A fonte escondida que nunca deixa de jorrar
Há imagens que atravessam os séculos sem perder o frescor. Há palavras que, mesmo pronunciadas em contextos distantes, continuam encontrando morada no coração humano. A referência do Papa Leão XIV a São João da Cruz durante a solenidade de Corpus Christi é uma dessas ocasiões em que a voz da Igreja parece unir passado e presente numa única contemplação.
"Bem sei eu a fonte que mana e corre, embora seja noite."
Não é um verso nascido da comodidade, nem fruto de uma espiritualidade superficial. É o testemunho de um homem que conheceu a noite. A noite da perseguição, da solidão, da incompreensão e do sofrimento. Trancado numa cela escura em Toledo, São João da Cruz contemplou uma realidade que os olhos do corpo não podiam enxergar. Enquanto tudo ao seu redor falava de abandono, sua alma permanecia voltada para uma fonte invisível, mas real.
Essa é uma das grandes lições da espiritualidade carmelitana: Deus não deixa de estar presente porque não o sentimos. A graça não desaparece porque a alma atravessa desertos. A fonte continua correndo mesmo quando a noite parece envolver tudo.
Vivemos numa época fascinada pelo imediato. Queremos respostas instantâneas, experiências intensas e sinais extraordinários. Muitas vezes imaginamos que a presença de Deus deve manifestar-se através de emoções fortes ou acontecimentos extraordinários. Entretanto, os santos do Carmelo ensinam exatamente o contrário. Deus prefere frequentemente o silêncio ao ruído, o escondimento à exibição, a profundidade à superficialidade.
A Eucaristia é talvez a expressão mais perfeita desse mistério. Sob as aparências simples do pão consagrado, encontra-se o próprio Cristo. Não há espetáculo. Não há brilho exterior. Não há demonstrações de poder humano. Há apenas a presença humilde do Verbo Encarnado que permanece entre os seus.
São João da Cruz compreendeu isso profundamente. A "fonte escondida" da qual fala seu poema não é apenas uma imagem poética. É uma realidade teológica. É Cristo, fonte de toda graça, que permanece acessível à alma mesmo quando esta caminha na escuridão da fé. A noite, para o santo carmelita, não é ausência de Deus; é o caminho pelo qual Deus purifica o olhar para que aprendamos a amá-Lo por Ele mesmo e não pelos seus consolos.
Por isso, as palavras do Papa encontram eco tão profundo na tradição do Carmelo. Elas recordam que a verdadeira vida espiritual não consiste em procurar luzes extraordinárias, mas em permanecer junto da Fonte. A alma contemplativa não vive de evidências, mas de confiança. Não se apoia no que vê, mas naquele que sabe estar presente.
Em cada sacrário do mundo continua escondida essa fonte eterna. Ali está Aquele que sustentou os mártires, fortaleceu os confessores da fé, consolou os aflitos e iluminou os místicos. Ali está o Cristo silencioso que espera pacientemente a visita dos seus amigos.
Talvez muitos de nós atravessemos noites pessoais: enfermidades, dificuldades familiares, crises espirituais, incertezas sobre o futuro. Nesses momentos, São João da Cruz continua repetindo, através dos séculos, sua profissão de fé serena e inabalável: a fonte continua correndo. A graça continua agindo. Cristo continua presente.
E quando a alma aprende a buscar essa presença escondida, descobre que a noite já não é um lugar de desespero, mas um espaço de encontro. Porque quem conhece a Fonte jamais caminha sozinho.
No coração do Carmelo, onde o silêncio se transforma em oração e a oração em contemplação, permanece viva essa certeza: Jesus Eucaristia é a fonte escondida que nunca deixa de jorrar. E aqueles que se aproximam dela com humildade encontram a água viva que sacia toda sede e conduz à vida eterna.
Por seu Irmão Carmelita Secular da Antiga Observância, B.