Quando Roma freia e a Alemanha acelera: até quando?
Diário de um Católico na Contrarrevolução – Parte 70
Há momentos na história da Igreja em que o problema não é a falta de clareza, mas a recusa em aceitar a clareza. O drama atual envolvendo alguns bispos alemães parece caminhar exatamente por essa estrada.
Enquanto Roma recorda os limites estabelecidos para as bênçãos a pessoas em situações irregulares, alguns setores da Igreja na Alemanha continuam avançando como se os avisos não existissem. É um espetáculo curioso: recebem uma correção e respondem com uma inovação; recebem um esclarecimento e apresentam uma nova interpretação. É como se a fumaça da confusão insistisse em entrar pelas janelas que a própria autoridade eclesiástica tenta fechar.
As recentes declarações do cardeal Pietro Parolin mostram que a Santa Sé ainda aposta no caminho do diálogo e da correção fraterna. Não se fala em sanções neste momento. Prefere-se a paciência. Prefere-se esperar. Prefere-se acreditar que a razão e a fidelidade acabarão prevalecendo.
A questão é que a paciência é uma virtude quando conduz à conversão. Quando é confundida com permissividade, transforma-se num convite à desobediência.
O que está em jogo não é uma simples disputa administrativa ou uma divergência de opiniões pastorais. Trata-se da própria natureza da missão da Igreja. A Igreja não existe para adaptar a verdade ao espírito do tempo. Existe para converter o espírito do tempo à verdade eterna de Cristo.
Durante dois mil anos, a Igreja ensinou com clareza a doutrina sobre o matrimônio, a moral sexual e a ordem da criação. Não se trata de uma disciplina arbitrária criada por algum pontífice medieval ou por uma comissão teológica qualquer. Trata-se de uma verdade constantemente ensinada pelo Magistério, confirmada pelos santos, defendida pelos mártires e transmitida por gerações inteiras de católicos.
O modernismo, porém, possui uma característica peculiar. Raramente ataca a doutrina de frente. Prefere esvaziá-la por dentro.
Primeiro afirma que nada mudou.
Depois age como se tudo tivesse mudado.
Por fim, acusa de rigidez aqueles que simplesmente continuam acreditando no que sempre foi ensinado.
É um método antigo. São Pio X o conhecia muito bem. Por isso chamou o modernismo de "síntese de todas as heresias". O modernista raramente destrói uma verdade. Ele a redefine até que ela deixe de significar o que significava.
É justamente isso que torna tão delicada a questão das bênçãos promovidas por alguns bispos alemães. O problema não está apenas no gesto externo. Está na mensagem transmitida. Quando uma bênção adquire caráter institucional, ritualizado e permanente, ela inevitavelmente comunica uma aprovação objetiva da situação que está sendo apresentada.
E é exatamente esse ponto que Roma tem procurado recordar.
O mais curioso é observar que aqueles que durante décadas pediram diálogo, escuta e acolhimento demonstram enorme dificuldade em aceitar uma correção quando ela não confirma suas expectativas. Parece que o diálogo é excelente... desde que produza o resultado desejado.
A ironia da situação não passa despercebida.
Os mesmos que afirmam desejar uma Igreja sinodal frequentemente agem como se a única voz que merecesse ser ouvida fosse a deles.
Enquanto isso, muitos fiéis simples assistem a tudo com perplexidade. São pais de família, religiosos, sacerdotes e jovens que apenas desejam permanecer católicos. Não querem reinventar a Igreja. Não querem adaptar o Evangelho às pesquisas sociológicas do momento. Querem simplesmente receber aquilo que seus avós receberam, aquilo que os santos receberam, aquilo que formou a Cristandade.
Talvez por isso a Missa Tradicional continue atraindo tantas almas. Ela não oferece novidades. Não promete reinventar o cristianismo. Não tenta negociar com o mundo moderno. Ela simplesmente aponta para Deus.
Num mundo obcecado pela mudança, a Tradição tornou-se um ato de resistência.
E é justamente por isso que ela incomoda tanto.
A crise atual não é apenas disciplinar. É espiritual. No fundo, a pergunta permanece a mesma desde o Jardim do Éden: devemos obedecer a Deus ou reinterpretar Sua palavra conforme nossos desejos?
Cada geração responde a essa pergunta.
A nossa não será exceção.
Apesar de todas as confusões, há motivos para esperança. A história da Igreja mostra que os períodos de maior turbulência costumam produzir também os maiores santos. Quando a noite parece mais escura, Deus costuma acender luzes inesperadas.
Talvez estejamos vivendo um desses momentos.
Por isso, o dever do católico contrarrevolucionário permanece inalterado: rezar, estudar, resistir, conservar a fé recebida e transmitir intacto o tesouro da Tradição.
As tempestades passam.
Os modismos passam.
As ideologias passam.
Mas a verdade de Cristo permanece.
E quando toda a poeira baixar, não será o espírito do século que julgará a Igreja.
Será a Igreja que continuará julgando o espírito do século à luz do Evangelho eterno.
Por um Católico consciente e atento ao cenário eclesial do Brasil e do Mundo.