O coração por onde Deus passa

Santa Teresa nos recorda: quem deseja alcançar os mais altos segredos de Deus não deve afastar-se da humanidade de Cristo. O caminho da contemplação passa pelo Seu Coração.

Há um perigo sutil na vida espiritual. Não é o pecado escandaloso, nem a negação aberta da fé. É algo mais discreto. É a tentação de querer um Deus sem rosto, sem carne, sem lágrimas, sem coração.

Talvez seja por isso que a Solenidade do Sagrado Coração de Jesus continue sendo tão necessária em nossos dias. Vivemos em uma época fascinada pelo abstrato. Muitos querem uma espiritualidade elevada, uma experiência do divino sem mediações, uma luz sem cruz, uma eternidade sem encarnação. Entretanto, o Evangelho insiste em nos conduzir na direção contrária: Deus fez-se homem.

Ao meditar o capítulo 22 do Livro da Vida, de Santa Teresa de Jesus, somos introduzidos numa das mais profundas correções espirituais da tradição carmelitana. Teresa havia experimentado altos graus de oração. Conhecia os caminhos da contemplação. Contudo, em determinado momento, acreditou que deveria deixar para trás a humanidade de Cristo para alcançar uma união mais pura com Deus.

Era uma tentação antiga. Talvez tão antiga quanto a própria alma humana.

Mas o Senhor permitiu que ela compreendesse algo decisivo: não existe atalho para Deus que passe ao largo de Jesus Cristo. Não existe contemplação autêntica que dispense aquele que nasceu em Belém, caminhou pelas estradas da Galileia, chorou diante do túmulo de um amigo e derramou sangue sobre a madeira da Cruz.

Teresa percebeu que, ao afastar-se da humanidade de Cristo, não estava subindo. Estava se perdendo.

E aqui encontramos uma chave extraordinária para compreender o mistério do Sagrado Coração.

O Coração de Jesus não é apenas um símbolo devocional. Não é uma imagem piedosa destinada a adornar paredes ou oratórios. O Coração de Cristo é a revelação do modo como Deus ama.

O Deus infinito escolheu possuir um coração humano.

Isso deveria nos desconcertar mais do que desconcerta.

O Criador das galáxias quis experimentar a amizade. Quis sentir compaixão. Quis conhecer a fadiga, a dor, a rejeição e a ternura. O Verbo eterno não se limitou a visitar a humanidade; assumiu-a para sempre.

O Carmelo sempre compreendeu esta verdade com especial delicadeza. A contemplação carmelitana não busca escapar do mundo para encontrar uma divindade distante. Busca penetrar tão profundamente no mistério de Cristo que a alma acaba habitando o próprio amor de Deus.

Por isso Teresa não nos conduz para além da humanidade de Jesus. Ela nos faz mergulhar nela.

O contemplativo autêntico não fecha os olhos para a humanidade de Cristo. Fecha-os para enxergá-la melhor.

Quando o silêncio da oração se torna árido, é o Coração de Cristo que permanece.

Quando as consolações desaparecem, é o Coração de Cristo que permanece.

Quando a inteligência já não encontra respostas para os mistérios da vida, é o Coração de Cristo que permanece.

Talvez a maior tragédia do homem moderno não seja ter perdido a fé em Deus, mas ter esquecido que Deus possui um coração.

Um coração que continua aberto.

Um coração que continua ferido.

Um coração que continua esperando.

E é precisamente por isso que a devoção ao Sagrado Coração continua sendo revolucionária. Ela proclama que o centro do universo não é uma força anônima, nem um destino impessoal, nem uma energia cósmica. O centro do universo é uma Pessoa que ama.

O coração do homem procura sentido. O Coração de Cristo oferece comunhão.

O coração do homem busca repouso. O Coração de Cristo oferece abrigo.

O coração do homem teme suas feridas. O Coração de Cristo transforma as feridas em portas de misericórdia.

Talvez, no fim das contas, a grande lição de Santa Teresa seja esta: os segredos mais altos de Deus não se encontram acima da humanidade de Jesus, mas dentro dela.

Ali está a porta.

Ali está o caminho.

Ali está a fonte.

Ali está o fogo.

E ali continua pulsando o Coração que amou primeiro.

Sagrado Coração de Jesus, fazei o nosso coração semelhante ao vosso.

Por seu Irmão Carmelita Secular da Antiga Observância, B.