Caminhos de Elias e Maria: A Inspiração para a Vida Carmelitana


No artigo anterior, abordamos a longa gestação da Regra do Carmo, destacando os acontecimentos marcantes em sua história e sua importância para nós, Terceiros Carmelitas, e para todos que fazem parte da grande Família Carmelitana. Hoje, daremos continuidade a esse percurso histórico, aprofundando nossa compreensão sobre a evolução da Regra do Carmo e seu papel fundamental ao longo dos séculos.

 Prólogo

Regra do Carmo, número 1 a 3

“Viver em obséquio de Jesus Cristo”

Definir o rumo da vida no Carmelo

Texto da Regra

  1. Alberto, pela graça de Deus, chamado a ser Patriarca da Igreja de Jerusalém, aos amados filhos em Cristo B. e demais eremitas que, sob a sua obediência, vivem junto à Fonte no Monte Carmelo, a Salvação no Senhor e a Bênção do Espírito Santo.
  2. Muitas vezes e de muitas maneiras os Santos Padres estabeleceram como cada um, qualquer que seja o estado de vida a que pertença ou qualquer que seja o modo de vida religiosa que tenha escolhido, deve viver em obséquio de Jesus Cristo e servi-lo fielmente com coração puro e consciência serena.
  3. No entanto, como vocês nos pedem que, de acordo com a sua proposta, lhes demos uma forma de vida à qual, de agora em diante, devem manter-se fiéis:

Fundação e Espiritualidade: Os Primeiros Carmelitas sob a Orientação de Alberto

Os primeiros carmelitas viveram em comunidade no Monte Carmelo, sob a liderança de B., e buscavam uma nova forma de viver o Evangelho com a aprovação da Igreja. Para isso, redigiram uma proposta que foi apresentada a Alberto, patriarca de Jerusalém. Essa proposta se tornou a base da futura Regra do Carmo, que Alberto aceitou e transformou em uma Forma de Vida, válida não apenas para o grupo inicial, mas também para todos os carmelitas que vieram depois.

Entre 1206 e 1214, durante o período em que Alberto foi Patriarca de Jerusalém, os primeiros carmelitas estabeleceram sua comunidade. Embora o ano exato não seja conhecido, alguns sugerem 1209, mas o número simbólico 40 leva a considerar 1207 como a data mais apropriada. Quarenta anos depois, em 1247, a Forma de Vida proposta por Alberto foi oficialmente aprovada pelo Papa Inocêncio IV como a Regra da Ordem do Carmo. O texto também menciona a importância do número 40 em várias passagens bíblicas, como os 40 anos do povo de Deus no deserto, os 40 dias que Elias passou até a Montanha de Deus, e os 40 dias de jejum de Jesus.

No prólogo, Alberto busca situar os carmelitas na tradição do povo de Deus, apresentando a Regra como uma atualização do Novo Testamento para eles. Ele destaca que a vida comunitária dos carmelitas está alinhada com a tradição dos Santos Padres, que ensinaram a importância de viver em obediência a Jesus Cristo com um coração puro. Alberto menciona a diversidade de formas de vida religiosa da época, como eremitas, romeiros e monges, além das regras de várias ordens. No entanto, ele reconhece que os carmelitas do Monte Carmelo tinham uma proposta nova que não se adequava às regras existentes, refletindo uma maneira distinta de viver o Evangelho.

A novidade do caminho carmelita será apresentada na Forma de Vida, que se tornará a Regra do Carmo, a mais curta de todas as existentes na Igreja. Essa Regra é adaptável a todos os carmelitas, independentemente de seu estado ou modo de vida religiosa, incluindo homens, mulheres, casados, solteiros, frades, sacerdotes, irmãs de clausura, leigos e membros do clero, assim como aqueles de diferentes ordens e associações inspiradas na Regra. Até hoje, todos se reúnem em torno dessa mesma fonte, buscando saciar sua sede de Deus, justiça e fraternidade.

