UMA PRESENÇA AMOROSA: MARIA E O CARMELO


Disponho a todos os leitores do meu blogue um breve resumo de um tema abordado em nossa formação para os irmãos da Ordem Terceira do Carmo, Fraternidade da Campanha, MG. Este estudo reflete sobre aspectos essenciais da nossa espiritualidade mariana carmelitana proporcionando um aprofundamento na vivência da vocação carmelitana no mundo atual. Que esta partilha possa iluminar o caminho de cada irmão e irmã, fortalecendo nosso compromisso com a fé e o serviço.

Introdução

Maria e o Carmelo estão profundamente ligados. A Ordem Carmelita, desde suas origens, desenvolveu uma espiritualidade mariana rica e singular, que se tornou parte essencial de sua identidade. Contudo, essa herança mariana não pode ser desenvolvida de forma abrangente e isoladamente. Ela precisa ser situada dentro do contexto mais amplo da história da Igreja e das reflexões teológicas sobre Maria ao longo dos séculos.

De fato, o carisma mariano carmelitano evoluiu em diálogo constante com os avanços doutrinários e as descobertas espirituais da Igreja universal. Cada época trouxe novas perspectivas sobre Maria, novos títulos e novas formas de devoção. As carmelitas participaram desse processo, contribuindo para ele e sendo influenciadas históricas por ele.

Para compreender melhor essa relação dinâmica entre a Ordem Carmelita e a mariologia da Igreja, é importante considerar alguns momentos-chave:

As origens no Monte Carmelo (séculos XII-XIII)

Desde o início, as primeiras eremitas do Monte Carmelo dedicaram-se à Virgem Maria como modelo de contemplação e pureza. Embora inicialmente não houvesse uma formulação explícita detalhadamente dessa devoção, ela já estava presente implicitamente na vida cotidiana dos primeiros monges.

A Idade Média tardia (séculos XIII-XV)

Nesse período surgem textos fundamentais como as Constituições de Londres (1281), as Instituições dos Primeiros Monges e autores como Jean de Cheminot e Arnold Bostius. Aqui vemos claramente a evolução da reflexão mariana carmelitana: Maria é apresentada como modelo perfeito de pureza, obediência e contemplação. É também nesse período que surge a tradição do Escapulário ligado à figura de São Simão Stock.

O Renascimento e a Reforma Católica (séculos XVI-XVII)

Com o Concílio de Trento (1545-1563) e a renovação espiritual promovida pela Contrarreforma, a devoção mariana ganha novo impulso na Igreja inteira. As carmelitas participam desse movimento através das reformas teresianas (Santa Teresa d’Ávila) e sanjoanistas (São João da Cruz). A espiritualidade mariana torna-se ainda mais profunda, interiorizada e mística.

Os séculos XVIII-XIX: Dogmas Marianos

No século XIX ocorre um grande avanço na mariologia católica com a proclamação do dogma da Imaculada Conceição (1854). As carmelitas acolhem com entusiasmo esse desenvolvimento doutrinal que confirma aquilo que já vivia há séculos em sua espiritualidade própria: Maria como pura desde sua concepção.

Século XX até hoje: Vaticano II e Mariologia contemporânea

O Concílio Vaticano II (1962-1965) trouxe uma nova visão sobre Maria inserida no mistério de Cristo e da Igreja (“Lumen Gentium”, capítulo VIII). Essa perspectiva renovou profundamente a compreensão mariana na Ordem Carmelita, enfatizando Maria como modelo perfeito do discípulo cristão — humilde serva do Senhor que escuta atentamente a Palavra divina.

Esses momentos históricos mostram claramente que o carisma mariano carmelitano não é estático nem isolado; pelo contrário, ele cresce continuamente em diálogo com toda a Igreja.

