Quando o mundo tenta prever o Papa: estatísticas, apostas e a soberania de Deus
Desde os primórdios da modernidade, quando a imprensa passou
a cobrir os Conclaves com uma paixão quase esportiva, surgiu também a tentadora
ideia de “prever o próximo Papa”. Ora, à semelhança dos mercados financeiros,
casas de apostas e especialistas tentam antecipar a decisão do Colégio dos
Cardeais. Mas não raro, o resultado escapa a todas as projeções. Por quê?
Porque Deus não joga segundo estatísticas. O Espírito sopra onde quer (Jo 3,8).
I. O jogo humano da previsão e a lógica divina da escolha
O ser humano moderno gosta de controle. E previsões são
tentativas de domar o futuro. Mas na História da Igreja, os Conclaves são,
antes de tudo, espaços de escuta e docilidade ao Espírito Santo. A tentativa de
prever o Papa é um sintoma do secularismo: transforma um evento espiritual em
mero jogo de poder e probabilidade.
Durante o Conclave de 2005, quase todos apostavam no Cardeal
Martini, considerado progressista, ou em Arinze, como possibilidade de ruptura
simbólica. Ratzinger era citado, mas tratado como “transição”. Deu Bento XVI.
Em 2013, falavam de Scola, Scherer e Ouellet. Deu Francisco. Agora, em 2025,
repetem-se as bolsas de apostas: Turkson, Tagle, Zuppi, Parolin..., mas a
história ensina: raramente os favoritos vencem.
II. A soberania divina e os caminhos inesperados da Graça
A Tradição Católica insiste: o Papa é eleito pelos Cardeais,
sim, mas sob a Ação da Graça. Não há um algoritmo divino, mas também não é um
sorteio aleatório. Deus age através da liberdade humana, mas essa liberdade
está convidada a se abrir à vontade do Alto. Quando o mundo espera um CEO ou um
diplomata, Deus pode suscitar um místico, um pastor, ou um improvável.
Em 1958, Angelo Roncalli era considerado velho demais e foi
escolhido como “papa de transição”. Tornou-se João XXIII, convocou o Concílio
Vaticano II e mudou a história da Igreja. A Graça surpreende. E as estatísticas
ficam ridículas diante dela.
III. A mercantilização da esperança e o escândalo das apostas eclesiásticas
Vivemos numa cultura que transforma tudo em produto. A
espiritualidade vira curso on-line. O Conclave vira “corrida papal”. As
casas de apostas como Paddy Power e Betfair lucram em cima da expectativa
popular. Isso é mais do que mundanismo: é blasfêmia travestida de
entretenimento.
A lógica da Igreja é outra: “Non ministrari, sed
ministrare” (Mt 20,28). Quem quiser ser o primeiro, seja o último. O Papa
não é uma celebridade a ser eleita por marketing. É o Servo dos servos
de Deus. Transformar sua eleição num palpiteiro global é esquecer que estamos
falando do Vigário de Cristo na terra, não de um presidente da ONU.
Conclusão: uma Igreja guiada pelo inesperado
As apostas erram porque querem antecipar a lógica do Céu com
os cálculos da terra. A História da Igreja é cheia de surpresas providenciais.
Talvez por isso mesmo seja divina. A prudência nos convida a rezar mais do que
especular. Confiar mais do que projetar. Esperar, de joelhos, o nome que Deus
quiser dar à sua Igreja neste tempo.
Referências bibliográficas
- Ratzinger, Joseph. Chamados para a comunhão: compreensão do ministério petrino. Ed. Loyola, 2001.
- Weigel, George. The Next Pope. Ignatius Press, 2020.
- Greschat, Martin. Conclaves: Os bastidores da escolha papal. Paulus, 2005.
- Catecismo da Igreja Católica, n. 882-884.
- Evangelho segundo São João, 3,8; Evangelho segundo São Mateus, 20,28.