Alberto escreve uma carta aos “amados filhos em Cristo B. e demais eremitas” no Monte Carmelo. A identidade do filho B. é incerta, podendo ter um significado simbólico. Ao ler a Regra de Santo Alberto, cada leitor pode interpretar a letra B. como a inicial de seu próprio nome, tornando-se assim o destinatário da mensagem. Isso reflete a ideia de que as instruções contidas na carta são relevantes para todos os que vivem atualmente. Como dizia São Paulo a respeito do Antigo Testamento: “tais coisas foram escritas para nossa instrução, a nós que estamos vivendo neste fim dos tempos!” (1Cor 10,11).

Caminhos de Contemplação: O rumo da Regra do Carmo em nossas vidas

A Regra do Carmo orienta os cristãos a viverem “em obséquio de Jesus Cristo”, uma expressão que remete à nova forma de Vida Religiosa dos mendicantes na Igreja. Na época, essa expressão era usada para descrever a servidão a senhores feudais, mas os carmelitas e outros religiosos buscavam romper com essa realidade, peregrinando até a Terra Santa para servir a Jesus, o verdadeiro Senhor. Viver em obséquio de Jesus reflete a profundidade do chamado de seguir Jesus nos Evangelhos, destacando alguns aspectos importantes:

Imitando o exemplo do nosso Mestre

Imitar o exemplo de Jesus é fundamental para os cristãos, pois, na época dele, os discípulos viam seus mestres como modelos de vida a serem seguidos. A convivência diária permitia um confronto constante entre o discípulo e o mestre. Na "escola de Jesus", a única matéria é Ele mesmo. Para seguir esse caminho hoje, é necessário uma leitura constante e orante dos Evangelhos, conforme mencionado na Regra do Carmo (RC 10), para conhecer melhor Jesus e imitá-lo em nossas vidas.

Vivendo o destino do nosso Mestre

No tempo de Jesus, seguir um mestre significava acompanhá-lo em todos os momentos, mesmo nos mais difíceis e sacrificiais. Os discípulos eram chamados a se comprometer com Jesus, enfrentando tentações, perseguições e até a morte. Atualmente, na América Latina, seguir Jesus implica fazer uma opção pelos pobres, conforme o que o Evangelho e a Igreja nos pedem, sem temer as consequências dessa escolha.

A Vida de Jesus em nós: um Chamado à transformação interior

Depois da Páscoa, a ressurreição de Jesus trouxe uma nova dimensão à vida cristã: a dimensão mística, que é fruto da ação do Espírito Santo. São Paulo expressa isso ao dizer: “vivo, mas já não sou eu, é Cristo que vive em mim” (Gl 2, 20). Ele também fala sobre a importância de “morrer com Cristo a serviço dos irmãos para poder viver com ele na Ressurreição” (Fil 3, 7-12). Hoje, essa vivência exige de nós um exercício contínuo da presença de Deus, o que implica meditar dia e noite na Lei do Senhor (RC 10). Somos chamados a viver em obediência a Jesus Cristo, servindo-o fielmente com um “coração puro e uma consciência serena”. Essa expressão, “coração puro e consciência serena”, vem da primeira carta a Timóteo (1Tm 1, 5), onde Paulo enfatiza a importância de ter intenções sinceras e uma vida moral íntegra ao seguir o caminho do Evangelho. Essa pureza de coração e clareza de consciência são fundamentais para que possamos nos aproximar de Deus e servir aos outros com amor e dedicação. É um convite à autenticidade na nossa fé e no nosso relacionamento com Cristo.

Coração puro, vida plena: o chamado à autenticidade

A reflexão profunda sobre a “pureza de coração” mencionada por Jesus em Mateus 5, 8. Essa pureza é, de fato, o resultado de um processo contínuo de crescimento espiritual e autoconhecimento. Ela nos permite discernir o que é verdadeiramente de Deus em meio a um mundo repleto de distrações e influências que podem nos desviar do caminho.