Nos capítulos seguintes discutiremos cada um desses períodos históricos mencionados acima, destacando especialmente os temas centrais que moldaram nossa herança mariana ao longo dos séculos. Assim poderemos compreender melhor como nossa tradição particular se insere no contexto maior da caminhada histórica da Igreja rumo à plenitude do mistério revelado em Cristo através de Maria.

História Inicial

A trajetória histórica de uma ordem de eremitas, que teve sua origem em Monte Carmelo, no final do século XII, quando solicitaram a Alberto de Jerusalém uma Regra de Vida (entre 1206 e 1214). Devido às hostilidades sarracenas, os eremitas deixaram a Terra Santa por volta de 1235 e estabeleceram-se na Europa, onde tentaram manter seu modo de vida, mas precisaram adaptar a Regra em 1247, com o auxílio do Papa Inocêncio IV.

Na Europa, a ordem enfrentou diversas dificuldades: era vista como um grupo desconhecido vindo do Oriente, contava com pouco apoio das autoridades seculares e eclesiásticas e adotava um hábito religioso peculiar (um manto listrado, que em 1287 foi substituído por um manto branco após o capítulo geral de Montpelier). Além disso, sua fundação recente ia de encontro às diretrizes do Quarto Concílio Lateranense (1215), que proibiu a criação de novas ordens. Para contornar essa restrição, os eremitas utilizaram a Regra de Alberto, demonstrando suas origens remotas através da referência ao profeta Elias.

A situação da ordem permaneceu incerta até 1274, quando o Segundo Concílio de Lião permitiu sua continuidade provisória, e só em 1298 Bonifácio VIII removeu a ameaça à Ordem. Em 1326, João XXII consolidou seus privilégios com a bula “Super cathedram”, similar aos concedidos a franciscanos e dominicanos. A Ordem sofreu ataques constantes, como o debate na Universidade de Cambridge em 1374, onde suas tradições e devoção foram contestadas, levando a uma série de escritos apologéticos que defenderam a tradição de Elias e a legitimidade da Ordem.

A mariologia carmelitana – Uma palavra de admoestação

A questão da identidade carmelitana, destacando que, por não ter um fundador específico, a Ordem sempre enfrentou desafios nesse aspecto. Embora seja natural que os carmelitas enfatizem suas particularidades, o erro seria afirmar que o que é autenticamente carmelitano não possa ser partilhado por outras ordens religiosas.

Uma abordagem errada seria tentar definir a identidade carmelitana eliminando tudo o que é comum a outras ordens, pois isso levaria a ignorar aspectos essenciais, como as Escrituras, os sacramentos, os dogmas e os votos, que são fundamentais para toda a Igreja. Mesmo que os carmelitas tenham uma compreensão particular sobre alguns desses pontos, o que compartilham com a Igreja continua sendo mais relevante do que o que é exclusivamente deles.

Se a busca se restringisse ao que é unicamente carmelitano, sobrariam apenas alguns hinos, textos espirituais e uma visão específica de Elias e Maria, o que não teria base histórica no sentido moderno. Em vez disso, o foco deve estar na experiência mariana vivida pela Ordem, sem preocupação com o que é compartilhado com outras ordens.

Para ilustrar essa ideia, contextualizamos a analogia de três construtores que recebem os mesmos materiais para construir casas distintas, dependendo da ênfase que dão a cada elemento. Da mesma forma, as ordens medievais compartilham os mesmos fundamentos na mariologia, mas cada uma organiza esses elementos de maneira única. Assim, a tentativa dos carmelitas deve ser compreender sua experiência particular de Maria dentro desse contexto mais amplo, o que leva à necessidade de um estudo da mariologia medieval.

A Mariologia Medieval

O século XIII como um período de grande transformação cultural e intelectual, marcado pelo auge do escolasticismo, a construção de catedrais, a efervescência mística e novas formas de vida religiosa. Nesse contexto dinâmico, a mariologia medieval refletiu e também contribuiu para esses avanços.

