Papa é uma das cerimônias mais solenes e
simbólicas da Igreja Católica. Mas por que são os Cardeais que elegem o Sucessor
de Pedro? E por que essa eleição exige uma maioria de dois terços? Prepare-se
para uma jornada que mistura fé, política, e até um pouco de drama medieval
digno de série da Netflix.
1. As origens: dos apóstolos aos cardeais
Nos primeiros séculos do Cristianismo, os Bispos de Roma (o
Papa) eram escolhidos pelo Clero local, com participação do povo e dos Bispos
vizinhos. Era algo comunitário, quase democrático para os padrões da época. Mas
à medida que o Cristianismo cresceu e ganhou poder político, a coisa começou a
se complicar.
Durante a Idade Média, reis e imperadores passaram a
intervir diretamente na escolha do Papa. Era comum ver influências externas
decidindo quem sentaria na Cátedra de Pedro. Essa interferência provocava
confusões, cismas e escândalos.
Foi então que veio o Papa Nicolau II, que em 1059,
por meio do decreto In Nomine Domini, definiu que apenas os Cardeais-Bispos
teriam o direito de eleger o Papa. Os demais cardeais (Presbíteros e Diáconos)
passaram a participar também com o tempo. Esse foi o embrião do sistema que
temos hoje.
2. Conclave: com chave, sem confusão
Mesmo com os cardeais no comando, as eleições papais ainda
podiam demorar uma eternidade. O caso mais icônico foi o de 1268 a 1271,
quando os cardeais levaram três anos para eleger o Papa. O povo da
cidade de Viterbo (onde acontecia o conclave) ficou tão revoltado que trancou
os cardeais numa sala, cortou comida e até arrancou o telhado para ver se
se decidiam logo.
Esse episódio traumático levou o Papa Gregório X, no Concílio
de Lyon (1274), a estabelecer o que hoje chamamos de conclave (do
latim cum clave, “com chave”). A regra era clara: os Cardeais ficariam
trancados até elegerem o novo pontífice, com alimentação e conforto bem
limitados.
3. Dois terços: o peso do consenso
Por que dois terços dos votos? Porque a Igreja não é uma
democracia comum. O Papa é visto como o Vigário de Cristo na Terra, e sua
escolha precisa refletir algo mais do que uma simples maioria. A regra dos dois
terços busca evitar divisões e garantir um consenso sólido, inspirado na
ação do Espírito Santo.
Esse número foi adotado no mesmo Concílio de Lyon e
permanece até hoje, mesmo com algumas variações temporárias (como as tentativas
de João Paulo II de mudar para maioria simples, que Bento XVI depois revogou).
4. O que acontece hoje
Atualmente, o processo é altamente regulamentado. O conclave
ocorre na Capela Sistina, com até 120 cardeais eleitores (com menos de 80
anos). As votações acontecem em sigilo absoluto, com segurança de nível quase
militar. São feitas duas votações pela manhã e duas à tarde até que alguém
alcance os dois terços.
Quando um Papa é eleito, ele é perguntado: “Aceita sua
eleição como Sumo Pontífice?” Se sim, escolhe um nome e veste o branco.
Fumaça branca sobe, o sino toca, e o mundo ouve: “Habemus Papam!”
5. Reflexão final: entre Céu e terra
A eleição papal é um ato profundamente espiritual, mas não
se engane: é também um evento humano, com suas tensões, alianças e esperanças.
Ao exigir dois terços dos votos, a Igreja reconhece que a unidade não pode ser
forçada, mas construída. No silêncio da Capela Sistina, entre afrescos e
preces, os Cardeais não apenas votam: eles escutam, debatem e, com a ajuda
divina (e uma boa dose de história nas costas), tentam escolher um homem que
seja, ao mesmo tempo, pastor, pai e pescador de homens.
“Não fostes vós que me escolhestes, mas fui Eu que vos
escolhi.” (Jo 15,16)
Por um Carmelita Secular da Antiga Observância
Referências bibliográficas
- Duffy, Eamon. Santos e Pecadores: A História dos Papas. São Paulo: Loyola, 2006.
- Jedin, Hubert (org.). História da Igreja. Petrópolis: Vozes, vol. IV, 1991.
- Pastor, Ludwig von. História dos Papas. São Paulo: Paulinas, 1990.
- Catecismo da Igreja Católica. Edição típica vaticana.
- Código de Direito Canônico, Cânones 332-335.