Consistório Extraordinário de junho debaterá Guerra Justa, Encíclica Magnifica Humanitas e Sinodalidade, revela Carta aos Cardeais
ROMA, 4 de junho de 2026 — A pauta do próximo Consistório Extraordinário convocado pelo Papa Pope Leo XIV veio a público e oferece a indicação mais clara até agora sobre os temas que estarão no centro das reflexões do Colégio Cardinalício nos dias 26 e 27 de junho, no Vaticano.
Segundo uma carta enviada aos cardeais pelo Decano do Colégio Cardinalício, Giovanni Battista Re, o encontro será dedicado à análise da situação internacional, ao estudo da nova encíclica Magnifica Humanitas e ao acompanhamento do processo de implementação da sinodalidade na Igreja.
A correspondência, datada de 3 de junho e divulgada pelo blog italiano Messa in Latino, detalha a estrutura dos trabalhos e os principais assuntos que serão debatidos pelos cardeais reunidos com o Santo Padre.
Um encontro voltado à escuta e ao discernimento
Na carta, o Cardeal Re explica que o objetivo do consistório é favorecer a escuta mútua, o discernimento e a reflexão compartilhada sobre questões consideradas centrais para a missão da Igreja no contexto atual.
O Decano afirma que o Papa deseja beneficiar-se da experiência e do conselho dos membros do Colégio Cardinalício e, ao mesmo tempo, contar com sua colaboração ativa nas diversas responsabilidades pastorais exercidas ao redor do mundo.
Segundo o texto, os trabalhos deverão ocorrer em um clima de liberdade, escuta e parresia — termo tradicionalmente utilizado na Igreja para indicar uma fala franca e corajosa.
Primeira sessão: situação internacional e desafios das Igrejas locais
A abertura do consistório será dedicada a uma reflexão sobre a situação internacional e sobre os desafios enfrentados pelas Igrejas locais.
Os cardeais serão convidados a responder a duas perguntas centrais:
Quais sofrimentos, tensões e questionamentos afetam atualmente com maior intensidade os povos e comunidades eclesiais confiados aos seus cuidados?
Quais sinais de esperança, fidelidade ao Evangelho e possibilidades de reconciliação merecem ser apresentados à reflexão comum da Igreja?
O objetivo será oferecer ao Papa um panorama global das preocupações e esperanças presentes nas diversas regiões do mundo.
Duas sessões dedicadas à encíclica Magnifica Humanitas
A segunda e a terceira sessões serão dedicadas ao estudo aprofundado da encíclica Magnifica Humanitas, publicada recentemente por Leão XIV.
Guerra, paz e a teoria da guerra justa
A segunda sessão abordará especialmente o Capítulo V da encíclica, intitulado “A Cultura do Poder e a Civilização do Amor”, com atenção particular aos números 182 a 192.
Segundo a carta, os participantes refletirão sobre a crescente polarização, a violência e os conflitos que marcam a sociedade contemporânea.
O documento pontifício afirma que:
“A paz não é simplesmente uma questão entre outras, mas um requisito para o bem comum universal e um teste da maturidade moral dos povos.”
A discussão buscará aprofundar o impacto dessas realidades sobre as Igrejas que vivem em regiões marcadas pela guerra e pela instabilidade política, mas também sobre sociedades que experimentam divisões internas e dificuldades de convivência.
De maneira particular, os cardeais serão convidados a refletir sobre como reafirmar atualmente a afirmação da encíclica segundo a qual:
“A teoria da ‘guerra justa’, tantas vezes utilizada para justificar qualquer tipo de guerra, encontra-se hoje superada.”
Além disso, deverão ser examinados caminhos concretos para a promoção, preservação e construção da paz entre os povos e nas comunidades cristãs.
Desenvolvimento humano integral e bem comum
A terceira sessão terá como ponto de partida a proposta da encíclica de interpretar as transformações contemporâneas à luz do Evangelho.
Os cardeais serão convidados a discutir a ideia de construção do bem comum e a orientar o desejo humano de felicidade e realização para aquilo que o documento chama de desenvolvimento humano integral.
O objetivo será refletir sobre os desafios culturais, sociais e econômicos do mundo atual à luz da doutrina cristã.
Sinodalidade permanece no centro da agenda eclesial
A sessão final será dedicada ao processo de implementação da sinodalidade, uma das iniciativas mais significativas do pontificado de Pope Francis e que o Papa Leão XIV já manifestou intenção de prosseguir.
Os cardeais receberão informações atualizadas sobre os trabalhos em andamento a partir do documento:
“Toward the Assemblies 2027–2028: stages, criteria, and tools for preparation”.
Após essa apresentação, haverá um período de diálogo livre entre os membros do Colégio Cardinalício e o Santo Padre.
De acordo com a carta, cada intervenção será limitada a três minutos.
Datas e locais do consistório
O Consistório Extraordinário acontecerá nos dias 26 e 27 de junho, nas dependências da Sala Paulo VI e da Sala do Sínodo, no Vaticano.
Os trabalhos serão concluídos em 29 de junho, na celebração da Solenidade dos Santos Pedro e Paulo, na Saint Peter's Basilica.
Na ocasião, o Papa presidirá a Santa Missa, abençoará os pálios e os entregará aos novos arcebispos metropolitanos.
A carta também informa que não haverá Missa concelebrada no dia 28 de junho, diferentemente do que havia sido indicado anteriormente.
Um consistório de consulta e definição de rumos
Embora a carta não mencione explicitamente questões litúrgicas, a pauta revela as prioridades que o Papa Leão XIV deseja colocar diante do Colégio Cardinalício neste início de pontificado.
