O homem da roça e a criança da esperança

Nem todos viam aquela cena. Mas bastou um instante para compreender que a simplicidade continua sendo o caminho mais curto para Deus.

Há sonhos que passam como nuvens de verão: surgem, mudam de forma e desaparecem sem deixar vestígios. Há outros, porém, que permanecem. Não pela força da imagem, mas pela qualidade da paz que deixam na alma. São como o perfume do incenso após a liturgia: a chama se apagou, mas a fragrância continua habitando o templo.

Numa dessas noites silenciosas, quando o mundo repousava sob o manto do mistério e os sentidos entregavam-se ao descanso, surgiu diante de meus olhos uma cena singular.

Não era uma catedral.

Não era um altar.

Não era uma grande assembleia.

Era uma roça.

Uma paisagem simples, quase esquecida pelos homens modernos, mas nunca esquecida por Deus. Terra, horizonte, silêncio. O cenário possuía aquela pobreza luminosa que tantas vezes aparece na Sagrada Escritura, onde o Senhor prefere manifestar-se longe dos palácios e perto dos campos.

E ali estava ele.

Monsenhor Jonas Abib.

Não o conheci pessoalmente em vida. Nunca lhe apertei a mão. Nunca recebi dele uma bênção face a face. Conheci-o como milhares de brasileiros: através das transmissões da Canção Nova, da voz firme anunciando Jesus Cristo, da perseverança de quem gastou a existência inteira para que outros encontrassem o Senhor.

Contudo, naquele sonho, sua presença era inconfundível.

Eu o via.

Os demais pareciam não vê-lo.

Falava e apontava para ele, como quem tenta mostrar uma estrela oculta pela claridade do dia. A cena possuía algo de profundamente bíblico. Recordava os profetas que contemplavam realidades invisíveis aos olhos comuns. Não porque fossem melhores do que os outros, mas porque, por um instante, lhes era concedida uma percepção diferente.

Ali compreendi algo que a tradição carmelitana ensina há séculos: Deus nem sempre fala através do extraordinário. Muitas vezes fala através do discreto. A voz divina não costuma competir com o barulho do mundo; prefere a linguagem delicada do vento suave experimentado por Elias no Horeb.

E havia mais.

Monsenhor Jonas carregava uma criança.

Não uma criança qualquer.

Havia nela uma vivacidade singular. Uma inteligência luminosa. Um olhar que parecia ultrapassar a idade que possuía. Não falava, ao menos não me recordo de palavras. Mas sua presença dizia muito.

Na tradição espiritual, a criança é um dos maiores símbolos do Evangelho.

É a confiança.

É a simplicidade.

É a pureza de intenção.

É a alma que ainda sabe depender.

Quando Nosso Senhor colocou uma criança diante dos discípulos, não apresentou apenas um exemplo moral. Revelou uma chave do Reino dos Céus.

Talvez por isso aquela imagem tenha ficado gravada tão profundamente.

O velho missionário carregava nos braços a infância espiritual.

Aquele sacerdote que passou a vida evangelizando parecia agora apresentar silenciosamente aquilo que sustentou toda a sua obra: a confiança filial em Deus.

Enquanto o mundo exalta a autossuficiência, a criança proclama a dependência.

Enquanto o mundo celebra o poder, a criança revela a humildade.

Enquanto o mundo busca dominar, a criança simplesmente recebe.

Eis o paradoxo do Evangelho.

Eis a sabedoria dos santos.

A cena ocorria numa roça.

Isso também não me parece sem significado.

Os grandes mestres espirituais ensinaram que Deus prefere as terras simples para realizar suas maiores colheitas. O Reino é comparado a sementes, vinhas, figueiras, trigo e mostarda. A linguagem divina possui cheiro de terra molhada.

Talvez aquela roça simbolizasse a alma.

Talvez representasse o campo interior onde o Senhor continua semeando graças, mesmo quando pensamos que nada está acontecendo.

Talvez fosse um lembrete de que a santidade não nasce nas vitrines do mundo, mas no escondimento.

Santa Teresa de Jesus ensinava que Deus passeia entre as panelas.

São João da Cruz afirmava que a sabedoria divina floresce no silêncio.

Os antigos monges procuravam o deserto porque sabiam que a alma só escuta certas vozes quando o ruído diminui.

E naquela roça havia silêncio.

Um silêncio cheio de significado.

Um silêncio fecundo.

Um silêncio habitado.

Ao despertar, não encontrei inquietação.

Não encontrei medo.

Não encontrei perturbação.

Permaneceram a paz, a alegria, a saudade e a admiração.

E isso talvez seja o mais importante.

A tradição carmelitana sempre recomendou prudência diante de sonhos e experiências extraordinárias. Não devemos construir certezas sobre aquilo que não compreendemos plenamente. Nem buscar fenômenos por curiosidade espiritual.

Mas também não devemos desprezar os pequenos toques da Providência.

Quando uma experiência conduz à paz, à oração, à gratidão e ao amor de Deus, ela já cumpriu uma finalidade santa.

Não sei explicar inteiramente aquele sonho.

Talvez ninguém possa.

Os sonhos pertencem àquela região misteriosa onde memória, graça, imaginação e mistério se encontram.

Mas guardo uma convicção.

Naquela noite não recebi uma mensagem para satisfazer a curiosidade.

Recebi uma imagem para alimentar a esperança.

Vi um sacerdote que gastou a vida anunciando Cristo.

Vi uma criança que recordava a simplicidade do Evangelho.

Vi uma roça que falava do terreno escondido da alma.

E, sobretudo, experimentei aquela paz silenciosa que tantas vezes acompanha as coisas que vêm de Deus.

Algumas experiências são explicadas pela razão.

Outras são compreendidas pela contemplação.

Talvez esta pertença à segunda categoria.

Como uma semente lançada na terra, ela permanece.

Oculta.

Silenciosa.

Mas viva.

Esperando o tempo da colheita.

Se eu tivesse de resumir o simbolismo do sonho em uma frase, seria algo assim:

"Volte ao essencial da fé, conserve a simplicidade do coração e cuide daquilo que Deus está fazendo nascer em sua vida."

Por Ir. Alan Lucas de Lima, OTC
Carmelita Secular da Antiga Observância