As catedrais medievais, em particular, desempenharam um papel fundamental na expressão artística e teológica da devoção mariana. Seus vitrais, como os de Chartres, narravam a história da salvação desde o Antigo Testamento, apresentando Maria como prefigurada nas Escrituras hebraicas e como figura central no Novo Testamento. Assim, a arte sacra não apenas adornava os templos, mas também transmitia a doutrina e reforçava a importância de Maria na tradição cristã.

Doutrina

O século XIII foi um período crucial para a consolidação e defesa das grandes verdades sobre Maria. A Maternidade Divina já era reconhecida desde o Concílio de Éfeso (431), enquanto a Assunção e a Virgindade Perpétua de Maria tinham respaldo litúrgico e conciliar desde os séculos VI e VII. O Quarto Concílio Lateranense (1215) reafirmou a crença na virgindade de Maria ao enfrentar heresias como o catarismo. A Imaculada Conceição, embora amplamente aceita, encontrou resistência entre alguns teólogos, especialmente seguidores de Tomás de Aquino, mas sua celebração litúrgica já acontecia desde o século XII.

Além desses dogmas, outras crenças marianas se fortaleceram. A ideia da união de Maria com Cristo na Redenção foi desenvolvida por São Bernardo, Santo Alberto Magno e São Boaventura. A doutrina da mediação mariana começou a ser esboçada, e a maternidade espiritual de Maria – como Mãe da Igreja e de todos os fiéis – ganhou maior clareza a partir do século XI, impulsionada por teólogos como Anselmo de Lucca e Rupert de Deutz, baseando-se na cena da cruz (João 19,25-28a). A realeza de Maria também foi amplamente reconhecida nos sermões e hinos, sendo uma devoção presente tanto no Oriente quanto no Ocidente e consolidada no século XIII.

Devoção

A riqueza das orações e devoções marianas no século XIII, destacando a presença de diversos santuários marianos, como Walsingham (1061) e Glastonbury (século VII, reconstruído em 1186), além de Einsiedeln, na Suíça (século X). A produção poética mariana em línguas vernáculas também se intensificou a partir do século XII.

As devoções a Maria, já consolidadas no período carolíngio, incluíam orações reunidas em coleções como o “Libellus sacrarum precum” (século IX) e os “Livros das Horas”, cuja base era o Pequeno Ofício da Virgem, promovido por São Pedro Damião (†1072). No século XIII, muitas dessas orações foram incorporadas à liturgia e às práticas dos carmelitas.

A primeira parte da Ave Maria já era conhecida desde o século VII, e o acréscimo do nome “Jesus” pode ter ocorrido no tempo de Urbano IV (†1264), enquanto a segunda parte surgiu no século XV. Hinos como Ave maris stella (século IX) e as quatro antífonas marianas (Alma Redemptoris Mater, Salve Regina, Ave Regina Cælorum e Regina Cœli) já eram recitados.

Outras devoções populares incluíam as ladainhas marianas, como a de Loreto (século XII), e as saudações marianas, que levaram à formação do Rosário no século XV. Também surgiram as coleções das Alegrias e Dores de Maria (século XII) e a Stabat Mater (final do século XIII). O costume de recitar três Ave Marias à noite pode remontar ao século XI, e Gregório IX (†1241) ordenou o toque dos sinos para incentivar essa prática durante as Cruzadas.

A veneração mariana se manifestou ainda em legendas e relatos sobre Maria, como o Liber de miraculis santæ Dei genetricis Mariæ (século XI), além de irmandades marianas que surgiram na França e Itália no século XIII. No contexto carmelitano, E. Boaga enfatiza a importância dos santuários e lugares sagrados na Palestina associados a Maria, que mais tarde ajudariam a consolidar sua escolha como Protetora do oratório do Monte Carmelo.