Os temas da paz internacional, da crítica à teoria da guerra justa, da promoção do desenvolvimento humano integral e da continuidade do caminho sinodal indicam um encontro voltado principalmente ao discernimento sobre os desafios contemporâneos da Igreja e do mundo.
Observadores vaticanos consideram que as discussões poderão oferecer importantes sinais sobre as orientações pastorais e teológicas que deverão marcar os próximos anos do atual pontificado.
Por Diane Montana jornalista americana em Roma, credenciada junto à Santa Sé
3 de junho de 2026 - Carta do Cardeal Giovanni Battista Re aos Cardeais
DECANO DO COLÉGIO DOS CARDEAIS
Do Vaticano, 3 de junho de 2026
Sua Eminência,
Tendo em vista o próximo Consistório, que terá lugar nos dias 26, 27 e 29 de junho deste ano, desejo levar ao seu conhecimento as seguintes informações.
Como já foi experimentado no encontro anterior, esta ocasião destina-se, acima de tudo, a ser um espaço de escuta mútua, discernimento e reflexão compartilhada sobre algumas questões importantes para a vida e a missão da Igreja no tempo presente. O Santo Padre deseja, de fato, beneficiar-se da experiência e do conselho dos membros do Colégio Cardinalício e, ao mesmo tempo, poder contar com a assistência ativa e o apoio de cada um nos diversos lugares e responsabilidades em que serve à Igreja. Por esta razão, será importante que nosso trabalho comum seja realizado em espírito de escuta, liberdade e parresia, de modo a favorecer um discernimento compartilhado acerca das questões que seremos chamados a abordar.
As sessões de trabalho serão estruturadas em torno de quatro temas principais, distribuídos ao longo dos diversos dias.
A primeira sessão assumirá a forma de uma meditação compartilhada sobre a situação internacional. Em um clima de oração, seremos convidados a apresentar ao Senhor aquilo que estamos vivendo nas diferentes partes do mundo e nas Igrejas locais. A partilha será orientada por duas perguntas:
Quais sofrimentos, tensões e questões estão hoje afetando com maior intensidade os povos e as comunidades eclesiais confiados aos seus cuidados?
Quais sinais de esperança, fidelidade ao Evangelho e possibilidades de reconciliação o senhor considera importantes apresentar à nossa reflexão comum?
A segunda e a terceira sessões serão dedicadas a um estudo mais aprofundado da encíclica Magnifica Humanitas, disponível, juntamente com diversos materiais complementares, no site magnificahumanitas.org.
A segunda sessão será dedicada a uma troca de experiências baseada no Capítulo V, “A Cultura do Poder e a Civilização do Amor”, com especial referência aos números 182–192. Diante da difusão de uma cultura marcada pela polarização, pela violência e pelo aumento dos conflitos, a encíclica enfatiza que:
“A paz não é simplesmente uma questão entre outras, mas uma condição prévia para o bem comum universal e um teste da maturidade moral dos povos” (n. 182).
A troca de experiências ajudará a tornar-nos mais conscientes da forma como esta realidade afeta dolorosamente a experiência de muitos de vós, especialmente daqueles que provêm de territórios marcados pela guerra, ao mesmo tempo em que interpela também outros contextos, nos quais reaparecem linguagens, lógicas e práticas que enfraquecem a possibilidade da reconciliação e da convivência.
De modo particular, seremos convidados a refletir sobre como reafirmar hoje que:
“A teoria da ‘guerra justa’, que demasiadas vezes foi utilizada para justificar qualquer tipo de guerra, encontra-se hoje ultrapassada” (n. 192),
e sobre quais caminhos concretos podem ajudar os povos e as comunidades cristãs a preservar e construir a paz.
Na terceira sessão, tomando como ponto de partida a perspectiva da “construção do bem comum”, recordada tanto na introdução quanto na conclusão de Magnifica Humanitas, cuja leitura vos convidamos a realizar, pretendemos explorar conjuntamente o convite da encíclica a interpretar as transformações do nosso tempo à luz do Evangelho e a orientar o desejo humano de felicidade e realização para o desenvolvimento humano integral.
Na sessão final, um primeiro período será dedicado à atualização dos membros do Colégio sobre o processo de implementação do Sínodo, à luz do recente documento “Rumo às Assembleias 2027–2028: etapas, critérios e instrumentos de preparação”.
Em seguida, haverá um período de diálogo livre entre os membros do Colégio e o Santo Padre, com intervenções limitadas a três minutos cada.
A partir da experiência do Consistório realizado em janeiro passado, recomenda-se vivamente uma preparação adequada para este encontro, não apenas por meio de uma consideração atenta das questões que serão abordadas, mas também e sobretudo mediante a oração e uma renovada atenção à vida das Igrejas confiadas aos vossos cuidados pastorais.
Com efeito, a contribuição de cada Cardeal é tanto mais fecunda quanto mais nasce do contato vivo com o Povo de Deus, com as suas esperanças, os seus questionamentos e também as suas dificuldades.
Desejo também recordar que o Consistório terá lugar nos dias 26 e 27 de junho, na Sala Paulo VI e na Sala do Sínodo, e será concluído em 29 de junho, na Saint Peter's Basilica, quando o Santo Padre presidirá a Santa Missa da Solenidade dos Santos Pedro e Paulo, abençoará os pálios e os entregará aos novos Arcebispos Metropolitanos.
Peço ainda que tomem nota de que não está prevista a celebração de uma Eucaristia concelebrada no domingo, 28 de junho, conforme havia sido anteriormente indicado.
Confiando este tempo de preparação à intercessão da Bem-Aventurada Virgem Maria, Mãe da Igreja, renovo a minha gratidão pelo vosso generoso serviço e asseguro-vos a minha lembrança na oração.