No contexto atual, onde somos bombardeados por informações e valores muitas vezes contrários ao Evangelho, a purificação do coração se torna ainda mais essencial. É um convite a olhar para a realidade com os olhos de Deus, buscando uma compreensão mais profunda de nós mesmos e da sociedade ao nosso redor. Isso implica desenvolver uma consciência crítica em relação aos sistemas que dominam nossas vidas, como o neoliberalismo, que frequentemente apresenta suas ideologias como verdades absolutas.

A busca pela pureza de coração nos chama a viver com autenticidade e integridade, permitindo que nossa fé se traduza em ações concretas que refletem o amor e a justiça de Deus no mundo. É um desafio constante, mas também uma oportunidade para crescer na fé e na solidariedade com os outros.

A profundidade da consciência serena

A distinção que temos entre “reta consciência” e “consciência serena” é muito significativa. Enquanto a primeira enfatiza a dimensão moral e a correção ética das ações, a segunda sugere uma profundidade espiritual que vai além da mera conformidade com normas morais. A “consciência serena” reflete um estado de paz interior que resulta de um relacionamento autêntico com Deus.

Essa consciência serena é fruto da pureza de coração, que nos permite ver o mundo e a nós mesmos à luz do amor divino. Quando dizemos “vivo, mas já não sou eu; é Cristo que vive em mim” (Gl 2, 20), estamos reconhecendo que nossa identidade e nosso propósito estão enraizados em Deus. Essa transformação nos ajuda a transcender o egoísmo e a buscar uma vida que reflita os valores do Reino de Deus.

Assim, a pureza de coração não é apenas uma questão de moralidade, mas envolve um profundo processo de interiorização e entrega ao Espírito Santo. É essa entrega que gera em nós uma consciência serena, capaz de discernir o que realmente importa e de viver em harmonia com os desígnios divinos. Em um mundo tão agitado e cheio de distrações, cultivar essa consciência serena se torna essencial para nossa vida espiritual e para nosso testemunho cristão.

Caminhos de Elias e Maria: a inspiração para a Vida Carmelitana

A reflexão sobre a Regra do Carmo e sua relação com as figuras de Elias e Maria é profunda e significativa. A ausência explícita dos nomes desses dois grandes personagens da espiritualidade carmelitana na Regra pode ser interpretada como uma forma de enfatizar a experiência direta e pessoal que cada carmelita deve ter com Deus, sem depender de referências externas.

Elias representa a busca pela presença de Deus, a vivência da fé em meio às dificuldades e a confiança na providência divina. Sua frase “Vivo é o Senhor em cuja presença estou” (1Rs 17, 1) nos convida a uma relação íntima e constante com o Senhor. Por outro lado, Maria simboliza a acolhida da palavra de Deus e a disposição para agir conforme Sua vontade, exemplificada na famosa frase “Fazei tudo o que Ele vos disser” (Jo 2, 5).

A metáfora do “pedacinho de terra” sob nossos pés sugere que muitas vezes não percebemos ou valorizamos aquilo que nos sustenta espiritualmente. A Regra do Carmo, ao mencionar a fonte e a capela, nos remete à necessidade de buscar essa sustentação em Deus, que se revela através da oração, da meditação e da vida comunitária.

Assim, viver a Regra não é apenas seguir normas, mas abrir-se para uma experiência transformadora com Deus. É um convite à purificação do coração e à serenidade da consciência, permitindo que a presença divina se manifeste em nossas vidas. Essa vivência autêntica da espiritualidade carmelita nos leva a beber da fonte que é Jesus e a encarnar Sua palavra em nosso cotidiano.

Por Ir. Alan Lucas de Lima, OTC

O texto acima reflete, a partir do livro: MESTERS, Frei Carlos. Ao Redor da Fonte: Um comentário da Regra do Carmo. Belo Horizonte: Província Carmelitana Santo Elias, 2013. 

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