A Escravidão de Maria

No século XI, da devoção que mais tarde seria conhecida como “escravidão de Maria”. São Bernardo referia-se a si mesmo como servulus (pajem de Maria), o que demonstra a crescente ideia de total entrega e serviço à Virgem. Essa concepção influenciaria fortemente a espiritualidade carmelitana, especialmente no conceito de vassalagem a Maria, que se tornaria uma característica marcante da Ordem. Essa devoção enfatizava a submissão filial e amorosa à Mãe de Deus, fortalecendo o laço espiritual entre Maria e os fiéis.

Não só os carmelitas

Os carmelitas, ao migrarem para a Europa, adotaram muitas práticas e crenças marianas já existentes. Assim, limitar-se apenas ao estudo do que é exclusivamente carmelitano pode levar à negligência de uma parte significativa da herança mariana da Ordem. Em vez disso, é fundamental considerar toda a vivência mariana dos primeiros frades carmelitanos, reconhecendo tanto o que era comum a outras ordens quanto o que era específico deles.

Além disso, há paralelos entre os carmelitas e outras ordens, como os cistercienses, os cônegos premonstratenses e os dominicanos. Isso sugere que a identidade carmelitana deve ser compreendida dentro de um contexto mais amplo, analisando suas primeiras Constituições e títulos para definir melhor suas particularidades.

O Século XX

O “Movimento Mariano” no século XX, que foi um período de grande fervor devocional, com congressos, escritos e um crescimento significativo da devoção a Maria. Esse movimento culminou com a definição do dogma da Assunção (1950) e o Ano Mariano (1954), mas, após esse auge, houve um declínio, apesar de importantes ensinamentos do Vaticano II, como os documentos de Paulo VI (Marialis Cultus, 1974) e João Paulo II (Redemptoris Mater, 1987), que levaram a uma gradual recuperação da devoção mariana.

Dentro da Ordem Carmelita, o ano de 1950 foi um marco, com o forte apoio de Pio XII à devoção ao Escapulário na carta Neminem profecto latet. No entanto, os anos seguintes testemunharam uma revisão crítica sobre a historicidade da visão do Escapulário, com estudiosos questionando sua autenticidade, embora as crenças da Ordem sobre o Escapulário tenham permanecido firmes, especialmente devido aos esforços de defensores como B. M. Xiberta. Além disso, o Privilégio Sabatino foi alvo de controvérsias, sendo considerado uma invenção medieval. A revisão do Calendário para a Igreja Universal na década de 1970 resultou na omissão da festa de Nossa Senhora do Monte Carmelo.

Apesar desse declínio, houve uma recuperação gradual da consciência mariana carmelitana, especialmente a partir do Capítulo Geral Extraordinário de 1968, que apresentou Maria nos termos do Vaticano II e reafirmou o significado do Escapulário. O Capítulo Geral de 1971, juntamente com a revisão do Missal Romano em 1969 e a restauração da celebração de Nossa Senhora do Monte Carmelo, mostrou um esforço renovado para preservar e aprofundar a devoção mariana.

A partir da década de 1980, a mariologia carmelitana se viu em crescente desenvolvimento, com congressos marianos sendo realizados na Ordem, incluindo três em 1989, e uma conferência em 1998 nos Estados Unidos. Isso demonstra que o tempo atual é propício para redescobrir e apresentar novamente o carisma mariano da Ordem Carmelitana de forma relevante para a Igreja contemporânea.

O artigo visa explorar as origens e o desenvolvimento desse carisma mariano, analisando os documentos oficiais da Ordem desde o Vaticano II e abordando as perspectivas mariológicas contemporâneas, sempre buscando integrar a herança carmelitana com as necessidades e desafios atuais da Igreja.

Continuaremos no próximo artigo.

Ir. Alan Lucas de Lima, OTC

Referência bibliográfica

O’DONNELL, Christopher. Uma Presença Amorosa: Maria e o Carmelo – Um Estudo da Herança Mariana na Ordem. Melbourne: Comunicações Carmelitanas, 2000.

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