Na noite em que Deus trabalha em silêncio
Há épocas em que os homens acreditam possuir mapas para tudo. Mapas para a economia, para a política, para a tecnologia, para a felicidade. Julgam conhecer os caminhos, prever os ventos e dominar os horizontes. Mas chega o momento em que os mapas envelhecem. As estradas desaparecem sob a névoa. As certezas racham. E então surge aquilo que São João da Cruz chamava simplesmente de noite.
A noite não é apenas a ausência de luz. A noite é a falência das luzes falsas.
Talvez seja precisamente esta a experiência do nosso tempo. Vivemos cercados por informações e, paradoxalmente, desorientados. Multiplicam-se as vozes, mas escasseia a sabedoria. Crescem os meios de comunicação, mas diminui a comunhão. O homem moderno alcançou os astros, mas frequentemente já não sabe encontrar o caminho para o próprio coração.
Foi nesse contexto que as palavras do Papa Leão XIV ressoaram em Madrid com a força serena dos grandes mestres espirituais. Ao recordar São João da Cruz e Santa Teresa de Jesus, ele não evocou figuras de museu, nem santos confinados ao século XVI. Trouxe à memória duas almas que continuam caminhando pelas estradas do século XXI.
Porque os santos não envelhecem.
A sua linguagem pode parecer antiga; o seu fogo, jamais.
São João da Cruz compreendeu algo que o homem contemporâneo ainda luta para aceitar: Deus trabalha muitas vezes no escuro. Quando o Senhor deseja construir uma alma, frequentemente começa por desmontar os seus apoios. Retira certezas humanas, quebra imagens inadequadas, silencia ruídos interiores. Não para destruir, mas para purificar.
A noite é dolorosa porque somos apegados às nossas pequenas luzes.
Gostamos de controlar. Gostamos de compreender. Gostamos de possuir respostas.
Mas Deus não é uma resposta.
Deus é um mistério.
E o mistério não se conquista; acolhe-se.
Por isso a noite sanjuanista não é um castigo. É uma pedagogia divina. O Pai conduz a alma por caminhos desconhecidos para libertá-la da ilusão de que pode salvar-se sozinha. A escuridão torna-se então um ventre espiritual onde nasce uma nova criatura.
A noite dói porque está acontecendo um parto.
E enquanto João contempla a noite, Teresa contempla o castelo.
Não são imagens opostas. São imagens complementares.
A noite purifica o olhar.
O castelo revela o que o olhar purificado pode enxergar.
Durante muito tempo imaginou-se a vida espiritual como uma fuga do mundo. Os místicos, para muitos, seriam pessoas refugiadas em experiências privadas, distantes das dores humanas. Mas Teresa destrói essa caricatura. Quanto mais a alma entra nas moradas interiores, mais aprende a amar. Quanto mais se aproxima de Deus, mais se aproxima dos homens.
O coração não é uma trincheira.
É uma porta.
Ao penetrar nas profundezas da alma, o homem não encontra apenas a si mesmo. Encontra Aquele que o habita. E quando encontra Deus no centro do castelo, tudo muda de lugar. As tensões não desaparecem magicamente, mas deixam de governar a existência. As feridas não se apagam, mas deixam de definir a identidade da pessoa.
O mundo permanece o mesmo.
Mas os olhos são outros.
Talvez seja esse o significado mais profundo da expressão utilizada pelo Papa: "místicos de olhos abertos".
Olhos abertos para Deus.
Olhos abertos para o sofrimento humano.
Olhos abertos para a verdade.
Olhos abertos para a esperança.
A verdadeira contemplação nunca aliena. Nunca adormece a consciência. Nunca transforma o cristão em espectador da história. Pelo contrário. Quem encontrou Deus torna-se mais sensível à dor do próximo, mais atento à dignidade humana, mais comprometido com a paz.
O carmelita sabe disso.
A subida do Monte Carmelo não termina no cume.
Do alto da montanha, avista-se melhor o vale.
Quanto mais profunda a oração, mais concreta deve ser a caridade.
Quanto mais íntima a união com Deus, mais universal se torna o coração.
Vivemos tempos inquietos. O medo do futuro cresce. As divisões se multiplicam. Muitos sentem que caminham sem bússola. Entretanto, a tradição carmelitana continua repetindo, com a serenidade dos séculos, aquilo que ensinou aos nossos pais espirituais: Deus não abandona a alma na noite.
Mesmo quando tudo parece silêncio, Ele está trabalhando.
Mesmo quando nada parece avançar, Ele está conduzindo.
Mesmo quando a razão não compreende, a graça continua agindo.
A noite não é o fim do caminho.
É parte do caminho.
E o castelo não é um esconderijo.
É a escola onde aprendemos a olhar o mundo com os olhos do próprio Deus.
Talvez seja justamente disso que nossa época mais necessite: homens e mulheres que não tenham medo da noite porque conhecem a fidelidade da aurora; almas que entrem no castelo interior não para fugir dos irmãos, mas para regressar a eles trazendo a luz da presença divina.
Porque, no fim, toda a mística carmelitana pode ser resumida numa única certeza:
Quando tudo parece escuro, Deus continua sendo Deus.
E isso basta.
"Nada te perturbe, nada te espante. Tudo passa. Deus não muda. A paciência tudo alcança. Quem tem Deus nada lhe falta. Só Deus basta." — Santa Teresa de Jesus
Por seu Irmão Carmelita Secular da Antiga Observância, B